Falar sobre menstruação ainda é, para muitos, um motivo de desconforto ou segredo. No entanto, o silêncio que cerca esse processo natural do corpo feminino é o mesmo que mascara a falta de acesso a itens básicos de higiene e informação. Quebrar esses tabus não é apenas uma questão de etiqueta, mas uma urgência de saúde pública e direitos humanos. Quando discutimos abertamente a menstruação, estamos lutando pela autonomia das mulheres e pela garantia de que a pobreza menstrual deixe de ser um obstáculo para a educação, o trabalho e a dignidade.
Foi com esse propósito de transformação que a Caravana da Dignidade Menstrual aportou, no último domingo (15), na Associação de Moradores Getúlio Vargas, no bairro Mathias Velho, em Canoas. O evento reuniu mais de 50 mulheres da comunidade em uma tarde marcada pelo acolhimento, pela troca de experiências e, sobretudo, pela desmistificação de temas essenciais à saúde da mulher.
Uma rede de apoio em expansão
A iniciativa é uma realização do Núcleo Feminino Bertha Lutz, idealizado por Amanda Bizarro. Ao lado de Gabriela Ortiz — coordenadora do Núcleo — e de um grupo dedicado de voluntárias, o projeto atua diretamente no apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade. O Núcleo nasceu de uma necessidade latente identificada após as enchentes no estado, quando se percebeu uma grave lacuna no acesso a informações e produtos básicos de higiene.
Em Canoas, a mobilização foi liderada pela voluntária Monique Mendes, que articulou as frentes de trabalho e o engajamento das moradoras locais. A ação contou com o apoio fundamental da comunidade, personificado na figura da presidenta da associação, Carmem Correa, e das associadas que já desenvolvem trabalhos contínuos no território. A rede de apoio foi ainda mais fortalecida pelas parcerias com as lideranças Valéria Silva e Fabíola Silva, da Ong Malvado Favorito.

Além da higiene: Um debate sobre justiça social
Durante a atividade, foram distribuídos mais de 50 kits de higiene, representando um alívio imediato e um símbolo de cuidado para as participantes. Contudo, o impacto da Caravana foi além do material. Em sua fala, Gabriela Ortiz enfatizou que a dignidade menstrual deve ser compreendida como um direito inalienável.
“Estamos falando de algo muito simples, mas que ainda é negado a muitas mulheres: dignidade menstrual. Isso não é apenas uma questão de saúde, é uma questão de dignidade, de direitos e de justiça social”, afirmou Gabriela.
O debate também abriu espaço para temas mais densos, como os altos índices de violência contra a mulher. Gabriela convocou a sociedade a uma postura mais firme: “Está na hora de ser radical. Mulheres têm suas vidas interrompidas porque disseram não a um relacionamento. O que está acontecendo na nossa sociedade?”, questionou.
Para as organizadoras, a Caravana da Dignidade Menstrual prova que o trabalho coletivo é a chave para soluções concretas. Cada kit entregue e cada conversa iniciada são passos em direção à autonomia e ao respeito.
A Caravana segue sua jornada por diferentes regiões, levando informação e fortalecendo as redes de proteção e solidariedade. Como bem resume o espírito da iniciativa: “Juntas, construímos dignidade”.








