PICOTANDO A POLÍTICA | O fio da memória e a medida da promessa

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Houve uma cena, nestes dias de 2026, que deveria estar emoldurada não nas galerias de arte, mas nos gabinetes de todos os palácios e assembleias deste país: uma menina levando sua avó para votar.

O passo lento de uma guiada pela pressa esperançosa da outra.

É com essas duas gerações que os vencedores – e os perdedores – deveriam verdadeiramente se preocupar.

O que levou as ruas a serem tomadas por esse movimento nunca antes visto?

Não foi a adesão cega a este ou àquele candidato; foi um exercício puro, calado e profundo de patriotismo.

Quem vive nos livros e sabe ler as entrelinhas do tempo percebeu o que estava acontecendo. O idoso de hoje, de cabelos brancos e passos medidos, era o jovem de 1983/1984 que gritava nas Diretas Já. Eu vi aquilo, eu vivi aquilo.

Há um fio invisível costurando a história da nossa democracia, e em 2026 nós vimos o renascer da esperança. Subitamente, o ruído ensurdecedor das trincheiras de direita e esquerda perdeu a força diante de algo maior: o renascimento da cidadania. O eleitor voltou a segurar o voto como quem segura o seu maior patrimônio, a sua arma mais nobre. Aos avós e às meninas que cruzaram as calçadas rumo às urnas: os únicos e verdadeiros grandes vencedores foram vocês.

Mas se o voto é uma poesia cívica escrita a muitas mãos, o mandato é uma prosa dura que não aceita rimas fáceis. O povo fez a sua parte; aos políticos, restam as cobranças.

Para entendermos a gravidade do que repousa sobre os ombros dos recém-eleitos, é preciso voltar os olhos não para as promessas de ontem, mas para outubro de 1994. Há mais de três décadas, Antonio Canabarro Tróis Filho, o Tonito, já escrevia sobre a Imensa Responsabilidade que recai sobre quem ousa pedir a confiança de uma nação. Suas palavras cruzam o tempo e aterrissam em 2026 como uma sentença que não caduca: desta vez, talvez mais do que nunca, não ousem descansar à sombra dos louros. A tarefa é gigantesca, exatamente da dimensão do país que o povo acabou de salvar do cinismo.

O povo exige que o poder público saia de sua inércia. Como cobrava Tonito, precisamos que a ação se dê em dois níveis urgentes: um interno, focado na resolução implacável dos problemas por meio de uma rigorosa escala de prioridades; e um externo, que funde um novo modelo de Estado. O Brasil de 2026 não tolera mais a camisa de forças de um Estado paralisado, ineficiente, que se arrasta sob o olhar passivo e complacente de governos fracos. A dinâmica da Nação exige eficácia e rapidez, mas sempre calcadas na liberdade, na justiça e na igualdade.

Senhores eleitos, reduzam o peso das próprias vaidades e a dimensão dos governos. Vossas Excelências enchem a boca nos palanques para prometer governar “para o povo e com o povo”. Pois bem: facilitem a própria tarefa e elaborem os orçamentos com a máxima participação de quem paga a conta.

O Estado não é o quintal dos seus partidos.

Chega de inflar a máquina pública com cargos de confiança que servem apenas à farra do apadrinhamento e aos fins eleitoreiros. A engrenagem da administração pública é garantida pelo funcionário de carreira, não pelo bajulador eventual. É o servidor público de carreira que deve ser valorizado.

A menina que levou a avó para votar fez a ponte entre as lutas de 1983/84 e as esperanças de 2026. A sociedade civil deu um passo gigantesco em direção à cidadania. A pergunta que reverbera, dura e exigente, é uma só: terão os políticos a coragem de dar um passo da mesma grandeza em direção à decência?

O EDITORIAL PARA FOLHA DE CANOAS | ANTONIO CANABARRO TRÓIS FILHO

Imensa responsabilidade

03 e 04 de outubro de 1994

Desta feita, talvez mais que nunca, os vencedores não deverão cochilar sobre os louros, eis que a sua tarefa será gigantesca, do tamanho do País.

A enorme empreitada terá, é o que esperamos, dois planos: um, interno, de ataque administrativo aos problemas, em rigorosíssima escala de prioridades; outro, externo, como se do primeiro fosse uma moldura de conteúdo político, “ideológico”, nascido da adesão à idéia de um novo modelo de estado, cujas funções na sociedade estão muito aquém das necessidades; pior que isso, o Estado brasileiro está esclerosado, reumático, enquanto a dinâmica da Nação exige eficácia e celeridade, sobre bases de respeito à liberdade, à justiça e à igualdade.

