FOLHA DE CANOAS | Canoas: Cidade-lazer, Cidade-dormitório, Cidade-trabalho e Cidade-vida

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Chegamos ao terceiro capítulo de nossas recordações e previsões de treze personalidades canoenses em meados dos anos 90, mais precisamente em 1992. O Projeto “Canoas Ano 2000” propôs um desafio aos seus convidados: que, por sua vinculação com nossa terra, comentassem e projetassem Canoas para o novo século que se aproximava. Eles aceitaram o desafio de vislumbrar o que poderia vir no terceiro milênio. Esse trabalho acabou se transformando em um livreto para preservar a memória da cidade e é, exatamente, isso que estamos trazendo agora para os leitores.

Para a Folha de Canoas, nunca faltou ousadia no pensar; éramos artífices de nossa história e nunca nos negamos a cumprir desafios. Afinal, a Folha foi um sonho feito de papel e sempre pertenceu a Canoas.

FOLHA DE CANOAS | Projeto Canoas Ano 2000, história e artigos de sonhadores de papel

RELEMBRANDO

O projeto era parte da evolução da Folha de Canoas. Fundada em 20 de maio de 1986, ali nascia um “sonho feito de papel”. O jornal foi idealizado por um grupo de jornalistas: Marione Machado Leite (in memoriam) e três outras colegas: Marilise De Zotti, Mari Angela Damian e Rosa Maria Pitsch. Quatro mulheres que sonhavam com um mundo melhor, que buscaram — e conseguiram — qualificar a imprensa de nossa cidade. Mas, principalmente, buscaram a ampliação do mercado profissional para novos talentos jornalísticos. E tiveram sucesso: grandes jornalistas foram forjados na Folha de Canoas e hoje ocupam o merecido espaço que conquistaram por seu talento.

O ARTICULISTA

O nosso artigo de hoje foi escrito pelo jornalista Jairo Jorge da Silva, que na época cumpria seu mandato de vereador (1989 a 1993), sendo o parlamentar mais jovem eleito para a Casa Legislativa até então. Jairo, que posteriormente foi eleito prefeito de Canoas por três vezes, era consultor editorial da Folha de Canoas na ocasião. Ele também fez suas previsões para o projeto “Canoas Ano 2000”.

Vamos ver o que ele pensava na época.

Canoas, cidade viva

Por Jairo Jorge (texto escrito em 1992)

O que é uma cidade? Mais do que um mero espaço físico, ela é obra dos homens, do seu processo de civilização, um espaço de construção da própria história.

A cidade é aquilo que nós queremos que ela seja. É o resultado não da mera soma de ideias, mas da sobreposição de uma sobre a outra. Ou seja: as ideias fortes prevalecem. A força nem sempre está na coerência, mas nos sujeitos sociais que as formulam. Quem consegue articular-se com o conjunto da sociedade e influenciar os centros de decisões torna suas ideias vitoriosas.

As ideias articuladas viram projetos, e estes mudam a face da cidade na medida em que mudam os interesses. Exemplo disso é a nossa Canoas. Já tivemos três fases importantes, frutos de projetos distintos.

A primeira fase foi a da Cidade-lazer. Do início do povoado aos primeiros anos da emancipação, a cidade tinha a função social de gerar um espaço de lazer, nos finais de semana, para as famílias porto-alegrenses. Nossas matas, várzeas e rios eram preservados porque aqueles que estavam no centro das decisões assim o desejavam.

Com o desenvolvimento de Porto Alegre e o processo de industrialização, tornou-se necessário abrigar as milhares de famílias deslocadas do interior do estado para prover a mão de obra fundamental para a alavancagem econômica. Canoas se transforma com a nova ideia: passa a abrir suas várzeas e terras, antes resguardadas para o lazer, para amplos loteamentos. É a fase da Cidade-dormitório.

Mas o crescimento não era suficiente apenas em Porto Alegre; era vital expandi-lo. A convivência de indústrias em bairros residenciais da capital fez com que muitas fossem deslocadas para a Região Metropolitana. Canoas abriu suas portas e reservou suas melhores terras para as indústrias. A ideia da Cidade-trabalho se consubstanciou.

A exemplo dos seres vivos, a cidade tem suas várias fases: nascimento, infância, juventude e, por vezes, a senilidade. Muitas cidades envelhecem enquanto espaço e como processo coletivo de ideias.

O desenvolvimento de Canoas nos coloca como o segundo município em arrecadação no estado. Uma receita que permitiu à atual administração realizar obras fundamentais, como pavimentação e saneamento básico.

Mas ainda há problemas graves, verdadeiras chagas no coração da cidade, fruto de um modelo de desenvolvimento que hoje está esgotado. Este é o momento de gerarmos uma nova ideia: um projeto de cidade onde o desenvolvimento esteja integrado à melhoria das condições de vida da população. Isso não significa, de forma alguma, fecharmo-nos ao crescimento industrial, mas entender que ele deve estar subordinado ao bem-estar da sociedade. Uma cidade que preserve suas matas, não destrua ainda mais seus rios e cuide da saúde de seus filhos.

É a hora de amadurecer a ideia da Cidade-vida.

*Jornalista e, em 1992, consultor editorial da Folha de Canoas.

FOLHA DE CANOAS | Projeto Canoas Ano 2000, Anatomia de uma Cidade e o Faz de Conta

NOTA DO ALDEIA

 O Ciclo da “Cidade-Vida” e o Desafio da Resiliência

Ao relermos as palavras de Jairo Jorge em 1992, sob a ótica de 2026, é impossível não traçar um paralelo entre a teoria e a prática.

O ano de 2026 nos impõe uma nova camada a esse conceito. Após a histórica e devastadora enchente de maio de 2024, a ideia de “Cidade-vida” foi testada em seu limite mais extremo.

Hoje, a Canoas que Jairo Jorge vislumbrava no terceiro milênio é uma cidade que luta para se reconstruir sob um novo paradigma: a Cidade-Resiliente. O desafio de 1992 era o saneamento e a pavimentação; o desafio de hoje é a convivência inteligente com as várzeas e a proteção absoluta de sua população diante das mudanças ambientais.

O artigo de 1992 permanece atual ao nos lembrar que “a cidade é aquilo que nós queremos que seja”. Em 2026, o desejo coletivo transcende o crescimento: buscamos uma cidade que, além de oferecer trabalho e moradia, seja capaz de proteger a vida em todas as suas formas. (ML)

 

 

2 Respostas

  1. Então, nosso jornalista/político foi poético ao meu entender, não trouxe nada de novo, e nao foi alem como fora Jesus Pfeil no seu texto, Jairo teve 3 chances de fazer a Canoas q todos queriam e não conseguiu

  2. O desafio de 1992 era o saneamento e a pavimentação; o desafio de hoje é a convivência inteligente com as várzeas e a proteção absoluta de sua população diante das mudanças ambientais.
    Discordo, pois o objetivo continua o mesmo de 1992, Canoas é uma cidade parada no tempo, que nada faz para mudar, grande exemplo foi as enchente de 2024, hoje quase dois anos depois, oque foi feito, nada.

    Em uma cidade que tem o 3 maior PIB do RS, tem em suas estruturas todas destruídas, convive com atrasos financeiros, e uma política mera mente ilustrativa.

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