Acompanhei com atenção a segunda visita do governador do Estado, Eduardo Leite, em que foi recebido pelo prefeito de Canoas, Airton Souza, e pelo vice, Rodrigo Busato. O objetivo foi demonstrar o andamento das obras e, principalmente, expor os entraves que impedem as ações de deslancharem.
Eduardo Leite precisa compreender que a reconstrução de Canoas é o maior teste de gestão do atual governo gaúcho. O encontro desta sexta-feira (16) sinalizou um avanço técnico e um diálogo necessário com a prefeitura, mas o sentimento de abandono da população só será dissipado com uma presença constante.
As autoridades precisam entender que recuperar a esperança do povo canoense exige muito mais do que obras ou cálculos de engenharia. Os cidadãos demandam empatia política e a demonstração de que o Estado não está apenas “visitando” a cidade, mas reconstruindo, junto aos moradores, a segurança e o direito a um futuro melhor.
Vale lembrar ao governador que ele tem a oportunidade de transformar esses raros encontros (foram apenas dois em dois anos) em uma presença solidária e resolutiva. Canoas não quer apenas visitas; quer a garantia de que, na próxima chuva, o Estado e o Município estarão protegendo suas casas.
Na matéria que divulgamos, destaca-se o contraste entre as frentes de trabalho: embora o aspecto financeiro avance com a liberação de parcelas, o lado político e humano carece de proximidade. A diferença entre os 83% de execução no Dique Niterói e os quase 0% no Rio Branco — sem falar no bairro São Luís, que sequer possui projeto — revela que o Estado precisa ser o motor que nivela essas obras por cima, garantindo que nenhuma região de Canoas seja deixada para trás. Outro entrave a ser esclarecido são o questionamento sobre as oito casas de bombas, citados por Leite na entrevista.
A recente visita, embora positiva no campo institucional, levanta um questionamento inevitável:
Por que o líder do Executivo estadual esteve presente apenas duas vezes na cidade que foi o epicentro da crise?
O Peso da Ausência
O prefeito Airton Souza classificou a vinda do governador como um “gesto simbólico”. No entanto, em um cenário de trauma coletivo, símbolos sem frequência podem ser interpretados como distanciamento. Quando o governo estadual se faz ausente fisicamente do território mais afetado, cria-se um vácuo de confiança. A população, que convive diariamente com o medo de novas chuvas e com a visão de bairros ainda em obras, precisa sentir que o Palácio Piratini está, de fato, “com os pés no barro”.
Números que Exigem Olhar Atento
Os dados técnicos revelam avanços: R$ 179,7 milhões em repasses anunciados e obras como a do Dique do bairro Mathias Velho em andamento. Contudo, os números também mostram a urgência da situação. O Dique Rio Branco (trecho 2), por exemplo, registra apenas 0,03% de execução. A obra do Mathias Velho, crucial para a proteção de milhares de famílias, teve seu orçamento elevado de R$ 68 milhões para R$ 90 milhões devido a necessidades técnicas.
Esses aditivos contratuais e revisões de projeto são processos naturais na engenharia, mas, para o cidadão comum, soam como atraso. É aqui que a mudança de postura se faz necessária: o Estado não pode atuar apenas como um ente financiador que “deposita 35% do valor”. Ele precisa agir como um parceiro vigilante e presente.
Para que a população acredite que as obras serão concluídas e que a segurança retornará, o governador e seu secretariado técnico devem estabelecer um calendário de visitas periódicas. Ver de perto o progresso das obras deve ser uma regra de governo, não uma exceção.
Canoas lançou recentemente o Portal da Reconstrução, uma ferramenta importante de transparência. No entanto, o diálogo direto com as comunidades afetadas — como Mathias Velho, Niterói e Rio Branco — é fundamental. O Estado deve participar de audiências públicas na cidade para ouvir quem vive o trauma na pele.
A burocracia não pode ser um entrave para quem tem pressa em não inundar novamente. Garantir o repasse das próximas parcelas e aprovar rapidamente os recursos extras solicitados (como os R$ 23 milhões para o Dique da Niterói) é a prova máxima de compromisso que o povo canoense espera.
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