A GIGANTE DE VIDRO | A Ascensão e as Ruínas da Vifosa em Canoas

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Você tem passado pela rua Araçá rumo ao Bairro Mato Grande?

Aliás a Araçá é uma rua onde Canoas parou no tempo, ela já foi estrela com moradias históricas e de um dos nossos maiores clubes, o Clube de Bolão Gaúcho, hoje decadente como a rua. Nesta rua reinou durante décadas a Vifosa, hoje em ruinas que dão lugar a novos empreendimentos imobiliários no coração de Canoas guardam o eco de uma era em que o fogo das fornalhas e o tilintar das garrafas ditavam o ritmo do progresso local. A Vifosa (Vidraria Figueiras Oliveiras S.A.) nunca foi apenas uma fábrica; foi um pilar da identidade industrial de uma cidade que crescia a passos largos na metade do século XX.

Tudo começou no final da década de 1940. Em 1949, Canoas ainda era uma cidade jovem, recém-emancipada, quando a Vidraria Figueiras S.A. decidiu se instalar em solo canoense. A escolha não foi por acaso: a proximidade com Porto Alegre e a facilidade logística oferecida pelos trilhos da viação férrea tornavam a localização estratégica.

Ocupando uma área vasta, a Vifosa logo se tornou uma das maiores empregadoras da região. Para a época, a magnitude das instalações era impressionante. A fábrica transformou a paisagem do bairro lho e arredores, atraindo trabalhadores de diversas partes do Estado que buscavam a estabilidade do setor vidreiro.

Do Brinde ao Isolamento: Os Produtos Icônicos

A produção da Vifosa era diversificada e essencial para o Brasil que se modernizava. Entre os seus produtos mais famosos estavam:

  • As Garrafas “Patente”: A Vifosa era a fonte das icônicas garrafas de cerveja que abasteciam as principais cervejarias do país. O vidro escuro e resistente produzido em Canoas estava presente em todas as mesas, do Rio Grande ao Nordeste.
  • Isoladores de Redes Elétricas: Em um período de grande expansão da eletrificação no Brasil, a fábrica produzia isoladores de vidro e cerâmica fundamentais para as linhas de transmissão.
  • O Charme do “Cinzeiro de Isolador”: Um detalhe curioso que atravessou gerações foi o reaproveitamento estético desses componentes. Ter um cinzeiro feito a partir de um isolador da Vifosa era um símbolo de status e modernidade nas casas canoenses da época — uma peça de design industrial que hoje é item de colecionador.

Com o sucesso e a escala de produção, a fábrica despertou o interesse de gigantes do setor. Mais tarde, a unidade passou a integrar o grupo Santa Marina (pertencente à multinacional Saint-Gobain). Sob a nova bandeira, a fábrica continuou a ser uma referência tecnológica na produção de embalagens de vidro, mantendo seu papel central na economia de Canoas por décadas.

O Silêncio das Chaminés e o Fim de uma Era

Como muitos gigantes da indústria pesada, a fábrica enfrentou os desafios das mudanças de mercado, da logística urbana e da necessidade de modernização tecnológica que nem sempre era viável no mesmo local. Com o encerramento das atividades, o imponente complexo industrial entrou em um longo período de abandono.

O que antes era um símbolo de força e produtividade tornou-se, gradualmente, um conjunto de escombros. As paredes de tijolos aparentes, que viram milhares de trabalhadores passarem por seus portões, começaram a ceder ao tempo e à vegetação.

Do Vidro ao Concreto: O Mercado Imobiliário

Hoje, as ruínas da Vifosa estão sendo demolidas. O solo que um dia sustentou fornos de altíssima temperatura agora recebe as fundações da verticalização urbana. A área, indiscutivelmente valorizada pela sua localização central e dimensões, cedeu espaço para o pujante mercado imobiliário de Canoas.

Embora as estruturas físicas estejam desaparecendo, a memória da Vifosa permanece viva nos relatos de ex-funcionários e na história da cidade. Ela representa o “DNA industrial” de Canoas — uma cidade que se construiu entre o vidro, o aço e o suor de sua gente.

Linha do Tempo da Vifosa

  • 1949: Instalação da Vidraria Figueiras em Canoas.
  • Anos 50/60: Auge da produção de garrafas de cerveja e isoladores elétricos.
  • Anos 70/80: Consolidação como parte do grupo Santa Marina.
  • Anos 2000: Encerramento das atividades e início do processo de degradação.
  • Atualidade: Demolição das ruínas e preparação do terreno para empreendimentos imobiliários.

Um Monumento Para Lembrar Quem Somos

A história da Vifosa é o lembrete de que o progresso é um ciclo constante de renovação, onde o novo se ergue sobre as memórias do que um dia foi a base de tudo.

Aqui cabe uma sugestão ao poder público, manter a fachada da sede com sua caixa d’água como um monumento em homenagem à  fábrica que foi uma pioneira do progresso de Canoas.

Colaborou com fotos e ideias: Paulo Garcez

 

 

Uma Resposta

  1. Trabalhei 23 anos de minha vida nessa fábrica, na manutenção elétrica, de1989 à 2012 quando fechou as portas. Mais que uma empresa, foi um lugar onde de colegas nos tornamos uma família! Amizades que levamos para a vida toda. A indústria vidreira é uma experiência de vida e profissional indescritível!

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