O que começou como uma medida de socorro emergencial em meio à maior tragédia climática do Rio Grande do Sul acaba de se tornar uma política de Estado. O prefeito de Canoas, Airton Souza, anunciou nesta sexta-feira (27) a transformação do Passe Livre no transporte público em uma política definitiva. Com a decisão, Canoas assume o posto de maior cidade do estado e a segunda maior do Brasil a adotar a tarifa zero de forma universal e permanente.
A gratuidade, que vinha sendo prorrogada desde as enchentes de maio de 2024, agora não possui mais prazo de validade. O novo decreto estabelece um modelo técnico onde o subsídio é repassado diretamente à concessionária, calculado com base na tarifa técnica e no volume real de passageiros.
“Hoje Canoas dá um passo histórico. Estamos falando de milhares de pessoas que voltaram a circular pela cidade, a acessar oportunidades, a buscar emprego, saúde e educação sem que o custo da passagem seja uma barreira”, afirmou o prefeito Airton Souza durante o anúncio.
Os números sustentam a magnitude da decisão. Antes da implementação do modelo, a média mensal de utilizações girava em torno de 852 mil passageiros. Sob a égide da tarifa zero, esse número saltou para uma média de 1,45 milhão de utilizações mensais, atingindo picos de 1,6 milhão — um crescimento que revela uma demanda antes reprimida pelo fator financeiro.
A decisão da administração de Airton Souza e Rodrigo Busato não deve ser lida apenas como um ajuste de contas ou uma promessa de campanha cumprida; trata-se de um divisor de águas na gestão pública brasileira.
Ao remover a catraca, Canoas redefine o transporte como um “direito-meio”. É o ônibus gratuito que viabiliza o acesso ao “direito-fim”: a consulta médica que não é desmarcada, a entrevista de emprego que se torna possível e o lazer em família que deixa de ser um luxo proibitivo. Para muitas famílias canoenses, os R$ 5,50 anteriormente cobrados representavam a escolha cruel entre o deslocamento e o prato de comida.
Manter um sistema que custa aproximadamente R$ 6 milhões mensais exige o que muitos gestores evitam: coragem política e austeridade real. A prefeitura optou por cortar na própria carne — revisando contratos e reduzindo aluguéis de imóveis e veículos — para priorizar a ferramenta social do transporte.
Sob o prisma econômico, a tarifa zero funciona como uma injeção direta de renda no bolso do cidadão. O dinheiro que não fica na catraca circula no comércio do bairro, na farmácia da esquina e na padaria local. É um ciclo virtuoso que já foi observado em cidades pioneiras como Parobé e que agora ganha escala metropolitana em Canoas.
Enquanto o Governo Federal e o Ministério das Cidades debatem modelos nacionais de financiamento para a tarifa zero, Canoas se oferece como um “laboratório vivo”. A experiência prova que o modelo de financiamento custeado exclusivamente pelo usuário está exaurido.
Ao consolidar o Passe Livre, Canoas não apenas reconstrói o que as águas levaram; ela constrói um futuro onde a cidade pertence, de fato, a todos os seus habitantes. É uma vitória da cidadania e um exemplo de que a justiça social pode ser o norte da eficiência administrativa.
O GOVERNO FEDERAL
Tarifa Zero: SUS do Transporte Público será política de governo e poderá custar até R$ 80 bilhões
Governo federal articula criação de sistema nacional inspirado no modelo da saúde para garantir gratuidade universal no transporte público urbano
O projeto de criação do chamado “SUS do Transporte Público” está ganhando força nos bastidores do governo federal e pode estar mais próximo de se tornar realidade. A iniciativa, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pretende incluir em seu programa de governo para tentar a reeleição, busca estabelecer um sistema nacional estruturado para viabilizar a Tarifa Zero em todo o País.
Estimativas técnicas iniciais indicam que zerar o custo das passagens de ônibus nos municípios que têm o serviço regular exigiria um investimento entre R$ 65 bilhões e R$ 80 bilhões por ano.
A proposta é inspirada na universalização do Sistema Único de Saúde (SUS), sob a premissa de que a implementação da gratuidade exige mudanças profundas nos mecanismos de custeio e incentivos ao setor. Atualmente, o Ministério da Fazenda elabora estudos sobre como viabilizar a Tarifa Zero. O ministro da pasta, Fernando Haddad, prometeu entregar este material antes de deixar o cargo, o que acontecerá até abril. O Ministério das Cidades e da Casa Civil também estão envolvidos nos trabalhos.















