O ESTADO ESMAGA QUEM PRODUZ | O Grito de alerta do setor empresarial na CICS Canoas sobre o futuro do Brasil

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CICS Canoas reúne lideranças e Grupo Conexões para debater o novo cenário político e econômico do Brasil

A Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Canoas (CICS Canoas) promoveu, na terça-feira (3 de novembro), um encontro estratégico que reuniu associados, autoridades locais e integrantes do grupo Conexões. Realizado no Salão Nobre da entidade, o evento teve como foco “Os desafios reais do novo cenário político e econômico do Brasil”. Consolidada como a principal força de representação empresarial da cidade, a CICS Canoas proporcionou um fórum de articulação entre a iniciativa privada, o poder público e a academia para projetar o futuro econômico do município e debater os impactos das atuais políticas nacionais no setor produtivo.

O alerta do setor produtivo contra a insegurança econômica

O presidente da CICS Canoas, Dautro Ribeiro, abriu um painel de debates expressando as dúvidas e apreensões do setor produtivo em relação ao novo cenário político e econômico do Brasil após o período eleitoral. Em seu discurso, o dirigente destacou que os empresários estão cautelosos e aguardam sinais claros do governo nacional sobre as diretrizes para quem investe, gera empregos e promove o desenvolvimento. A insegurança no setor é tamanha que já existem informações sobre empresários transferindo ou cogitando transferir suas operações para o Paraguai.

Durante sua fala, Ribeiro criticou o peso da máquina pública e a burocracia que afoga a iniciativa privada, ressaltando os seguintes pontos:

  • O setor produtivo perde inúmeras horas com a burocracia estatal e sofre com o sufocamento causado por dívidas de juros impagáveis.
  • Há um risco claro na adoção de políticas baseadas em assistencialismo contínuo, descritas por ele como a “cartilha de um estado mãe”, que cria dependência crônica e transforma o pagador de impostos em refém eleitoral.
  • O modelo econômico brasileiro difere do modelo da Venezuela, que faliu ao depender exclusivamente do petróleo; no Brasil, os pagadores da conta são as pessoas que trabalham e empreendem.
  • Os gastos públicos crescem continuamente, exigindo financiamentos maiores e estreitando o grupo de contribuintes que sustenta essa estrutura.

No aspecto social e institucional, o presidente da entidade apontou para o perigo de um país fortemente polarizado. Ele descreveu a divisão política evidenciada nas urnas e a retórica do “nós contra eles” como uma bomba social de rápido armamento, impulsionada por ressentimentos, exclusões políticas e partidarismo radical. Ribeiro também fez um alerta sobre a concentração de poder nas estruturas do Estado, destacando o protagonismo crescente do poder Judiciário no controle da vida nacional e o distanciamento cada vez maior entre os gabinetes de Brasília e a realidade de quem produz nas cidades.

Para guiar a discussão com os painelistas convidados, Dautro Ribeiro propôs questionamentos sobre a sustentabilidade e o futuro do país:

  • O atual Congresso terá capacidade e independência para atuar plenamente como freio e contrapeso institucional?
  • Até quando a sociedade conseguirá suportar a falta de responsabilidade fiscal, a imprevisibilidade e a insegurança jurídica e tributária?
  • Como o país poderá prosperar se a livre iniciativa for constantemente esmagada por um Estado que exige autorização excessiva para a produção e demonstra desprezo por quem trabalha?
  • O que se deve esperar na prática diante de uma configuração de poder fragmentada, com diferentes alinhamentos entre governadores, senadores e o presidente da República?


ELES DISSERAM

Tensões políticas e o risco de “venezuelização”

O vereador Rodrigo D’Avila (Novo) direcionou seu discurso à classe empresarial com um tom de alerta sobre os rumos institucionais do país. D’Avila afirmou que seu partido não reconhece a legitimidade do mandato do presidente Lula, citando três ações judiciais movidas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que acusam o uso da máquina pública durante a campanha. O parlamentar alertou para o risco de o Brasil seguir o “mesmo desenho da Venezuela”, onde decisões do Legislativo são sistematicamente anuladas pelos tribunais, e depositou no Senado conservador a esperança de frear eventuais excessos do Judiciário.

No âmbito econômico, o vereador destacou a insegurança jurídica enfrentada pelas empresas, especialmente na esfera trabalhista, que comparou a um “sócio oculto” capaz de gerar condenações financeiras inesperadas. D’Avila aconselhou os líderes empresariais a buscarem consultorias e apoio em entidades como a CICS e a CDL para sobreviverem às constantes mudanças de regras. Sobre o cenário local, reconheceu a habilidade da atual prefeitura na captação de recursos junto ao governo federal para a reconstrução do município, mesmo pontuando que o atual governo federal herdou a crise — o “abacaxi” — que ele próprio teria criado no passado.