Precisamos escapar dessa camisa de força da ambigüidade, em que algumas estatais não produzem nem operam como deviam, aos olhos de governo pusilânimes, fato que atiça a gula dos privativistas radicais. Devemos redefinir o que deva ser estatal, segundo os altos interesses da soberania e da estratégia, para quem as demais atividades sejam deixadas à iniciativa privada, mas, sujeitas aos interesses maiores da Nação.

Precisamos reduzir o tamanho dos governos, pondo-os a serviço dos reais anseios das populações. Os orçamentos deverão ter, na sua montagem, o máximo de participação popular. Os candidatos prometem governar “para o povo e com o povo”. Facilitariam tudo, inclusive para si, elaborando orçamentos (planos de governo) junto com o povo… Os chamados “cargos de confiança” deveriam ser diminuídos, a casos de extrema necessidade, estimulando-se os funcionários de carreira, que são na verdade quem leva adiante as administrações; os servidores eventuais, mormente os “correligionários”, geralmente usam o poder com fitos eleitoreiros.

Será que, em 3 de outubro, daremos um passo gigantesco rumo a objetivos, se não idênticos aos referidos, então semelhantes?

Brasil, São Paulo, SP. 25/01/1984. Vista aérea da Praça da Sé tomada por milhares de pessoas durante o Comício Pró-Diretas. Crédito:OSWALDO PALERMO/AGÊNCIA ESTADO/AE

HISTÓRIA

O movimento Diretas Já (1983-1984) foi o maior catalisador da transição democrática brasileira. Embora não tenha alcançado seu objetivo imediato — a aprovação da Emenda Constitucional Dante de Oliveira, que restabeleceria eleições diretas para presidente —, o movimento tornou a continuidade do regime militar politicamente insustentável e moldou profundamente o Estado brasileiro que nasceria poucos anos depois.

Os Impactos na Redemocratização

  • Ruptura do Medo e Mobilização Civil: Após duas décadas de repressão, as Diretas Já levaram milhões de brasileiros às ruas de forma pacífica. Essa explosão de engajamento cívico rearticulou a sociedade civil, fortalecendo sindicatos, movimentos estudantis, associações de classe e a imprensa.
  • Transição Negociada, mas Inevitável: A pressão popular rachou a base de apoio do regime militar (o partido PDS). Isso permitiu que a oposição formasse a Aliança Democrática e elegesse Tancredo Neves de forma indireta no Colégio Eleitoral em 1985, garantindo a passagem do poder para os civis e encerrando 21 anos de ditadura.
  • Pluralismo Político: O movimento consolidou o fim do bipartidarismo artificial imposto pelos militares (Arena e MDB), permitindo o surgimento e o fortalecimento de múltiplos partidos que passariam a representar as diversas correntes ideológicas da sociedade.

Os Reflexos no Modelo de Estado da Constituição de 1988

A energia das ruas durante as Diretas Já desaguou diretamente na Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988. A nova Carta Magna, apelidada por Ulysses Guimarães de “Constituição Cidadã”, foi a resposta institucional aos anseios daquela mobilização, estabelecendo um novo modelo de Estado:

  • Estado Democrático de Direito: O modelo focado na “Segurança Nacional” da ditadura foi substituído por um Estado centrado na dignidade da pessoa humana. O artigo 1º da Constituição consagrou a cidadania e o pluralismo político como fundamentos da República.
  • Soberania Popular e Sufrágio Universal: O grito por “Diretas” foi finalmente institucionalizado. A Constituição garantiu eleições diretas, periódicas e com voto secreto para todos os cargos dos Poderes Executivo e Legislativo. Inovou também ao estender o direito de voto aos analfabetos e aos jovens de 16 e 17 anos (em caráter facultativo).
  • Participação Cidadã Institucionalizada: O legado de mobilização das Diretas Já inspirou a criação das Emendas Populares durante a Constituinte, permitindo que a sociedade enviasse propostas de leis. Esse espírito participativo também gerou ferramentas como o plebiscito, o referendo e os conselhos de políticas públicas (como os conselhos de saúde e educação).
  • Descentralização do Poder: Em oposição ao centralismo autoritário e tecnocrático do regime militar, a Constituição de 1988 elevou os Municípios à condição de entes federativos autônomos, redistribuindo receitas e responsabilidades para aproximar o poder das realidades locais.
  • Estado de Bem-Estar Social: As demandas reprimidas da população, visíveis nos comícios das Diretas, forçaram a Constituinte a criar uma rede robusta de proteção social. Isso resultou na criação do Sistema Único de Saúde (SUS), na ampliação dos direitos trabalhistas e no estabelecimento da Seguridade Social (saúde, previdência e assistência social).

O fracasso legislativo das Diretas Já em 1984 foi, paradoxalmente, o seu maior sucesso histórico. O movimento transformou a exigência por uma urna em uma exigência por um novo pacto social, fornecendo a base de legitimidade, os atores políticos e a pressão popular necessários para a formulação da Constituição de 1988.

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