Professor Hygino Dalmina | Um craque do ensino sem o direito de ser Alfarrábio

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É um paradoxo cruel: o homem que passou a vida ensinando a importância, o peso e a beleza das palavras, ao partir, depara-se com o silêncio das telas e o vazio das estantes oficiais.

No dia de sua partida, aos 89 anos, quem buscou o nome de Hygino Dalmina nos grandes inventários digitais ou nos arquivos públicos encontrou o deserto. Absolutamente nada. É estranho — e doloroso — perceber que um homem que foi uma verdadeira lenda no Colégio La Salle e nas escolas estaduais do Rio Grande do Sul, educando gerações inteiras de Canoas dos anos 70 até os anos 2000, não tenha seu nome gravado nos canais de pesquisa da própria instituição que ajudou a erguer com seu intelecto.

Para compreender o tamanho dessa injustiça, precisamos recorrer à própria história das palavras que o professor Hygino tanto amava.

No século X, viveu no Oriente um homem chamado Abu Nasr Mohammad Ibn al-Farakh al-Farabi. Nascido no Turquistão, Al-Farabi dominou a medicina, a matemática, a filosofia e a música. Sua sabedoria era tamanha que seus escritos tornaram-se o porto seguro para sanar qualquer dúvida humana. De tanto buscarem por sua assinatura latinizada, Alpharabus, o nome do filósofo sofreu a doce erosão do tempo e transformou-se em substantivo: alfarrábio, o sinônimo de livro velho, de saber guardado, de páginas repletas de alma a serem consultadas.

O poderoso time dos professores do La Salle, temido pelos alunos, no campinho das 15 de Janeiro, eram jogadas grandes partidas 

O mestre Hygino Dalmina tinha, por direito de dedicação, o dever de ser o nosso Alfarrábio. Ele deveria estar catalogado, guardado com o respeito que se dedica aos clássicos, acessível a quem quisesse entender como se ensinava a nossa língua e suas regras complexas com tamanha leveza de ser. O esquecimento institucional nas bibliotecas e a ausência de uma página na Wikipédia são sintomas de um país que teima em sofrer de amnésia em relação aos seus heróis de giz e apagador.

Mas há uma justiça poética que as burocracias não conseguem conter.

Se as gavetas oficiais se fecharam, a memória viva das redes sociais e dos canais do Notícias da Aldeia ecoou em um clamor uníssono. O convite para o adeus transformou-se em um mural de afeto. Alunos da década de 70, 80, de 90 e do novo milênio uniram-se para provar que o verdadeiro legado não se rouba, não se apaga e não se perde no pó das prateleiras esquecidas.

Hygino não precisa de um registro frio para ser eterno. Sua sintaxe continua viva na forma como escrevemos, seu rigor brilha na nossa clareza e sua leveza permanece na saudade de quem teve a honra de ser seu aluno.

O mestre partiu. Mas, ao contrário do silêncio dos arquivos oficiais, nós nos recusamos a esquecer. Se as instituições não lhe dão o título de Alfarrábio, nós, seus eternos alunos, o guardamos em nossa memória — o mais valioso e incorruptível dos sebos.

Criamos umas imagens com o uso da IA, para lembrar de nosso mestre.

 

Uma Resposta

  1. Grande Hygino, grandes professores, grandes alunos, grande Marco Leite, pequenas instituições. Tempos de respeito aos professores.

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