Esta é uma daquelas memórias que definem a identidade esportiva de uma cidade. Relembrar a Superliga Masculina de 1997/1998 não é apenas falar de um título, mas sim de uma das maiores demonstrações de resiliência e liderança que o Ginásio Tesourinha e a cidade de Canoas já testemunharam.
O “Dunga Argentino”: O Valor de Carlos Javier Weber
Para entender a conquista da Ulbra, é preciso dissecar a figura de Carlos Javier Weber. Como bem descreveu Leandro Mariani Mittimann, Weber era a “extensão do técnico dentro de quadra”. Em um esporte que muitas vezes privilegia a altura e a força bruta, o levantador argentino provou que o vôlei também é um jogo vencido “pela cabeça”.
O apelido de “Dunga argentino” não era gratuito. Weber possuía aquela liderança ríspida, necessária nos momentos de crise, combinada com uma lucidez tática absoluta. Ele era o coração pulsante de um time que, no papel, enfrentava uma seleção de estrelas no Olympikus (com nomes como Carlão, Maurício e Giba).
O valor de Weber para aquele grupo manifestou-se em três pilares fundamentais:
Liderança sob Sacrifício: O episódio no Tesourinha, durante o quarto jogo da final, é lendário. Atuar com um ponto aberto na perna, após uma cirurgia recente, e ainda assim manter a precisão dos levantamentos e o ímpeto de cobrança sobre os companheiros, transformou Weber de um atleta técnico em um herói místico daquela campanha.
A “Química” com Gilson: A conexão entre Weber e Gilson “Mão de Pilão” era quase telepática. O texto de Mittimann ressalta que pareciam “gêmeos”, uma simbiose onde a precisão do levantador potencializava a força devastadora do atacante.
Mentalidade Vencedora: Weber trouxe a “garra argentina” — aquela postura de não dar bola perdida até o apito final — que acabou por contagiar os jogadores mais jovens e desestabilizar o favoritismo carioca.

A Virada Histórica: O Espírito de Canoas
O vídeo da final (abaixo) ilustra perfeitamente a tensão daquele quarto set no Tesourinha. O Olympikus estava a poucos pontos de fechar o campeonato, mas a Ulbra, empurrada por uma torcida fervorosa e pela resiliência de seus líderes, encontrou forças para virar um cenário que parecia irreversível.
Enquanto o time carioca contava com o talento individual, a Ulbra de Jorginho Schmidt contava com a personalidade. Weber, mesmo visivelmente no sacrifício, gesticulava, incendiava o ginásio e mantinha a ordem tática. Essa vitória no play-off em Porto Alegre foi o combustível necessário para que o time fosse ao Rio de Janeiro e confirmasse o título vencendo por 3×1 e sagrando-se campeã, consolidando a superação sobre o favoritismo. O time da Ulbra naquela época marcou época no voleibol gaúcho e brasileiro, sendo reconhecido pela força e coletividade.
Para a memória esportiva de Canoas, aquela Superliga 97/98 simboliza o momento em que a cidade se tornou o epicentro do vôlei nacional. Foi a consagração de um projeto que uniu técnica, paixão e, acima de tudo, a figura inesquecível de um capitão que jogou com o coração, mesmo quando o corpo pedia para parar.
VEJA O FINAL (VIRADA HISTÓRICA) NO QUARTO SET
https://youtu.be/yp_Wa80zcKg?si=2ZhAIHuQePlyvD6r

