DIA DO CHURRASQUEIRO | A Poesia Escrita na Brasa: O 18º Encontro da Liberdade no Piquete Lenço Colorado

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O vento que sopra no Parque do Gaúcho carrega mais do que o frescor da primavera; ele traz consigo o aroma de uma saudade ancestral. Na Semana Farroupilha de Canoas, sob o teto acolhedor do Galpão do Piquete Lenço Colorado, o tempo pareceu suspender seu passo para testemunhar o 18º Encontro da Liberdade do grupo Mais Zum.

Eram mais de duzentas almas ali reunidas, unidas pelo churrasco, trago e prosa. Havia os rostos conhecidos de sempre e alguns “infiltrados”, aqueles que chegaram de mansinho, talvez atraídos pelo cheiro da fumaça, e que logo se viram abraçados pela hospitalidade. Pois é exatamente assim, na roda que se abre, no prato que se divide e no sorriso que recebe, que se conhece a verdadeira qualidade e o coração de um grupo.

No centro desse abraço coletivo, pulsava a alma inquestionável do encontro: o fogo. Dizem os sábios que, depois da palavra falada, foi a chama que mais transformou a jornada da humanidade. Por isso, estar ao redor das brasas nunca é apenas sobre alimento; é celebrar a própria história.

Ao contemplar a carne dourando sobre o calor, é possível fechar os olhos e viajar um milhão de anos no tempo, sentindo a mesma centelha que aqueceu e uniu nossos antepassados nas noites primitivas. É ouvir o sussurro da velha barbacoa dos indígenas, erguida como um altar de madeira sobre a terra, ou o eco distante de línguas antigas onde o sukarra — a união sagrada do fogo (su) e da chama (karra) — batizou a magia de tostar o alimento.

Flávio Camargo e Régis Roehrig

Aqui, na imensidão dos pampas, essa herança milenar encontrou seu santuário. Muito antes das vacas missioneiras correrem livres pelas coxilhas, nossos ancestrais guaranis já conheciam os segredos das valas quentes e da fumaça rasteira. A história do churrasco é a própria história do gaúcho de todas as querências: rústica, forte e profundamente agregadora.

E se o fogo é a alma desse rito, os churrasqueiros são seus grandes guardiões. No Lenço Colorado, a maestria de Flávio Camargo, Giovani Pereira da Silva e Régis Roehrig foi a poesia escrita na brasa. Com as mãos sábias, forjadas na paciência de quem entende o tempo do calor, e os olhos brilhando no reflexo do braseiro, eles não apenas assaram a carne: eles nutriram o espírito. Cada punhado de sal grosso era uma bênção sobre o encontro; cada espeto virado no tempo certo, uma demonstração de respeito à nossa cultura.

Giovani Pereira da Silva

Hoje, 30 de setembro, ao se celebrar o Dia do Churrasqueiro, o 18º Encontro da Liberdade nos lembrou que esta é uma paixão que o tempo não apaga. Mais do que perpetuar um hábito, assar uma carne no fogo de chão ou na churrasqueira do galpão é manter viva a chama da fraternidade.

Enquanto houver um braseiro aceso, fumaça subindo aos céus e mãos generosas para cuidar do fogo, a história da nossa gente continuará sendo contada. Uma história feita de sabor, tradição e desse calor humano que só o verdadeiro gaúcho sabe oferecer.

2 Respostas

  1. Só faltou imenagiar um dos melhores assador do Piquet Colorado… Aires Vigel que o patrão veio o tenha com muita luz 🙏

    1. Minha cara não faltou ninguém, todos os churrasqueiros foram homenageados no texto. Citei os três que assaram em nosso evento. Aliás, o Aires foi devidamente homenageado no encontro. Eu nunca esqueço dos meus amigos.

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