A terra ainda traz o cheiro de lama na memória de quem vive no Mathias Velho. Não faz tanto tempo assim que Canoas viu suas ruas transformadas em rios, suas casas engolidas pela força desmedida da água e milhares de vidas suspensas pelo trauma da grande enchente. Parecia, naquele momento de dor compartilhada, que tínhamos aprendido a lição mais dura de todas: com a drenagem de uma cidade, não se joga.
Mas a memória humana, por vezes, é tragicamente curta.
Basta caminhar pela Rua Curitiba em um dia de sol para ver a cena que se repete como um ciclo absurdo. Enfileirados no acostamento, repousam sofás rasgados, restos de obra, sacos plásticos e eletrodomésticos velhos. Na última segunda-feira, foram precisos três caminhões e uma retroescavadeira para arrancar dali toneladas daquilo que a própria comunidade abandonou. Por semana, a conta da incivilidade chega a impressionantes 1.400 toneladas de resíduos recolhidos pela Prefeitura em toda a cidade.
A matemática da tragédia é simples, mas há quem insista em ignorá-la. O entulho jogado na calçada hoje é o mesmo material que, na primeira chuva forte, correrá com a enxurrada direto para as bocas de lobo. Dali, trancará as galerias, chegará engasgando às casas de bombas e travará os motores que deveriam nos proteger. Quando o nível da água começar a subir no meio da noite, invade-se a casa de quem descartou e a de quem nada fez. A enchente não pede licença e não escolhe endereço.
Dona Marli, moradora há mais de duas décadas da Rua São Gabriel, sabe bem o peso desse descaso. Ela vê as máquinas limparem e, em pouco tempo, os montes de lixo renascerem no mesmo lugar. É a crônica de um alagamento anunciado, alimentado não apenas pelas nuvens pesadas do céu, mas pela mão invisível do vizinho que prefere jogar o problema no meio da rua a dar o destino correto ao seu entulho.
A Prefeitura limpa, aplica multas que variam de 50 a 400 URMs – Unidades de Referência Municipal – e tenta barrar o prejuízo com programas como o Quem Suja, Paga a Conta. No entanto, nenhuma fiscalização no mundo é capaz de vigiar cada esquina, se não houver um mínimo de consciência coletiva. Limpeza urbana não é apenas uma obrigação do poder público; é um pacto de sobrevivência.
Depois de tudo o que Canoas enfrentou, o descarte irregular de lixo deixa de ser apenas uma infração administrativa para se tornar uma afronta à própria comunidade. Cada saco de lixo jogado no terreno baldio é um desrespeito à dor de quem perdeu tudo na enchente e uma ameaça real ao amanhã.
O céu vai voltar a fechar e as chuvas virão — isso é inevitável. A única dúvida que resta é saber se, quando a água baixar, seremos capazes de olhar para as nossas ruas e ver uma cidade que aprendeu a se cuidar, ou se continuaremos sufocando nossas próprias saídas.
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Prefeitura intensifica limpeza na Rua Curitiba e reforça combate ao descarte irregular de lixo
Força-tarefa remove cerca de 1.400 toneladas de resíduos e entulhos por semana para prevenir alagamentos e preservar a qualidade de vida da população
A Prefeitura de Canoas, por meio da Secretaria Municipal de Serviços e Zeladoria Urbana, realizou nesta segunda-feira (3) uma força-tarefa de limpeza na Rua Curitiba, no bairro Mathias Velho. A ação teve como objetivo remover resíduos e entulhos descartados irregularmente, reduzir os riscos de alagamentos e conscientizar a população sobre a importância da destinação correta dos resíduos.
A operação contou com uma retroescavadeira e três caminhões truck. O serviço integra as ações permanentes da Prefeitura, que recolhe, em média, cerca de 1.400 toneladas de resíduos e entulhos por semana em diferentes pontos da cidade. O trabalho busca manter Canoas limpa, preservar o sistema de drenagem e minimizar os impactos provocados pelas chuvas.
Segundo o secretário adjunto operacional da Secretaria Municipal de Serviços e Zeladoria Urbana, Márcio Oliveira, a limpeza é uma medida preventiva essencial para garantir o funcionamento da drenagem urbana. “Estamos retirando uma grande quantidade de lixo descartado de forma irregular. Quando chove, esse material é levado para as bocas de lobo e acaba chegando às casas de bombas, comprometendo o funcionamento do sistema e aumentando o risco de alagamentos. A Prefeitura está fazendo a sua parte, mas é fundamental que a população também colabore, descartando corretamente seus resíduos e preservando os espaços públicos”, destaca.
Moradora da Rua São Gabriel há mais de 20 anos, Marli Terezinha afirma que o descarte irregular é um problema recorrente na região e pede maior conscientização da comunidade. “Moro aqui há mais de 20 anos e vejo muitas pessoas jogando lixo nesse local. Sempre que chove, os alagamentos aparecem e quem sofre somos nós, moradores. A Prefeitura realiza a limpeza constantemente, mas, sem a colaboração da população, o problema continua. Precisamos que cada um faça a sua parte”, ressalta.
Cidade Limpa
A ação integra o programa Cidade Limpa, iniciativa da Prefeitura de Canoas voltada à conscientização sobre a destinação correta dos resíduos sólidos, incentivando o descarte adequado do lixo e combatendo o descarte irregular em vias e espaços públicos. O objetivo é promover mais saúde pública, qualidade de vida e preservação ambiental.
Quem Suja, Paga a Conta
Além das ações de limpeza, o município mantém o programa Quem Suja, Paga a Conta, que intensifica a fiscalização e responsabiliza quem descarta lixo ou entulho de forma irregular.
O descarte irregular de resíduos é considerado infração administrativa, conforme a Lei Municipal nº 4.980/2005 (Código Municipal de Limpeza Urbana), sujeitando o infrator à autuação e à aplicação de multa pelos fiscais da Prefeitura.
As penalidades variam de 50 a 400 URMs (Unidades de Referência Municipal), de acordo com a gravidade da infração. Atualmente, cada URM corresponde a R$ 4,62, conforme o Decreto Municipal nº 008/2026.
A Prefeitura reforça que manter a cidade limpa é uma responsabilidade compartilhada. O descarte correto dos resíduos contribui para evitar alagamentos, preservar o meio ambiente, reduzir os gastos públicos com limpezas recorrentes e garantir mais segurança, saúde e qualidade de vida para toda a população.
Como denunciar
Quem presenciar descarte irregular de lixo ou entulho pode colaborar com a fiscalização municipal pelos seguintes canais:
Central de Atendimento ao Cidadão (CAC): 0800 510 1234;
WhatsApp da Diretoria de Limpeza Urbana: (51) 98255-2777;
E-mail: atendimento.cidadao@canoas.rs.gov.br








