A investigação sobre o escândalo das eutanásias irregulares na Secretaria de Bem-Estar Animal (SMBEA) de Canoas ganhou novos capítulos com a conclusão do Laudo Pericial n° 141289/2025. Com 67 páginas, o documento elaborado pelo Instituto Geral de Perícias (IGP-RS) detalha o cenário encontrado na unidade após a deflagração da “Operação Carrasco”.
O Escândalo: Eutanásia como Política de Gestão
No centro da crise está a ex-secretária Paula Lopes, seu marido e a veterinária Tainara Harth. Todos foram indiciados por associação criminosa e maus-tratos. Segundo a Polícia Civil, o esquema era brutal: em apenas oito meses, pelo menos 498 animais teriam sido sacrificados sem critérios médicos adequados. O objetivo seria reduzir custos operacionais e atingir metas administrativas de forma artificial.
As investigações revelaram práticas chocantes, como a de um cão com fraturas que, em vez de cirurgia, sofreu uma amputação. Há ainda fortes indícios de que atestados de óbito eram falsificados para simular tratamentos que nunca ocorreram, mascarando o sacrifício sistemático de animais que poderiam ter sido salvos.
A Perícia do IGP
No dia 4 de setembro de 2025, os peritos do Departamento de Criminalística realizaram a inspeção técnica na sede da secretaria. Utilizando o Protocolo de Perícia em Bem-estar Animal (PPBEA), a equipe analisou indicadores nutricionais, de conforto, saúde e comportamento de 278 animais.
Principais achados do laudo:
- Condições Gerais: A maioria dos animais apresentava higiene satisfatória e peso adequado.
- Irregularidades Físicas: Foram identificados animais acorrentados e falhas na infraestrutura que permitiam o contato entre animais doentes.
- As Carcaças: 16 corpos de animais foram encontrados congelados. Embora as necropsias dessas amostras específicas não tenham confirmado eutanásia irregular, os peritos sugeriram a necessidade de maior controle e supervisão.
O laudo recomendou medidas imediatas, como a adequação de gaiolas, intensificação de castrações e aprimoramento das feiras de adoção.
Novas Diligências
Diante da complexidade do caso, o Ministério Público solicitou à 3ª Delegacia de Polícia de Canoas o aprofundamento das investigações. O objetivo é buscar provas robustas que sustentem os indiciamentos e preencham as lacunas técnicas sobre o período em que a ex-secretária esteve no comando.
Análise: Uma Perícia Fora do Tempo
É necessário observar que o laudo do IGP, embora tecnicamente rigoroso, foca em um “retrato do momento”. A perícia ocorreu em 4 de setembro, semanas após a exoneração da cúpula da Secretaria, ocorrida em agosto.
Como os fatos investigados — as centenas de mortes sem critério — ocorreram nos meses que antecederam a saída da ex-secretária, a perícia acaba sendo pouco conclusiva sobre o cerne do crime. O que o IGP encontrou foi uma estrutura já em processo de reorganização, deixando uma pergunta no ar: o que teria sido registrado se a perícia tivesse ocorrido de surpresa, no auge das denúncias?















