O relógio marcava o 20º dia de greve quando, no salão da Associação dos Servidores Municipais de Canoas (ASMC), o destino das salas de aula da rede municipal foi decidido por uma margem mínima. Em uma tarde de segunda-feira marcada pela tensão e por discursos divergentes, os professores de Canoas optaram pela continuidade do movimento. O placar — 175 votos a favor da manutenção contra 165 pelo retorno — não apenas mantém a paralisação, mas expõe uma categoria dividida sobre os rumos da negociação com o Executivo.
A diferença de apenas dez votos revela que o magistério canoense caminha sobre uma linha tênue. De um lado, um grupo que enxerga o esvaziamento do movimento e a necessidade de levar as discussões para as mesas de trabalho; do outro, uma maioria que considera as propostas da prefeitura insuficientes e, em certos pontos, inaceitáveis.
O impacto dessa divisão foi imediato: o comando de greve original, que havia se posicionado favoravelmente ao encerramento da paralisação, acabou dissolvido após o resultado. Um novo grupo de representantes foi formado para liderar a etapa que se inicia, evidenciando que a base decidiu retomar as rédeas da mobilização, mesmo contrariando a orientação de seus líderes anteriores.
O ponto de maior atrito na última proposta apresentada pela Administração Municipal não foi apenas financeiro. Embora a prefeitura tenha oferecido um aumento real de 2% escalonado até 2028, a proposta de vincular a valorização profissional ao desempenho dos alunos no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) gerou forte resistência.
Para a parcela que votou pela continuidade, a medida é vista como uma transferência de responsabilidade sobre os gargalos do sistema educacional para os ombros dos docentes. Críticos à proposta argumentam que atrelar recursos do Fundeb a notas de desempenho é uma política que ignora as complexidades sociais da educação. Por outro lado, o governo defende que esse é um mecanismo de valorização e melhoria da qualidade do ensino.
A mobilização, que já soma 27 dias entre paralisações e greve efetiva, atinge agora um estágio crítico. A Prefeitura de Canoas havia sinalizado que os termos oferecidos — que incluíam também ajustes no vale-alimentação, cronogramas de grupos de trabalho e garantias contra retaliações — eram “finais e definitivos”. Com a recusa e a manutenção da greve, esses ofícios perdem a validade imediata, deixando o cenário de negociação em um vácuo de incertezas.
Enquanto a Administração afirma ainda não ter sido formalmente notificada da nova decisão da assembleia, o sindicato e o novo comando de greve já se organizam. Uma reunião interna está agendada para esta terça-feira na sede da entidade para traçar a nova contraproposta que será levada ao Executivo.
O Que Está em Jogo
A lista de demandas da categoria é extensa e vai além dos reajustes imediatos:
- Reposição integral da inflação e cumprimento do piso nacional.
- Revisão do plano de carreira e pagamentos retroativos.
- Segurança nas escolas e nomeação de novos concursados.
O vice-presidente do sindicato, Júlio César dos Santos, embora tenha defendido o fim do movimento para evitar um desgaste maior, reforçou que a entidade respeitará a soberania da assembleia. O desafio agora, segundo as lideranças, será dobrar o engajamento da categoria para sustentar o enfrentamento político após uma votação que mostrou um magistério quase rachado ao meio.
Com as aulas suspensas e os grupos de trabalho estagnados, o impasse em Canoas entra em uma fase de redefinição, onde o diálogo precisará ser reconstruído sobre a base de uma categoria que, embora cansada, optou por não recuar.