UM JOGADOR FORA DE SÉRIE
24 • JORNAL DC | ESPORTE | Sexta-feira, 09 de abril de 1999
O Dunga argentino
*Leandro Mariani Mittimann
Levantador Weber é um dos jogadores mais importantes na campanha pelo bi da Ulbra
Os cabelos são espetados. Ele não é muito alto mas é forte, do tipo entroncado. Nasceu para comandar, e por onde passou tornou-se líder entre os jogadores, uma espécie de extensão do técnico dentro no time. Extrapola a determinação em berros de incentivo com os companheiros. Impõe-se à arbitragem e incendeia a torcida quando o time mais precisa dela. Mostra-se lúcido em qualquer declaração, e tem personalidade nas opiniões. É um vencedor, especialmente na seleção, onde atuou por anos seguidos. Enfim, é o típico atleta que é craque a partir da cabeça.
A descrição do parágrafo anterior cabe perfeitamente ao perfil do volante colorado Dunga, o capitão do tetra. Mas a história a ser contada daqui para frente refere-se ao levantador Carlos Javier Weber, 33 anos, o capitão da Ulbra/Pepsi. Tudo o que foi dito nas primeiras linhas fecha com a descrição desse argentino de Buenos Aires, torcedor “doente” do River Plate. Ele é o coração do time gaúcho que embarca às 9h30min de hoje para São Paulo iniciar a busca do bicampeonato brasileiro de vôlei.
A ligação direta de Weber com o esporte começou em 7 de janeiro de 1966, um dia depois do nascimento. O pequeno Carlos foi filiado pelo pai ao River, um dos mais tradicionais clubes argentinos. Aos 7 anos, Weber começou a jogar vôlei e, um ano depois, futebol – ambos os esportes nas categorias de base no clube de Avellaneda. Aos 18, precisou optar, e o goleiro júnior do River preferiu seguir a tradição familiar – os pais foram jogadores de vôlei. “Decidi pela minha paixão”, justifica. Outras paixões na vida de Weber são a esposa Maria Virginia, a filha Vanessa, 8, e Martin, 4.
Assim como a mãe, Weber chegou à seleção argentina aos 19 anos, onde é capitão há uma década. Ao falar do prazer em vestir a camisa azul e branca, não segura a vibração. “Eu amo jogar pela seleção argentina”, declara. “Jogar pela seleção é o máximo, uma honra. Me entrego 100%”, revela. “Devo muito à seleção”. Depois de 14 anos, o levantador confidencia querer um “tempo para a família e á Ulbra”, pelo menos até outubro. Para sempre na memória de Weber a medalha de bronze na Olimpíada de Seul/88, após derrotar o Brasil, e o primeiro lugar no Pan-Americano de Mar del Plata/95, ao superar os EUA no tie-break, por 21/19, diante de dez mil enlouquecidos argentinos.
“Cheguei no momento exato à Ulbra”, garante, ao descrever o que é jogar no que poderá ser seu último clube como jogador (em dois anos Weber planeja tornar-se técnico). Antes de Canoas, onde obteve sua maior conquista como atleta (a Superliga 97/98), ainda jogou dois anos por Chapecó (SC), no argentino Velez Sarsfield, e sete temporadas no vôlei italiano, de 1988 a 1995, em times de Palermo, Pissa, Florença, Veneza e Napoli. Em todos, o mesmo temperamento. “O jogador argentino é desse jeito. Guerreiro mesmo, não dá mole até o final”, justifica. “Acabou o jogo, e ter consciência tranquila que deixou tudo lá dentro”.
SUPER TOQUES Especial
Gilson — O levantador Weber e o ponta Gilson seriam gêmeos caso o vôlei fosse uma mãe. É como se os dois tivessem vindo ao mundo para jogarem juntos. “Jogar com ele é difícil descrever”, explica Weber. “É muito mais que confiança”, conta o levantador. “Tenho uma química muito especial com ele”, afirma Weber, que também é amigo pessoal do atacante.
Suzano — Weber prevê uma final contra o Report/Suzano disputada “ponto a ponto”. “Nosso time está bem e crescendo. A Ulbra tem personalidade”, destaca, otimista. “Vivemos momentos parecidos (de irregularidade)”, avalia a campanha dos dois times. O levantador considera vantagem jogar duas ou mesmo, três das partidas do play-off em casa.
Liderança — Weber sabe – e os companheiros agradecem – que ele pode ir muito além de apenas exercitar a posição de levantador. Ao lado de outros experientes do time, como Marcelo e Bráulio, todos trintões, Weber exerce a liderança. “Minha função no time não é só levantar a bola”, justifica. “É difícil um argentino ser capitão de brasileiros”, surpreende-se.
Tesourinha — No quarto jogo da decisão da Superliga 97/98, no Tesourinha, Weber atuou heroicamente com um buraco na perna esquerda causado por uma cirurgia para extirpar um furúnculo, dois dias antes. Ele entrou no decorrer do jogo, e ajudou a virar quando o Olympikus já comemorava o título. “Eu sentia que praticamente abria quando eu corria. E queimava”, conta.
Futebol — Weber tem uma admiração: “O futebol brasileiro é bonito de assistir”, afirma. “É bem jogado, os gols são bonitos, as jogadas começam de atrás”. Quanto à rivalidade, não segura um sorriso ao lembrar a vitória da Argentina sobre o Brasil na Copa da Itália/90, mas, politicamente, destaca a derrota argentina para o Brasil na Espanha, em 1982. “A rivalidade é muito bonita”.
Maradona — O levantador entristece um pouco ao comentar a situação do craque Diego Maradona, que deixou os campos em conseqüência do consumo de drogas. “Foi o melhor jogador que vi jogar. Não vi Pelé”, conta. “Ele tem uma doença, que é a droga”. “Espero o melhor para ele. Por ele e pelas filhas”. Weber lembra que Maradona “é o maior ídolo que teve a Argentina”.
OS DESTAQUES DA GRANDE VIRADA
Essa conquista da Ulbra/Diadora na temporada 1997/1998 é, sem dúvida, um dos capítulos mais bonitos do esporte em Canoas e no Rio Grande do Sul. Foi a vitória do “Davi contra Golias”, já que o Olympikus tinha um investimento muito superior e astros como Nalbert, Carlão e o argentino Milinkovic.
O elenco que operou esse milagre no Tesourinha e depois no Maracanãzinho era marcado por uma mistura de experiência internacional e a famosa “raça gaúcha”.
*Jornalista

