A 98ª edição do Oscar, realizada no Dolby Theatre, em Los Angeles, pode ter terminado sem estatuetas douradas para o Brasil, mas é um equívoco falar em derrota. Para quem entende que o cinema é, antes de tudo, uma manifestação de resistência e talento, “O Agente Secreto” saiu da cerimônia como um verdadeiro vencedor.
Diferente das polarizações e torcidas políticas que muitas vezes nublam o julgamento crítico, o longa de Kleber Mendonça Filho estava lá, altivo, disputando em quatro categorias de peso: Melhor Filme, Melhor Ator (com a atuação monumental de Wagner Moura), Seleção de Elenco e Filme Internacional. Estar entre os melhores do mundo, igualando recordes históricos de produções como “Cidade de Deus”, já é um feito que transcende qualquer troféu de metal.
Para os que torcem contra — movidos por uma satisfação frustrada ou pelo velho “complexo de vira-lata” — fica o lembrete de que o esforço para fazer arte no Brasil é hercúleo. Costumam usar o termo “tupiniquim” para tentar desqualificar o suor de quem coloca nossa identidade nas telas, mas o que vimos em Hollywood foi o orgulho de um cinema que se recusa a ser coadjuvante.
Embora o favoritismo de produções como “Uma Batalha Após a Outra” e “Valor Sentimental” tenha se confirmado na noite de domingo, o reconhecimento prévio em festivais como Cannes e as vitórias no Globo de Ouro e Critics Choice já haviam pavimentado o caminho. O que estava em jogo no Oscar não era a validação do talento de Wagner Moura ou da direção de Kleber, pois essa já foi assinada pela crítica internacional e pelo público que levou milhões de pessoas às salas de cinema em 2025.
O cinema brasileiro não é feito apenas de “estrelas”; ele é construído por lutadores abnegados. São profissionais que pesquisam, que vão à luta e que harmonizam sotaques e regionalismos em narrativas complexas, muitas vezes tratando de feridas abertas como a nossa própria história política. Nem todos os filmes contam com “Deus que é Brasileiro” no elenco — como diz a famosa expressão — mas todos os que chegam a esse patamar são frutos de uma dedicação inquestionável.
Perdemos a estatueta, mas o cinema e a arte sempre vencem. A trajetória de “O Agente Secreto” nos Estados Unidos e na Europa é a prova de que nossa cultura está viva e em evidência. Que o público brasileiro continue prestigiando o que é nosso, pois enquanto houver quem crie com essa coragem, haverá motivos para celebrar.
Viva a arte, de qualquer parte do mundo, mas hoje, especialmente, viva o cinema brasileiro.








