IDEIAS PELA DEMOCRACIA | O eco de um silêncio antigo, de 1994 a 2026

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Folhear as páginas do passado é, não raras vezes, deparar-se com um espelho incômodo do presente. Quando abrimos o livro Ideias pela Democracia e lemos o editorial “Números alarmantes”, assinado por Antonio Canabarro Troís Filho (in memoriam) — o Tonito — na Folha de Canoas em 10 de outubro de 1994, a sensação não é a de ler história, mas sim de escutar uma profecia que teima em se repetir.

Naquele rescaldo de primeiro turno, Troís Filho olhava para os mais de 20% de votos brancos e nulos, somados aos 15 milhões de abstencionistas, e soava o alerta. Para ele, aquele contingente gigantesco de eleitores que anularam a si mesmos não deveria ser despachado com o rótulo simplista e preguiçoso da alienação. Era, acima de tudo, um grito surdo: o repúdio a um sistema incompetente e injusto. O editorialista cravava que esse silêncio deveria entrar para a agenda permanente dos políticos. Ele acreditava que o sistema, por mais falho que fosse, era o palco onde as reformas e as revoluções deveriam acontecer, e conclamava o eleitor a não abrir mão da sua obrigação da cidadania.

Trinta e dois anos se passaram. Demos um salto de 1994 para o alvorecer do segundo turno das eleições de 2026. As urnas de lona deram lugar a terminais eletrônicos ultrarrápidos, as campanhas ganharam o ciberespaço, e Canoas, assim como o resto do Rio Grande do Sul e do Brasil, mudou de pele.

Mas e a alma do eleitorado?

Essa, ao que parece, continua assombrada pelos mesmos fantasmas. Se em 1994 os 15 milhões de ausentes eram alarmantes, o que dizer do cenário de 2026, onde a abstenção no primeiro turno ultrapassou a marca de 33 milhões de brasileiros — mais de 21% do eleitorado apto a votar?

O que outrora era um sinal vermelho de alerta transformou-se em uma condição crônica.

Ao compararmos o sentimento do editorial da Folha de Canoas dos anos 90 com a realidade atual, percebemos uma mudança sutil, porém devastadora, na temperatura da democracia. Troís escrevia com a indignação de quem via uma fratura recente e exigia tratamento. Hoje, ao analisarmos as abstenções de 2026, a sensação não é mais de alarme, mas de uma resignação perigosa.

A classe política parece ter se acostumado a governar para os que sobram, ignorando solenemente a montanha de cadeiras vazias na grande sala da democracia. O assunto, ao contrário do que pedia o texto de 1994, raramente entra na agenda permanente; ele é apenas uma estatística lamentada na noite de domingo e esquecida na manhã de segunda.

A grande tragédia que o espelho do tempo nos mostra é que as razões de 1994 permanecem dolorosamente atuais em 2026. O eleitor que não comparece ou que anula seu voto continua, em grande medida, expressando seu repúdio ao acúmulo de riqueza nas mãos de poucos e à incapacidade de resolver problemas fundamentais.

No entanto, o apelo de Tonito nunca foi tão necessário: o eleitor não deverá, em ocasiões futuras, oferecer aos políticos o argumento de que se alienou. Em 2026, o desafio para este segundo turno não é apenas escolher um lado, mas resgatar a crença de que a ferramenta do voto ainda é capaz de construir aquele regime melhor, mais competente, mais justo sonhado há mais de trinta anos.

Enquanto o silêncio for a resposta da maioria desencantada, o eco de 1994 continuará retumbando, lembrando-nos de que os direitos civis mais valiosos não sobrevivem à base de cadeiras vazias.

LEIA O EDITORIAL DE 1994

Números alarmantes

10 de outubro de 1994

O total de votos brancos e nulos deverá ultrapassar a casa dos 20% (vinte por cento) de todos os depositados nas urnas, em todo o País. Equívocos, desinteresse, alienação ou repúdio, qualquer que haja sido o motivo da maioria desses votos “perdidos”, o assunto deve ser posto na agenda permanente dos políticos e estudiosos da política.

Ao lado dos brancos e nulos, temos os eleitores que se anularam a si mesmos, não comparecendo. Estes foram mais de 15 milhões, formando um contingente ainda mais preocupante que o primeiro, já que não deixa dúvidas sobre sua opção: simplesmente, negaram sua presença em um pleito nacional, que, como os demais, gerou enormes esperanças no povo. Apartadas as ideologias e quaisquer outras razões, o sistema institucional em que e sob o qual vivemos está valendo. É dentro dele, portanto, que devemos e precisamos combater, para reformá-lo e, até, para revolucioná-lo. E, como os legisladores não deram um peso específico à abstenção, nem buscam interpretar os votos brancos e nulos, preferindo simplesmente rotular a tudo de alienação, devemos usar o voto como ferramenta de construção de um regime melhor, mais competente, mais justo. Seja elegendo os bons ou, de preferência, os bons reformadores ou revolucionários.

O eleitor não deverá, em ocasiões futuras, oferecer aos políticos o argumento de que se alienou. Deve, isto sim, comparecer à sua urna, nela depositando sua vontade, enquanto, paralela e simultaneamente, reclama oportunidades de verdadeira educação política e o reconhecimento de que a atual abstenção e milhões dos votos nulos e brancos representam, nada mais, nada menos, que repúdio a um sistema incompetente e injusto. Incompetente porque não resolve problemas fundamentais; injusto porque permite e acoberta o acúmulo de riqueza nacional em mãos de poucos.

O exercício de opção política é obrigação da cidadania. Os direitos civis mais valiosos decorrem dela.

 

3 Respostas

  1. Importante reflexão! Espero que diminua a ausência popular nas urnas e no cotidiano da vida política.

  2. Além do fato, apropriadamente abordado, há mais uma descaracterização na execução do direito democrático da escolha: o voto útil!
    Muitos, com receio de que o pior vença, não demonstram a intenção de mudar polarizações que se perpetuam por décadas! Por querer descontinuar o péssimo, optam pelo que tem chance de, talvez, ser menos ruim e não bradam, através do seu voto, o desejo da mudança de fato.
    O avanço do comportamento contrário ao voto “útil” e a atitude responsável de fazer de fato mudanças nos resultados, traria o entendimento que, sim, a sociedade pode optar por novos destinos e se esses não forem eficazes a ferramenta do voto que muda o rumo, pode, sim, ser efetiva!
    É possível que esse entendimento apresentasse o processo das eleições como mais representativo, eficiente e, à partir disso, valorizado.

  3. Tônico, um cabeção. Penso que devemos.repensar nosso sistema eleitoral.l, na minha opinião o voto distrital, mudaria a participação dos eleitores. Os eleitos estariam mais próximos dos eleitores, e claro, teriam que cumprir suas promessas. Outra dúvida: Sendo o voto obrigatorio, porque a multa para quem nao voto e de somente 3,51 por turno. Como seria se a multa fosse R$ 500,00 ???

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