A notícia do ataque ao Centro de Educação Inclusiva e Acessibilidade (CEIA) Professora Dirneide Goulart, em Canoas, não é apenas um registro policial de furto e vandalismo; é o diagnóstico terminal de uma sociedade que perdeu o norte moral. Quando criminosos invadem, pela segunda vez em um curto período de férias, um espaço destinado ao atendimento de estudantes que necessitam de inclusão, eles não estão apenas levando fiação, chromebooks ou aparelhos de ar-condicionado. Eles estão saqueando o futuro de quem já enfrenta batalhas diárias para ser integrado ao mundo.
O que assistimos na madrugada desta quinta-feira no bairro Estância Velha é a materialização da banalização absoluta dos valores. Se não existe mais respeito nem mesmo por aqueles que chamamos de “especiais”, por crianças e jovens que dependem de tecnologias assistivas e de um ambiente acolhedor para se desenvolverem, para onde, exatamente, acreditamos que estamos indo como civilização?
É preciso olhar para além do prejuízo material, que a prefeitura tenta calcular e mitigar. O verdadeiro rombo é humanitário. Os vândalos que depredaram banheiros, cozinhas e roubaram até alimentos e produtos de limpeza demonstraram um desprezo visceral pela vida alheia. É impossível não questionar: o que passa pela mente de alguém que rouba brinquedos pedagógicos e destrói uma estrutura que foi pensada para promover a dignidade?
A atitude de quem comete um crime desse porte é o ápice do egoísmo e da falta de empatia. Seria um exercício de dignidade — se é que ainda resta alguma a esses indivíduos — parar e refletir sobre o valor de uma vida. Afinal, a rede de assistência que eles destroem hoje pode ser a mesma que, amanhã, faltará a um sobrinho, a um filho ou a um irmão desses próprios criminosos. Ao arrancar a fiação do CEIA, eles cortam o laço de esperança de famílias inteiras que agora verão o retorno às aulas, marcado para o dia 20, com o gosto amargo da desassistência.
O poder público, através da Secretaria Municipal de Educação, já trabalha para reconstruir o que foi quebrado. Mas a reconstrução física é a parte fácil. O desafio hercúleo é reconstruir o tecido social que permite que escolas como a Ulisses Machado e a Carrossel também sejam alvos recorrentes de ataques.
Não podemos aceitar o vandalismo contra a educação inclusiva como um “risco do ofício” urbano. É necessário que a comunidade se indigne e que a responsabilidade seja cobrada não apenas judicialmente, mas moralmente. Quem rouba o CEIA não rouba apenas “o governo”; rouba o direito de uma criança especial sorrir, aprender e se sentir parte de algo maior. E um povo que assiste a isso em silêncio está, aos poucos, abrindo mão da sua própria humanidade.














