O apito do Trensurb corta a tarde de Canoas com a mesma pontualidade de sempre, um som metálico que há décadas divide não apenas o ar, mas o próprio chão da cidade. Para um sinhô antigo dos canoenses, sentado em um banco de praça no Centro, observar o vai e vem dos vagões é como ler as cicatrizes da própria terra: de um lado o Leste, do outro o Oeste, separados por uma extensa muralha de ferro, pedra e concreto.
Ele ajeita a boina, sorve um gole longo de chimarrão e repassa as memórias de quem já viu de tudo passar por esses trilhos. Lá atrás, em 2011, a promessa soava quase mágica. A história contada pela gestão de Jairo Jorge era de que o trem iria mergulhar, virando um tatu metálico sob o asfalto entre a Inconfidência e o Canoas Shopping, num projeto orçado em 198 milhões. Os anos passaram, a verba do PAC da Mobilidade não chegou, o projeto dormiu nas gavetas de Brasília, e a cicatriz continuou ali, dividindo o trânsito, o comércio e a convivência.
Mas o canoense tem uma teimosia poética. Agora, o papo nas esquinas mudou de direção: já que o trem não desce, o trem vai subir.
Essa nova novela começou a ganhar seus primeiros contornos no inverno de julho de 2025, quando o prefeito Airton Souza desembarcou na capital federal com uma lista ousada nas mãos. Entre buscar 23 milhões com a Defesa Civil para fechar as feridas das enchentes e tentar salvar a gestão dos hospitais via Grupo Conceição, estava lá a semente da elevação. A meta era cravar no Novo PAC aquele trecho nevrálgico, da estação Canoas até a Mathias Velho, casando a ideia com a construção do túnel da Domingos Martins.
O velho apenas balançou a cabeça na época. Papel aceita tudo, pensava ele.

Porém, fevereiro de 2026 trouxe ventos mais concretos. Enquanto Canoas inteira respirava aliviada com a prorrogação do Passe Livre anunciada no Salão de Atos da Unilasalle, nos corredores atapetados de Brasília a engrenagem política girava. O prefeito, ladeado pelo vereador Gabriel Constantino, sentou com o Secretário Nacional de Mobilidade Urbana, Denis Andia, e o presidente da Trensurb, Nazur Garcia. De repente, a obra virou prioridade. Abriram-se portas para financiamentos, agendaram-se reuniões para março, e a palavra “integração” começou a ecoar de verdade.
E eis que chegamos a estes dias de outubro, com o Diário Oficial do dia 26 confirmando o que muitos achavam ser apenas mais um conto político. Um acordo oficial assinado entre a Prefeitura e a Trensurb. São dois anos de cooperação técnica, sem envolver dinheiro neste primeiro momento, apenas para colocar na ponta do lápis a viabilidade de suspender 2,7 quilômetros de trilhos — da Rua Caiçara, no coração do Centro, até a Avenida Rio Grande do Sul, no Mathias Velho. O documento, com seu linguajar engravatado, avisa ser tudo preparatório, focado em diagnósticos, o primeiro passo para conseguir os 10 milhões necessários só para elaborar o projeto executivo.
Para os céticos, é apenas mais um ofício na pilha da burocracia. Mas, para o nosso velho observador, há um brilho diferente no ar. Ele sabe que toda grande transformação urbana nasce primeiro nas trincheiras dos estudos técnicos. Se a estrutura finalmente subir, Canoas deixará de ser duas metades para virar um todo contínuo. O Centro pulsará de forma única, os prédios históricos ganharão luz e respiro, e cruzar do Oeste para o Leste deixará de ser uma travessia fragmentada.
O trem apita de novo, encerrando o embarque e partindo pesado em direção à próxima estação. O sinhô antigo bate a erva da cuia e dá um sorriso miúdo, de quem aprendeu com o tempo a não ter pressa.
Talvez demore, talvez ele precise de muita paciência para ver, de fato, os vagões flutuando sobre o Centro. Mas a semente da mudança foi plantada e oficializada. E em Canoas, a esperança viaja sempre no próximo vagão.
Em recentes conversas sobre o futuro do município, o prefeito Airton Souza reafirmou seu compromisso com a modernização urbana e foi categórico sobre a aguardada obra nos trilhos: “O sonho é muito mais que isso, é realização”. O prefeito destacou que confia em sua boa relação e forte articulação com o governo federal para conseguir, definitivamente, viabilizar a elevação do trem. Segundo Airton, a concretização desse projeto não é apenas uma obra de infraestrutura, mas o passo definitivo para devolver o centro à cidade, integrando bairros, melhorando a mobilidade e resgatando o coração do município para as pessoas.
A LUTA EM DATAS
- 2011: Surgimento da primeira grande proposta de alteração estrutural da via. A gestão do então prefeito Jairo Jorge tentou viabilizar um projeto para tornar subterrâneo um trecho de 2 km entre a Avenida Inconfidência e o Canoas Shopping, orçado em R$ 198 milhões via PAC da Mobilidade, mas a obra não saiu do papel.
- Julho de 2025: O prefeito Airton Souza vai a Brasília apresentar ao Ministério das Cidades a nova roupagem do projeto: a elevação dos trilhos entre as estações Canoas e Mathias Velho. O objetivo é incluir a obra no Novo PAC, atrelando-a à construção do túnel da Domingos Martins.
- Fevereiro de 2026: Em nova agenda em Brasília, o prefeito e o vereador Gabriel Constantino reúnem-se com o Secretário Nacional de Mobilidade Urbana, Denis Andia, e o presidente da Trensurb, Nazur Garcia. A elevação do trem é classificada como prioridade e o Ministério abre portas para a captação de financiamentos.
- 27 de Fevereiro de 2026: Como parte das ações de mobilidade urbana da cidade, a Prefeitura anuncia em coletiva na Unilasalle a prorrogação do benefício do Passe Livre para os ônibus municipais.
- 21 de Outubro de 2026: Assinatura oficial de um acordo de cooperação técnica (sem custos iniciais e com validade de dois anos) entre a Prefeitura de Canoas e a Trensurb. O foco é elaborar diagnósticos e estudos de viabilidade para elevar um trecho de 2,7 km, da Rua Caiçara (Centro) até a Avenida Rio Grande do Sul (Mathias Velho).
- 26 de Outubro de 2026: O acordo é publicado no Diário Oficial, estabelecendo um prazo de 60 dias para a criação de um plano de trabalho conjunto. A meta prática dessa etapa de estudos é embasar a futura captação de R$ 10 milhões necessários apenas para a elaboração dos projetos executivos.

