INDO VOTAR | O Povo do Papel e a Urna Eletrônica

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Dia de eleição. Queria escrever algo impactante, afinal, sou um dos remanescentes do “Povo do Papel”.

Faço parte de uma classe que vivia de sujar as mãos de tinta para levar a notícia adiante. Com meu amigo, quase um pai e meu mestre, Antônio Canabarro Trois — o Tonito —, aprendi tudo sobre como informar. Era uma época sem internet.

Queria saber de algo? Compre um jornal.

Foi assim que aprendi a ler e a entender o mundo. Aos poucos, comecei a me tornar parte da engrenagem da informação. Fui de tudo um pouco: entregador de jornal, linotipista, gravador de chapas, fotoliteiro, produtor gráfico e, por fim, diagramador. Essa última foi minha especialização e, durante grande parte da minha vida, o meu ganha-pão.

Eu vivia do papel.

E, naturalmente, votava no papel.

Do túnel do tempo…

Segundo semestre de 1983, em uma festinha no Jornal O Timoneiro. Presenças mais do que ilustres: Seu Argemiro (circulação), Edimilson Erencio da Silva, da Mecânica Ferrari (expedição), Marco Leite (diagramação), Cássio Baruja Tróis (fotolitos, arte-final e um baita diagramador), Antônio Canabarro Tróis (nosso eterno Tonito, diretor e fundador) e Roberto Carlos Palma (office boy).

 

De 1982 até a chegada das urnas eletrônicas em 1996, votei oito vezes preenchendo cédulas de papel para escolher meus representantes políticos. Se contarmos o plebiscito de 1993, foram nove idas à cabine de votação com a caneta na mão. Foi uma fase histórica extremamente movimentada, marcando a transição da Ditadura Militar para a redemocratização.

Lembro-me bem da jornada. Começou em 1982, na primeira vez que pudemos votar diretamente para governador desde o início do regime militar. Depois veio 1985, com a escolha de prefeitos nas capitais; e 1986, quando elegemos os parlamentares que formariam a Assembleia Nacional Constituinte. Em 1988, votamos sob as regras da nova Constituição. O ano de 1989 foi um marco: a primeira eleição direta para Presidente em quase trinta anos. As cédulas de papel ainda testemunhariam as eleições gerais de 1990, as municipais de 1992 (em meio à efervescência do impeachment), a escolha entre República e Monarquia no plebiscito de 1993, e a eleição de 1994, impulsionada pelo Plano Real.

Até que veio 1996. Nas eleições municipais daquele ano, a urna eletrônica fez sua estreia em 57 cidades do país.

O papel começava a se despedir das seções eleitorais.

Fui bom no que fiz nas redações e gráficas. Aliás, muito bom. Mas o tempo passou… e fui ficando obsoleto, assim como as cédulas eleitorais.

Claro que me reinventei. A necessidade faz o monge!

Hoje vivo da internet, tenho meu site, que é meu sustento, e até as artes de folhetos, cartões de visita e informativos viraram eletrônicos.

Mas confesso: sou a resistência. Adoro ler e escrever coisas no papel. Estranho, né?

Diante de tudo isso, me preparando para ir votar neste domingo, um texto do velho Tonito me vem à mente:

Juramentos traídos

“Ter razão é fácil. Perceber que os outros a têm, eis o problema”. (Mário da Silva Brito, poeta)

 Pelo que sei do poeta, cuja frase me serve de epígrafe, garanto que ele jamais seria de um partido que se recusasse à controvérsia. Há partidos que ofendem o simples bom senso, quando praticam oposição sistemática, sem trégua, mesmo nas questões nada ideológicas, que o governo trata conforme o programa anunciado na campanha eleitoral.

Sabendo-se que todo poder emana do povo, mais certo seria ficar no debate das grandes ideias, sem resvalar para baixo. Os candidatos juram trabalhar pelo bem público, sem ressalvas. Então, como depois declarar-se donos absolutos de uma duvidosa verdade? Ao negar apoio a programa aceito previamente, o eleito não quebra seu juramento?

Antônio Canabarro | Sempre ensinando a pensar. Um sábio.

Eu e o Tonito — Antônio Canabarro Tróis — na Av. Victor Barreto, perto da Casa Dick. Eu devia estar dando alguma explicação para o chefe, pois esse “Lampião Gaúcho” era danado. A foto é de 1978.

É com esse pensamento do Tonito ecoando na cabeça que me dirijo às urnas eletrônicas hoje.

Vou com o coração apertado, cheio de saudade de ser o “Povo do Papel”.

E quer saber?

Na dúvida, levarei uma caneta e um papel nas mãos. Vai que chova e falte luz, né?

 

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