CONTRAPONTO | Zona Azul em Canoas: Fardo Arrecadatório ou Ferramenta de Cidadania?

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O texto a seguir é o registro de um debate essencial para o futuro da mobilidade em Canoas, gestado no ambiente de diálogo da Câmara Paralela da Aldeia. Em pauta, um tema que divide opiniões e afeta o cotidiano de milhares de motoristas e comerciantes: a reimplantação do sistema de estacionamento rotativo, a “Zona Azul”.

De um lado, a visão crítica do advogado e jornalista Rodrigo Schmitt, que personifica o descontentamento do cidadão com falhas operacionais e a carga financeira sobre o contribuinte. De outro, o contraponto técnico e político do vereador Jonas Dalagna, que defende o sistema como ferramenta indispensável de gestão urbana e democratização do espaço público.

Mais do que uma divergência sobre parquímetros e multas, o que se apresenta é um duelo de perspectivas sobre o papel do Estado na organização da cidade e a balança entre o bem-estar individual e o interesse coletivo.

 

 Zona Azul: Transtornos, despesas para o cidadão comum e nenhum benefício real

*Rodrigo Schmitt

O sistema de estacionamento rotativo, conhecido como Zona Azul, sempre gerou descontentamento entre os motoristas de Canoas. Contraponho, com todo o respeito, as ideias do vereador Jonas, que defende sua implementação de forma corajosa, inteligente e ciente da impopularidade de sua opinião, pois muitos cidadãos afirmam que as promessas de melhorias não se concretizaram enquanto o sistema esteve em vigor.

A dificuldade em encontrar máquinas de pagamento funcionais é uma das principais queixas. A presença dos agentes de fiscalização, muitas vezes percebida como excessiva, se concentra na aplicação de multas, em busca de metas famigeradas, gerando a sensação de que a experiência de estacionamento é mais um desafio do que uma solução.

Motoristas enfrentavam uma verdadeira “caça ao tesouro” para encontrar agentes que pudessem ajudar, especialmente em momentos de pressa, além da rotineira quebra dos aparelhos emissores de bilhetes, que são incomodamente pouco intuitivos no manuseio. Com a pressão de multas constantes, a prática de deixar notificações nos veículos, seguida pela abordagem de guardadores de rua, intensifica a insatisfação. Para muitos, o processo de estacionamento tornou-se mais uma despesa a cada duas horas, sem qualquer alívio ou facilidade para encontrar vagas, que sempre foram um martírio, já que os papéis se avolumavam nos para-brisas dos carros que permaneciam inertes nas mesmas vagas.

Não pode ser diferente: não há como exigir que os motoristas retirem seus veículos de onde estão estacionados em duas horas, pois as pessoas estacionam seus veículos para compromissos longos. É impossível imaginar que alguém seja compelido a retirar o veículo em tão curto espaço de tempo. Na realidade, isso nunca aconteceu e nem tem como acontecer.

A possibilidade de reintroduzir o sistema de cobrança tem gerado insatisfação. Muitos cidadãos temem que isso traga mais complicações do que soluções, lembrando tentativas anteriores, como o projeto de “zona verde”, que foi abandonado após pressão popular. A preocupação é que novas medidas possam acentuar os problemas já existentes, sem proporcionar benefícios reais à população.

Os desafios são ainda mais intensificados pela precariedade das ruas, que permanecem em péssimo estado, e pela presença de radares móveis que apenas aumentam a arrecadação, sem contribuir para a segurança no trânsito. Com impostos em alta e a perspectiva de mais cobranças para estacionar, a insatisfação popular se agrava.

A administração municipal é instada a considerar as preocupações da população canoense, adotando medidas que priorizem o bem-estar dos cidadãos. A questão da Zona Azul e a atuação dos fiscais de trânsito continuam sendo tópicos controversos, evidenciando a necessidade de um equilíbrio entre a fiscalização necessária, benefícios reais e a promoção de um trânsito mais fluido e amigável, para que possamos, de fato, ser felizes em Canoas.

*Advogado e Jornalista

 Zona Azul: organização do espaço público, eficiência urbana e responsabilidade com a cidade

*Jonas Dalagna

O debate sobre o estacionamento rotativo, a chamada Zona Azul, desperta paixões, críticas e receios legítimos. Li com atenção o artigo “Zona Azul: Transtornos, despesas para o cidadão comum e nenhum benefício real” e, com o mesmo respeito empregado pelo autor, sinto-me no dever de apresentar um contraponto claro, técnico e honesto à população de Canoas.