Elenco da Ulbra/Diadora (1997/1998)
Os principais nomes que entraram para a história naquela final épica foram:
- Javier Weber (Levantador): O argentino foi o cérebro do time. Mesmo jogando no sacrifício na final (com dores após uma cirurgia simples na perna), sua entrada no jogo 4 no Tesourinha mudou o destino da série.
- Gilson Bernardo “Mão de Pilão” (Oposto): O grande carrasco do Olympikus. Foi o maior pontuador da final e o símbolo da força ofensiva da equipe.
- André Heller (Central): Revelação na época, o central de Novo Hamburgo foi peça fundamental no bloqueio e no meio de rede.
- Alex Lenz (Ponta): Um dos pilares do passe e do ataque pelas extremidades.
- Marcelo Fink (Central): Outro nome importante na rede gaúcha.
- Jefferson Orth “Jeffe” (Ponta): Muito seguro tecnicamente, ajudava no equilíbrio do fundo de quadra.
- Marcelo Mâncio (Ponta): Jogador de muita confiança de Jorginho Schmidt.
O grupo completo ainda contava com: Joel (Levantador reserva), Hernani (Central), Fernandão (Central), Jonas, Betão, Willian e Gatin.

Comissão Técnica
O comando fora de quadra foi o grande diferencial estratégico para desestabilizar o favorito Olympikus:
- Técnico: Jorginho Schmidt. Ele foi o arquiteto desse time, trazendo uma mentalidade vencedora e uma organização tática que superou o talento individual das estrelas do Rio.
- Auxiliar Técnico: Nilo Borges.
Curiosidade de bastidor: O jogo no Tesourinha (o 4º da série) é lembrado pelo calor humano absurdo e pela “invasão” da torcida de Canoas, que empurrou o time para o tie-break após estarem perdendo por 2 sets a 1. Aquela vitória em Porto Alegre tirou o “oxigênio” do Olympikus, que acabou perdendo o jogo decisivo no Rio por 3 a 1.

ONDE ESTÁ JAVIER WEBER
Carlos Javier Weber, ex-levantador da seleção argentina e medalhista olímpico, atua atualmente como treinador de vôlei. Em 2024/2025, ele segue trabalhando na comissão técnica da seleção masculina dos EUA, ao lado de John Speraw e também foi treinador principal do JT Thunders no Japão.
Atuação Atual e Histórico:
- Seleção Masculina dos EUA:Weber se juntou à comissão técnica americana, colaborando com os treinadores da equipe principal.
- JT Thunders (Japão):Weber assumiu o comando técnico da equipe japonesa, focando em sua carreira como treinador.
- Passagem pelo Brasil:Treinou o Vôlei Taubaté (Funvic) entre 2020 e 2021, onde conquistou a Superliga, mas teve uma saída conturbada no final de 2021.
- Histórico como Levantador:Participou de três Jogos Olímpicos (bronze em Seul 1988) e cinco Campeonatos Mundiais, consolidando sua carreira na Argentina antes de virar técnico.
Weber é reconhecido por sua experiência internacional, tanto como jogador quanto no comando de grandes clubes e seleções.














