O que deveria ser um serviço essencial básico tornou-se o epicentro de uma crise sanitária e política na Região Metropolitana de Porto Alegre. Moradores de Canoas, Esteio e Sapucaia do Sul enfrentam, neste final de abril de 2026, uma piora drástica na qualidade da água fornecida pela AEGEA/Corsan. Relatos de água com cheiro de “terra podre”, coloração escura e um surto de problemas gastrointestinais colocam a concessionária, mais uma vez, sob o fogo cruzado de prefeituras, órgãos reguladores e da população. Os reclamantes, inclusive, mostram laudos de possíveis coliformes fecais encontrados na água que chega ao consumidor. E alertam que a empresa não está com os produtos necessários para o tratamento nas estações. A denúncia é grave e precisa ser averiguada com urgência.
A crise atual não é um fato isolado, mas o capítulo mais recente de uma relação conturbada entre a concessionária e os municípios. Em Canoas, a insatisfação atingiu o ápice com o protocolo de um pedido de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara de Vereadores. O motivo: uma sucessão de abusos contra o consumidor, que variam de cobranças indevidas e faturas exorbitantes até a interrupção constante do fornecimento e a má prestação do serviço.
PEDIDO DE CPI CHEGOU A SER PROPOSTO NA CÂMARA
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“O que vemos hoje é o reflexo de um descaso que já vínhamos denunciando. O pedido de CPI em Canoas foi motivado por contas que não fecham e um serviço que não entrega o mínimo de dignidade. Agora, além de pagarem caro, as pessoas estão adoecendo”, afirma um dos representantes do movimento comunitário local.
Desde meados de abril, a água que chega às residências nos bairros Niterói, Rio Branco e Mathias Velho, em Canoas, além de grandes áreas em Esteio e Sapucaia, apresenta características alarmantes:
- Odor e Gosto: Descrito por usuários como “cheiro de peixe morto” ou “água podre”.
- Turbidez: Água com tons de chá ou marrom, carregada de sedimentos visíveis.
- Saúde em Risco: As Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) da região registraram um aumento atípico de pacientes com náuseas e sintomas de intoxicação, levantando suspeitas de contaminação biológica por coliformes.
Segundo dados técnicos da Fepam e da própria Corsan, a crise é multifatorial. A baixa vazão do Rio dos Sinos, somada ao calor atípico para o período, provocou uma “floração de algas” (cianobactérias). Estes organismos liberam geosmina, substância responsável pelo gosto e cheiro de terra.
Além disso, a baixa profundidade do rio eleva a concentração de manganês, o que explica a cor amarelada. O problema é agravado pelo déficit crônico de saneamento: o esgoto doméstico lançado sem tratamento no rio serve de “combustível” (nutrientes) para a proliferação dessas algas.
Prefeituras Reagem com Multas Milionárias
A paciência do poder público parece ter esgotado. A Prefeitura de Esteio tomou a medida mais drástica até o momento, notificando a Corsan com uma multa de R$ 7,5 milhões. O Ministério Público também foi acionado para garantir que os consumidores recebam descontos nas faturas pelo período em que receberam água de má qualidade.
Em Sapucaia do Sul, a Câmara de Vereadores pressiona para que a água seja oficialmente declarada imprópria para o consumo até que a situação se normalize. Já em Canoas, a empresa afirma estar utilizando carvão ativado e permanganato de potássio no tratamento, mas os moradores relatam que a medida é insuficiente.
Especialistas e órgãos de defesa do consumidor recomendam:
- Evitar o Consumo: Priorizar água mineral para beber e cozinhar.
- Fervura: Embora elimine bactérias, a fervura não remove o gosto de algas ou o excesso de metais como o manganês.
- Protocolo: É vital registrar reclamações no 0800 646 6444 da Corsan e nos Procons municipais para fundamentar futuras ações judiciais.
Um grupo de trabalho com técnicos da Corsan, Fepam e Agergs realiza vistorias diárias. No entanto, para a população que abre a torneira e recebe um líquido turvo e malcheiroso, a solução técnica parece demorada demais diante da urgência de quem precisa de água para viver.








