O apito do Trensurb corta a tarde de Canoas com uma pontualidade que, há décadas, não apenas avisa a chegada dos vagões, mas rasga o próprio chão da cidade. Somos um município partido ao meio. De um lado, o Leste; do outro, o Oeste. Entre eles, uma pesada muralha de ferro, pedra e asfalto que se soma à barreira da BR-116. Para o canoense — entre os trilhos e o paredão de asfalto da BR está o CENTRO, nosso coração da cidade, que cada vez mais fica enfraquecido pela falta de mobilidade — atravessar a própria cidade muitas vezes soa como cruzar uma fronteira hostil, uma dinâmica que há muito tempo atrasa o desenvolvimento do Centro e sufoca a convivência.
Recentemente, a confirmação do acordo de cooperação técnica entre a Prefeitura e a Trensurb trouxe à tona a velha discussão sobre o futuro desses trilhos. A notícia de que a elevação de 2,7 quilômetros da via — do Centro até a Avenida Rio Grande do Sul, na Mathias Velho — poderia custar em torno de R$ 500 milhões logo ganhou espaço. No entanto, a análise de um colunista sobre o tema soou fria e mecânica. Ao focar estritamente na cifra milionária, nas obras provisórias e na burocracia dos desvios, a ótica contábil pecou por um detalhe fundamental: esqueceu de olhar para o futuro e para as pessoas.
Em um momento em que Canoas respira os ares difíceis, porém urgentes, da reconstrução após feridas tão profundas, reduzir o alteamento do trem a uma mera linha de “custo” em uma planilha é não compreender a alma do município. Dificultar esse debate falando apenas em gastos é tentar travar um investimento que é absolutamente vital para a mobilidade urbana e para a qualidade de vida. Quando falamos de erguer os trilhos, não estamos falando de despesa financeira; estamos falando da cura de uma fratura urbana.
Se lá em 2011 a promessa mágica era fazer o trem mergulhar na terra — um projeto de R$ 198 milhões que acabou adormecendo nas gavetas burocráticas de Brasília —, a teimosia poética do canoense agora aponta para cima.
Já que o trem não desce, o trem precisa subir.

E a articulação atual, que levou o prefeito Airton Souza e lideranças locais a baterem nas portas do governo federal, mostra que a engrenagem voltou finalmente a girar. Os estudos que se iniciam agora não são apenas papéis engravatados; são o alicerce técnico para que a cidade deixe de ser duas metades e passe a ser um todo contínuo.
O resultado desse investimento transcende a infraestrutura. Trata-se de promover um desenvolvimento linear, onde o Centro voltará a pulsar de forma única. Sem a sombra do muro de concreto e o estrangulamento do trânsito, o comércio ganha fôlego, os prédios históricos ganham luz, e a cidade volta a abraçar seus moradores.
Como bem pontuou o prefeito, não se trata de uma obra, mas do passo definitivo para devolver o centro da cidade às pessoas. O velho canoense, que toma seu chimarrão na praça observando o vai e vem dos vagões, já sabe que toda grande transformação exige paciência, mas exige, acima de tudo, coragem de dar o primeiro passo. A notícia fria passa, os orçamentos se equacionam, mas o legado de uma Canoas integrada ficará para as próximas gerações.
O valor de unir nossa cidade é incalculável.
Sim, o trem deve subir!
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Uma Resposta
Muitas cidades usam a parte debaixo das elevações como pontos comerciais. Talvez ates inicitiva privada colabore com os gastos para ter direito de uso de pontos abaixo da elevação para comercializar.