Recorde de empreendedorismo e desburocratização local

Trazendo a perspectiva do poder público municipal, a Secretária de Desenvolvimento e Inovação, Patrícia Augsten, detalhou as estratégias adotadas para dinamizar a economia de Canoas. A secretária iniciou agradecendo à CICS e ao setor automotivo pela parceria na revitalização do centro da cidade e passou a detalhar os cinco eixos de sua gestão.

O destaque principal foi a agenda de desburocratização. Através da integração de processos com diversas secretarias e o Governo do Estado, Canoas reduziu drasticamente os prazos de licenciamento. Atividades de baixo risco isentas de alvará saltaram de 370 para mais de 950, resultando no registro recorde de 7.052 novos CNPJs apenas no primeiro semestre deste ano. Augsten também ressaltou o fortalecimento dos negócios locais com programas como o Acelera Negócios e a formatação de um fundo de microcrédito. No eixo de atração de investimentos e inovação, a secretária reafirmou que a missão central de sua gestão é destravar de forma definitiva o Parque Canoas de Inovação (PCI), além de acelerar o desenvolvimento da área industrial São Luís.

A educação como motor econômico

O Reitor da Unilasalle, Irmão Cledes Casagrande, trouxe o foco para a urgência da qualificação profissional e retenção de talentos. Casagrande expôs a defasagem estrutural do Brasil, lembrando que apenas 22% dos adultos possuem ensino superior — um ritmo que levaria 20 anos para alcançar o atual nível de formação da Alemanha.

Comprovando o impacto direto da educação na economia, o reitor citou dados do censo que mostram um aumento de 151% na remuneração média de profissionais graduados. Com uma história de 120 anos e gerando 1.500 empregos diretos em Canoas, a Unilasalle reafirmou seu compromisso com a cidade. “Se Canoas for bem, as instituições também prosperarão”, declarou Casagrande, descartando qualquer possibilidade de mudança da universidade para o exterior e reforçando a necessidade de impulsionar a inovação logística e o Parque Canoas de Inovação.

Varejo desafiado pelo endividamento e clima

A presidente da CDL Canoas, Deise Nunes, apresentou um diagnóstico realista dos desafios do comércio local. Nunes apontou que o consumidor atual, impactado pelo maior nível de endividamento desde 2010, tornou-se extremamente cauteloso, priorizando artigos de necessidade básica e cortando gastos supérfluos.

A dirigente destacou a pressão imposta pelo e-commerce, que compete agressivamente em preço e logística de entrega, exigindo que o varejo físico se reinvente no atendimento multicanal. A situação em Canoas foi severamente agravada pelas enchentes de 2024, que atingiram metade da cidade, com impactos devastadores na zona oeste, comprometendo a renda de milhares de famílias. Para Nunes, o maior desafio de lojistas de setores como vestuário é criar estratégias para estimular o consumo em uma população financeiramente fragilizada e abalada pela crise climática.

A Conta da reforma tributária e o “Negacionismo Econômico”

O Secretário Geral de Governo, João Portella, encerrou os painéis com um alerta grave sobre o futuro financeiro de Canoas frente à Reforma Tributária. Portella relembrou o histórico do orçamento municipal, que saltou de R$ 100 milhões em 2001 para R$ 2,3 bilhões, mas que estagnou desde 2016. Segundo suas projeções, as novas regras tributárias farão a cidade perder cerca de R$ 350 milhões nos próximos dez anos, uma redução de 35% no orçamento.

O secretário criticou a perda de autonomia dos municípios, que deixarão de gerir o Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN), cuja administração passará a um conselho de 77 membros. A mudança favorecerá grandes capitais, penalizando cidades de alta produção como Canoas. Portella alertou que a carga tributária embutida no setor de serviços poderá saltar da média atual de 3% para cerca de 11%, um impacto que classificou como “brutal” para o setor produtivo.

Citando Adam Smith e a Curva de Laffer, Portella condenou o “negacionismo econômico” das políticas públicas que ignoram o limite de capacidade do contribuinte. Ele advertiu que o aumento das alíquotas não gerará mais receita, mas sim uma explosão de evasão, elisão fiscal e informalidade. A mensagem final reforçou o tom do evento: o desenvolvimento empresarial e a manutenção da máquina pública só encontrarão sustentabilidade quando o Estado respeitar a real capacidade de quem produz e empreende no Brasil.

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