Projeto Canoas Ano 2000 | “O caminho é a participação articulada: a chegada, o ideal de uma cidade que tem organização social, econômica e política”

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Apresentamos hoje mais um capítulo do Projeto Canoas Ano 2000, uma iniciativa da Folha de Canoas. No ano de 1992, o jornal buscou ouvir figuras de destaque da política, economia, dirigentes de entidades de classe (tanto patronais quanto de trabalhadores) e instituições de ensino, entre outros, para entender suas visões sobre o futuro de Canoas no milênio que se aproximava.

FOLHA DE CANOAS | Projeto Canoas Ano 2000, história e artigos de sonhadores de papel

A Folha de Canoas era um veículo de comunicação à frente de seu tempo, pautado pela inovação. Como exemplo de seu pioneirismo, o jornal foi às ruas e envolveu-se ativamente com as eleições municipais e presidenciais da época.

Noticiava-se o presente com os olhos postos no futuro. Quando o Brasil se mobilizou para a campanha presidencial, a Folha realizou eleições simuladas cujos índices foram extremamente próximos do resultado apurado nas urnas. Com o mesmo espírito inovador, foi o primeiro jornal a realizar uma pesquisa exclusiva sobre as eleições municipais. Amparados em metodologia científica, os percentuais das eleições majoritárias mostraram-se precisos e compatíveis com o voto popular.

Esse era o compromisso da Folha: a preocupação com o futuro da cidade por meio de um jornalismo comunitário e investigativo. Ao levantar temas e problemas, a busca era sempre pela solução. Desta forma, o jornal ajudou a construir a história de nossa cidade.

O destaque de hoje é o nosso articulista Robson Athaydes Medeiros. Em 1992, ele presidia a Associação Brasileira de Lentes de Contato. Atualmente, Robson é um lojista de prestígio e um cidadão ativamente participativo na vida política de Canoas.

Acompanhe, a seguir, o artigo:

Suprir Necessidades

*Robson Athaydes Medeiros (texto de 1992)

— Cheshire — pediu Alice —, quer fazer o favor de me dizer qual é o caminho que devo tomar? — Isso depende muito do lugar para onde você quer ir. — Não me interessa muito para onde — disse Alice. — Não tem importância, então, o caminho que você tomar — disse o Cheshire. — …contando que eu chegue a algum lugar — acrescentou Alice como explicação. — Ah, disso pode ter certeza — disse o Cheshire —, desde que caminhe bastante. (da obra filosófica de Arcângelo R. Buzzi)

A virada do século, sem dúvida, vai ser um dos acontecimentos mais importantes que ocorrerão nos próximos anos. Todos os segmentos das diferentes sociedades estão se organizando para viver melhor, com mais conforto, suprindo as necessidades que se apresentam com o desenvolvimento econômico e social de vários povos.

Os idealistas, políticos, pensadores, homens comprometidos, vislumbram solucionar problemas de grande abrangência que, muitíssimas vezes, fogem de suas competências, tornando-se preocupações ineficazes. Comportam-se como aqueles homens comuns que não resolvem os problemas, mas servem de conselheiros para os demais.

Nesse sentido, tenho me preocupado com minha Canoas, aspirando por melhores dias.

Canoas, no aspecto do planejamento urbano, tem procurado melhorar a cada dia que passa. Entretanto, não podemos fechar os olhos para as áreas sociais, culturais e políticas. É claro que todos esses aspectos passam por uma profunda crise no sistema social e econômico do País. Contudo, nós, canoenses, temos a obrigação de nos organizar e resolver essas questões mais domésticas através do engajamento político. Devemos promover um profundo debate entre os membros da comunidade.

No ano de 2000, minha geração terá 30 anos e estará apta realmente para administrar e conduzir a cidade onde nasceu, cresceu e onde, futuramente, formará novas famílias e terá seus filhos. Entretanto, será que essa juventude de hoje será capaz de viver nessa cidade? Eu creio que, muito mais importante do que viver nos dias de hoje, é saber como viver harmoniosamente.

Esta cidade, através da participação, tem que ser preparada para a virada do século. Ninguém melhor que nós, canoenses, com ética, moral e espírito competitivo, será capaz de colocar o coração na região metropolitana na busca de grandes ideais.

Canoas foi construída para nós, canoenses. O caminho é a participação articulada: a chegada, o ideal de uma cidade que tem organização social, econômica e política.

*Presidente da Associação Brasileira de Lentes de Contato

FOLHA DE CANOAS | Projeto Canoas Ano 2000, Anatomia de uma Cidade e o Faz de Conta

 NOTA DO ALDEIA

O Choque com a Realidade Atual

É interessante o contraste entre o otimismo de Robson, em 1992, e a realidade que Canoas enfrenta hoje. Muitos eventos imprevistos ocorreram, impossível de prever. Por exemplo:

Ninguém poderia prever as enchentes de 2024; elas redefiniram o conceito de “planejamento urbano”. O que antes era uma busca por “conforto”, hoje é uma luta por resiliência e sobrevivência.

Canoas, hoje, sofre uma crise de participação. Enquanto Medeiros pedia um “profundo debate”, a sociedade contemporânea lida com a polarização, o que muitas vezes dificulta o consenso necessário para resolver as “questões domésticas” mencionadas no texto.

O título do texto, “Suprir Necessidades” — ao qual eu acrescentaria “básicas” — nunca foi tão atual. Mas o foco de hoje mudou: não se trata apenas de suprir necessidades geradas pelo “desenvolvimento”, mas de garantir o básico: moradia segura, saneamento e proteção ambiental.

A previsão de Medeiros acertou ao identificar que o coração da Região Metropolitana precisava de “ética e espírito competitivo”. Contudo, a realidade de hoje mostra que a “harmonia” desejada pelo autor foi interrompida por fatores que o planejamento de 1992 não poderia prever totalmente. O caminho da participação continua sendo a única via, mas agora com um senso de urgência muito maior: a cidade não precisa apenas ser administrada, ela precisa ser repensada para as próximas gerações. (ML)

FOLHA DE CANOAS | Canoas: Cidade-lazer, Cidade-dormitório, Cidade-trabalho e Cidade-vida

Uma Resposta

  1. Robson Medeiros, um articulista estratégico. Tem meu respeito. Ele faz parte de uma rara “eite pensante”. Nao conseguimos avançar. Não por conta da enchente, mas sim por conta da nossa pobreza de ideias e ações.

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