Começo sendo direto: para mim, a Zona Azul não deveria nem ter sido pausada. À época, o sistema acabou suspenso por uma combinação de atrasos operacionais, apontamentos do Tribunal de Contas do Estado e, principalmente, por uma decisão política da antiga gestão. Não foi uma rejeição técnica ao modelo, tampouco uma prova de sua ineficiência. Foi, antes de tudo, uma escolha administrativa e política.

Defendo que o estacionamento rotativo volte, e explico o porquê.

O espaço urbano público é um bem escasso e caro. Em cidades médias e grandes, como Canoas, o metro quadrado tem alto valor econômico e social. Quando uma vaga pública é gratuita, sem controle e sem limite efetivo, ela tende a ser apropriada por poucos por longos períodos. Isso não é justiça social, nem eficiência urbana, é privilégio disfarçado de gratuidade.

O estacionamento rotativo existe justamente para corrigir essa distorção. Ao precificar o uso do solo público, ele estimula a rotatividade, amplia o acesso às vagas e reduz a ocupação permanente. O resultado é simples e mensurável: mais vagas disponíveis, menos tempo rodando à procura de estacionamento e, consequentemente, menos congestionamento e menos poluição.

É importante esclarecer um ponto frequentemente mal compreendido: o objetivo da Zona Azul não é obrigar ninguém a “tirar o carro em duas horas” no meio de um compromisso longo. O sistema nunca funcionou assim, e nem deve funcionar. Ele permite renovações, alternativas digitais e escolhas racionais: quem precisa permanecer mais tempo pode optar por estacionamentos privados, transporte coletivo ou outras formas de deslocamento. Isso é planejamento urbano, não punição.

Sobre as críticas à operação passada, máquinas quebradas, dificuldades de pagamento e falhas na comunicação, elas são legítimas. Mas aqui é preciso separar problema de execução de falha de conceito. Um sistema mal operado deve ser corrigido, modernizado e fiscalizado, não simplesmente abandonado. Hoje, há soluções digitais mais simples, aplicativos acessíveis e modelos mais eficientes do que aqueles usados no passado.

Quanto à fiscalização, vale reforçar: fiscalização não é sinônimo de perseguição, e multa não pode ser tratada como política pública, mas como última medida. A Zona Azul bem implementada prioriza informação, orientação e organização do espaço, não a arrecadação pelo erro do cidadão.

No comércio, a experiência de diversas cidades mostra o oposto do que muitos temem. Mais rotatividade significa mais clientes diferentes, maior fluxo de pessoas e melhor acesso aos estabelecimentos. Vagas ocupadas o dia inteiro pelos mesmos veículos não fortalecem o comércio local; ao contrário, afastam consumidores. Nesse contexto, o preço não é punição, é um instrumento de eficiência econômica e de equidade no uso do espaço público, como já defendido por urbanistas e especialistas em mobilidade.

Também é preciso dizer com franqueza: Zona Azul não resolve sozinha todos os problemas da cidade. Ela não tapa buracos, não substitui investimentos em infraestrutura e não elimina a necessidade de melhorias no transporte coletivo. Mas isso não é argumento para descartá-la. Política pública não funciona no “ou tudo ou nada”. Ela funciona na soma de soluções.

Sei que minhas posições, muitas vezes, são impopulares. Sei que defender cobrança em espaço público nunca rende aplausos fáceis. Mas minha responsabilidade, como vereador, não é agradar momentaneamente, é pensar a cidade com racionalidade, justiça e visão de futuro.

Organizar o uso do espaço urbano não é tirar direitos, é ampliar o acesso. E Canoas precisa, cada vez mais, de políticas públicas que enfrentem problemas reais, mesmo quando isso exige coragem para sustentar opiniões que não agradam politicamente.

Esse debate é legítimo, necessário e deve continuar. Mas ele precisa ser feito com dados, lógica urbana e compromisso com o interesse coletivo, não apenas com a insatisfação momentânea que toda mudança, inevitavelmente, provoca.

*Vereador de Canoas

 

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2 Respostas

  1. Estivemos na praia de Torres no veraneio passado. Gostamos de frequentar um buffet muito bom, mas por ficar no centro, a dificuldade era muita em encontrar um estacionamento. Neste veraneio, tivemos a grata surpresa de encontrar implantado o estacionamento rotativo. Além de haver muitas vagas desocupadas, tinha a facilidade de apontar pra placa indicativa de área azul onde tem um QRcold para pagamento com Pix. Valor: apenas 2 reais por 1 hora.

  2. Parabéns s Vereado Jonas, colocaste as coisas no lugar, porque beneficiar pessoas que trabalham no centro, que estacionam seu veículo durante todo dia, prejudicando a coletividade por não encontrar uma vaga para deixar seu carro por algum tempo!

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