HISTÓRIA DO TRENSURB EM CANOAS
A malha ferroviária urbana em Canoas evoluiu da antiga linha férrea do século XIX para o moderno sistema de trens de superfície que hoje corta a cidade, tornando-a o município com o maior número de estações inauguradas no traçado original.
A Primeira Ferrovia | 14 de abril de 1874
Inauguração da estação original de Canoas pela ferrovia Porto Alegre-São Leopoldo. Este antigo traçado formou o corredor logístico exato onde, mais de um século depois, o metrô seria construído.
Criação da Trensurb | abril de 1980
O governo federal cria a Empresa de Trens Urbanos de Porto Alegre S.A. para construir e administrar um transporte metropolitano de alta capacidade. As obras na região de Canoas começam em seguida, substituindo gradualmente o antigo sistema de trens suburbanos.
Inauguração da Linha 1 | 2 de março de 1985
A Trensurb inicia oficialmente suas operações. Canoas é a cidade mais impactada pelo trajeto, recebendo simultaneamente seis estações ao longo de seu território: Niterói, Fátima, Canoas (atualmente Canoas/La Salle), Mathias Velho, São Luís e Petrobras.
Preservação Histórica | 14 de abril de 2010
O antigo prédio da estação ferroviária de 1934, que operou até a chegada do novo sistema, é oficialmente tombado como patrimônio histórico e cultural do município, convivendo lado a lado com a moderna Estação Canoas da Trensurb.

Paralisação Total | maio de 2024
Enchentes sem precedentes no Rio Grande do Sul inundam quilômetros de trilhos, equipamentos de energia e o pátio de manutenção. A operação dos trens é totalmente interrompida por semanas.
Retomada Emergencial | junho a julho de 2024
A linha retorna parcialmente. A estação Mathias Velho torna-se o ponto vital de conexão de toda a Região Metropolitana, servindo como terminal obrigatório de transbordo para centenas de ônibus fretados em direção a Porto Alegre. Em 1º de julho, a estação Canoas/La Salle também é reaberta aos passageiros.
Conexão restabelecida | 24 de dezembro de 2024
Após meses de obras de recuperação da via férrea, a Trensurb retoma a operação completa até a Estação Mercado no centro de Porto Alegre, normalizando o trajeto direto sem a necessidade de baldeação de ônibus.
A enchente de 2024 alterou drasticamente a dinâmica de mobilidade de Canoas. Com o bloqueio dos trilhos em direção à capital, as estações do município absorveram sozinhas toda a carga de escoamento e integração da região norte, sustentando o transporte de milhares de trabalhadores diariamente em um formato de emergência.








