O comentário de hoje propõe uma análise sobre o contrassenso presente na “política do denuncismo”. Sem a conferência rigorosa dos fatos, denúncias são enviadas aos órgãos de comunicação e, por vezes, publicadas sem a devida análise técnica. Como diz o ditado: “cai quem quer”.
Trataremos do episódio ocorrido ontem: a denúncia realizada pelo Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) e a respectiva nota de esclarecimento emitida pela Prefeitura de Canoas. O objetivo aqui é refletir sobre a responsabilidade ética de todos os atores envolvidos na gestão de informações críticas.
O Quadro Comparativo de Divergências
Abaixo, elencamos os pontos centrais onde a denúncia e a resposta da gestão colidem frontalmente:
| Ponto de Conflito | Alegação da Denúncia (Simers) | Resposta da Gestão (Prefeitura) |
| Pagamentos | Atrasos contumazes e falta de credibilidade financeira. | Quitados integralmente em 07/01/2026; sem atrasos. |
| Capacidade de Leitos | Setor possui 35 leitos (apenas 15 ocupados). | O número oficial e regulado é de 20 leitos. |
| Escala Médica | Dificuldade de fechar escalas; risco de apenas 1 médico para UTI + Partos. | Escala completa no dia 14/01 (2 médicos na UTI + 1 na Sala de Partos). |
| Legislação | Alegação de descumprimento e risco iminente à vida. | Afirmação de que o dimensionamento segue a legislação em vigor. |
Análise do Contrassenso
O principal ponto de divergência reside na natureza dos números apresentados. Enquanto o sindicato aponta uma ociosidade forçada (15 leitos ocupados de um total de 35), a prefeitura afirma que a capacidade real é quase a metade do que foi denunciado (20 leitos).
Este tipo de contradição sugere uma falha grave de comunicação ou de acesso aos dados contratuais:
- A denúncia: pode estar considerando a capacidade física instalada (o espaço físico que comporta 35 berços).
- A resposta: foca na capacidade regulada (leitos efetivamente habilitados e financiados pelo SUS).
- O impacto: denunciar uma “capacidade reduzida” baseando-se em leitos não habilitados gera uma percepção de negligência que pode não corresponder à realidade administrativa.
Antes de levar uma denúncia a público, especialmente em setores de alta complexidade como a UTI Neonatal, a ética profissional e jornalística exige uma rigorosa triangulação de dados.
Por que dizemos isso? Porque Canoas já enfrenta uma crise profunda em suas casas de saúde. O risco de denúncias precipitadas é provocar pânico social com manchetes equivocadas. Imaginem a angústia de mães com bebês internados e gestantes ao lerem sobre supostas negligências e “risco iminente à vida”.
Além disso, há o desgaste da credibilidade. Se os pagamentos foram, de fato, realizados no dia 7 e a denúncia no dia 14 insiste em “atrasos contumazes”, a entidade denunciante perde capital político e técnico para cobranças futuras. Isso também gera desmotivação nos profissionais da ponta, que se sentem injustiçados por relatos que não condizem com a escala real de trabalho.
A gestão da casa de saúde, por outro lado, tem a obrigação de provar que a “normalidade” descrita em nota é a regra, e não uma exceção montada para o dia da visita. Se a resposta for apenas um “verniz” sobre problemas reais, a omissão de fatos pela gestão é tão grave quanto o exagero da denúncia.
O episódio de ontem convoca todos ao Dever da Veracidade: checar pagamentos, entender a diferença técnica entre leitos físicos, operacionais e regulados e, principalmente, respeitar o direito ao contraditório. A direção técnica foi ouvida antes da divulgação para esclarecer se a “escala vazia” era um problema crônico ou pontual?
Em suma, a verdade dos fatos na saúde não é apenas um valor ético, mas uma ferramenta de segurança para o paciente. Quando a denúncia e a resposta não se encontram em um terreno comum de fatos verificáveis, quem perde é a população, que fica refém de narrativas conflitantes em seus momentos de maior vulnerabilidade.
VEJAM A DENÚNCIA E A RESPOSTA
A DENÚNCIA
A UTI Neonatal do Hospital Universitário (HU) de Canoas está operando com capacidade reduzida devido aos atrasos contumazes no pagamento dos médicos. Com isso, há dificuldade em manter os especialistas nas escalas ou encontrar novos interessados. Na manhã desta quarta-feira, 14, uma equipe do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) esteve no local verificando as condições de atendimento. A conselheira Denise Affonso conversou com os profissionais e com o diretor clínico (que representa os médicos), Marcos André dos Santos, que também é diretor do Simers.
O setor conta com 35 leitos, mas apenas 15 estavam ocupados, sendo assistidos por um médico rotineiro e um plantonista. Em alguns turnos há somente um médico especialista, que precisa ainda atender o centro obstétrico. Além disso, não há responsável técnico pela UTI Neonatal. Esse profissional é quem garante suporte às equipes e coordena ações de emergência, por exemplo. Os médicos já solicitaram à direção do HU e ao Cremers a restrição nos atendimentos, mas não obtiveram retorno.
“Se no turno em que estiver só um plantonista ou rotineiro na escala e ocorrer mais de uma intercorrência, ou for preciso prestar auxílio na obstetrícia, há risco iminente à vida”, salientou Denise Affonso. Santos concordou e mostrou preocupação com a dificuldade do hospital para conseguir profissionais, devido à credibilidade abalada com a constante falta de pagamento. A equipe do Simers e o diretor clínico se reuniram ainda com representantes da direção do HU e da Medintegra, empresa responsável por organizar as escalas, expondo os riscos à assistência e cobrando que os honorários sejam quitados.
A RESPOSTA
A Prefeitura de Canoas, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, informa que, conforme informado pela empresa responsável pelo provimento das equipes médicas da UTI Neonatal e da Sala de Partos, todos os profissionais tiveram os valores integralmente quitados no dia 7 de janeiro de 2026, dentro do prazo previsto no contrato vigente com a Associação Saúde em Movimento (ASM), gestora do HU Canoas, não havendo qualquer atraso.
Em relação à assistência, a Secretaria informa que a escala de médicos plantonistas está organizada de acordo com o dimensionamento recomendado pela legislação em vigor. No dia 14 de janeiro de 2026, data da visita do sindicato ao Hospital Universitário, a escala da UTI Neonatal encontrava-se completa, com dois médicos especialistas em atendimento no setor, além de médica atuando na Sala de Partos, conforme registros formais da instituição.
Quanto ao quantitativo de leitos, a Prefeitura esclarece que o número oficialmente disponibilizado e regulado da UTI Neonatal do HU Canoas é de 20 leitos, conforme protocolo vigente, e não de 35, como mencionado na nota divulgada pelo Simers.
A Prefeitura reforça que acompanha permanentemente a execução dos contratos, o funcionamento das escalas médicas e a organização da assistência neonatal, mantendo diálogo contínuo com a gestão hospitalar e as empresas responsáveis, com o compromisso de garantir a continuidade e a qualidade do atendimento prestado à população canoense.














