CAMINHOS DA VIDA | Se não recaí… por que voltei?

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Estive na Fazenda no domingo, 3 de dezembro de 2006. Hoje encontro este texto de janeiro de 2009, escrito após ter passado o Natal de 2008 na C.T. Fazenda Renascer.

Olhar para esse texto 20 anos depois revela que o meu “voltar para me proteger” em 2008 não foi um sinal de fraqueza, mas o maior exemplo de vigilância e maturidade. O que naquela época era um conjunto de “metas” a serem praticadas sob supervisão, hoje se tornou o meu próprio caráter; a disciplina e a honestidade deixaram de ser regras de uma comunidade para se tornarem a fundação natural de minha vida em liberdade. A “chama” que eu tanto temia que se apagasse em 2009 tornou-se, ao longo de duas décadas, um farol de serenidade, provando que a recuperação sólida é construída na humildade de reconhecer quando precisamos de um porto seguro para não perder o que temos de mais valioso: a nossa paz.

Se não recaí… por que voltei?

(Texto escrito em 2008)

Passei uma semana como residente da Comunidade Terapêutica Fazenda Renascer, sem mordomias, realizando todo o trabalho e seguindo a disciplina rígida de horários e tarefas que nos são sugeridas durante o período em que se permanece por lá.

Mas voltei… por quê? Se não recaí…

Voltei para me proteger, principalmente das festas de fim de ano — o Natal e o Ano-Novo — e também para renovar minhas energias de recuperação. Manter viva a chama da recuperação, para mim, é fundamental, pois, se eu não reconhecer que sou doente e que estou em recuperação, posso cair novamente. Não é isso que quero, nem minha família, que apostou e continua apostando em minha nova forma de encarar a vida.

Neste período de residência, vi como a rotina na “rua” nos leva a relaxar na recuperação. É muito fácil eu me esquecer, por exemplo, das reuniões de metas — um exercício praticado na Fazenda no qual o residente recebe uma meta, deve praticá-la e, após sete dias, é avaliado por seus companheiros.

As metas são as seguintes:

  • Espiritualidade: Aceitar, ajudar e respeitar os outros como eles são; não guardar rancor; buscar um Poder Superior.
  • Comportamento: Mudar o comportamento de “ativa” (modo de agir da dependência).
  • Aceitação: Aceitar a mim mesmo e aos outros. Aceitar que preciso de ajuda.
  • Partilha: Partilhar dificuldades e alegrias sobre a programação.
  • Boa Vontade: Fazer as coisas bem-feitas, com vontade. Estar sempre pronto para ajudar (3º Passo).
  • Disciplina: Ter horários, respeito, educação, postura e determinação.
  • Mente Aberta: Aceitar sugestões, absorver dificuldades e transformá-las em crescimento (2º Passo).
  • Adaptação: Adaptar-se aos horários, normas, grupo, etc.
  • Perseverança: Perseverar no cumprimento do programa.
  • Interiorização: Conhecer a si mesmo, buscar o autoconhecimento.
  • Busca do Programa: Ser participativo em reuniões e na espiritualidade; buscar ajudar os outros. Buscar literaturas e absorver o máximo de informações possível.
  • Paciência: Não agir por impulso; agir sem ansiedade, sem pressa. Buscar compreender e entender.
  • Humildade: Quebrar o orgulho. Ser o que realmente é, sem máscaras.
  • Seriedade: Manter a seriedade nos momentos certos. Levar o programa a sério.
  • Serenidade: Estar tranquilo, calmo; pensar antes de agir; aceitar.
  • Autoestima: Gostar de si mesmo. Cuidar da higiene e das roupas. Sentir-se bem e valorizar-se.
  • Honestidade: Assumir suas responsabilidades. Não mentir nem enganar. Cumprir a palavra, sem máscaras nem falsidade (1º Passo).
  • Autovigia: Não se descuidar do tratamento, horários, objetos e normas (1º Passo). Vigiar-se nos relacionamentos.
  • Cooperação: Estar sempre pronto a ajudar. Cuidar para não sujar ou atrapalhar o serviço dos outros.

Não tive a oportunidade de participar de uma dessas reuniões de ajuda mútua, pois era um período de festas e a rotina era voltada ao trabalho e a muita espiritualidade. Mas o que mais procurei praticar na comunidade, em meu retorno, foram principalmente duas coisas: Disciplina e Espiritualidade.

Pude perceber como a rotina lá fora faz com que percamos a disciplina ensinada na Fazenda; e eu achava que estava fazendo tudo certo na rua. Que nada! Fui pego em várias falhas nesse quesito, como: esquecer roupas e chinelos, ou falar em horários impróprios, entre outras coisas.

Quanto à espiritualidade, sempre pratico a “convencional”, que é ler textos relativos ao assunto e trocar mensagens com ex-residentes. Mas todos sabemos que espiritualidade é muito mais que isso. Espiritualidade é estar bem consigo mesmo, e isso se reflete nos relacionamentos. É servir sem querer recompensas. Tarefa difícil esta, mas me saí bem!

Fui quebrando, aos poucos, a desconfiança dos residentes que me achavam um “olheiro” da direção ou que pensavam que eu estava “querendo aparecer” como curado. Comecei a me relacionar muito bem com todos. Quando o professor de Tai Chi Chuan, Mestre Adriano Jagmin D’Avila, me perguntou o que eu fazia por lá, respondi:

— Porque estou feliz, e um coração feliz fica e se sente bem em qualquer lugar!

 

IMPORTANTE

Este é um dos muitos textos sobre recuperação da dependência química e do álcool que escrevi durante os 20 anos de minha caminhada rumo a sonhada sobriedade. Não sei se alcançarei, sobriedade é muito mais que parar com o uso do álcool e das drogas, mas estou no caminho certo. O projeto é um livro, ele vai sair.

Por enquanto, de quando em vez irei colocar um dos textos em nosso site e em um futuro livro, se ajudar alguém que estiver procurando ajuda, já estarei gratificado.

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