PICOTANDO A POLÍTICA | O Sangue invisível sob o gramado, o eterno retorno do terror colombiano

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Não se engane: o que aconteceu em Vancouver, na noite em que a seleção colombiana foi eliminada da Copa do Mundo de 2026, nada tem a ver com futebol. A bola que Jaminton Campaz empurrou para fora diante do goleiro suíço não foi apenas um gol perdido na prorrogação. Foi o gatilho que disparou, mais uma vez, o mecanismo de uma engrenagem macabra que a Colômbia insiste em não conseguir desmontar.

Falar de esporte, aqui, é um luxo analítico que não podemos nos dar. Trata-se, na verdade, de um diagnóstico cirúrgico sobre a falência de um Estado, a mercantilização do desespero por meio das apostas e a herança maldita de uma violência que se recusa a virar passado.

O Espelho de uma Democracia Trincada

Para entender a ameaça de morte que hoje paira sobre a cabeça de Campaz e de sua família, é preciso desviar os olhos do campo e olhar para a Casa de Nariño, em Bogotá. A Colômbia, que durante alguns anos ensaiou uma narrativa de pacificação e reconciliação pós-acordo de paz, hoje se vê novamente no abismo. A recente eleição presidencial, decidida por uma margem milimétrica, arrastou o país para uma paralisia institucional. De um lado, o vencedor do pleito denuncia que o atual mandatário planeja um golpe de Estado para não entregar o poder; de outro, o governo entrante tenta se equilibrar sobre um vulcão social.

Quando a liderança política de uma nação flerta abertamente com a ruptura democrática, o tecido social se esgarça por completo. Em um país onde as instituições formais perdem a autoridade, o poder real volta para as sombras. É nesse vácuo de poder que os velhos fantasmas — os cartéis, as milícias e o crime organizado — consolidam sua soberania paralela. A violência urbana e o terror não são subprodutos do caos político; eles são o próprio método de controle social.

Das drogas aos algoritmos | A nova face do crime

Na década de 1990, a violência que ditava as regras do futebol colombiano vinha do dinheiro sujo do narcotráfico. Os cartéis de Medellín e Cali lavavam seus milhões nos clubes locais e usavam a seleção como símbolo de orgulho nacionalista — e de poder financeiro. Errar um gol ou marcar contra, naquela época, significava dar prejuízo direto a barões da droga que não aceitavam perder.

Trinta e dois anos depois, o monstro mudou de pele, mas continua faminto. A herança dos cartéis encontrou um aliado perfeito na modernidade: a febre descontrolada das plataformas de apostas online, as famosas “bets”. O que antes era controlado por reuniões fechadas em fazendas fortificadas hoje é operado por algoritmos e pulverizado na mão de milhões de apostadores — de chefes do crime organizado local a cidadãos comuns que apostam o dinheiro do almoço.

O futebol deixou de ser uma paixão popular para se transformar em um mercado financeiro de altíssimo risco e nenhuma regulação ética. Quando um jogador perde um gol claro aos 120 minutos de jogo, ele não está apenas frustrando uma torcida; ele está pulverizando milhões de dólares de mercados formais e informais de apostas. Em uma sociedade já anestesiada pela violência e estruturada pelo crime, o erro esportivo é lido como traição financeira. E a punição para a traição, na cartilha das sombras colombianas, sempre foi a morte.

1994 e 2026 | O tempo é um círculo de sangue

É impossível ler a declaração desesperada de Jaminton Campaz — “nenhuma paixão justifica o ódio nem viver com medo” — sem sentir um calafrio histórico. O eco de 1994 é ensurdecedor.

Naquele julho trágico, Andrés Escobar retornou a Medellín após marcar um gol contra que eliminou a Colômbia da Copa dos Estados Unidos. Ele acreditava que a vida continuaria, que o país saberia separar o jogo da realidade. “A vida não termina aqui”, escreveu Escobar em um artigo de jornal pouco antes de ser fuzilado com seis tiros em um estacionamento. Sua morte não foi uma reação intempestiva de um torcedor fanático, mas um acerto de contas encomendado por mafiosos que haviam perdido somas astronômicas em apostas clandestinas.

A história não se repete como farsa; ela se repete como tragédia crônica. Em 2026, a Federação Colombiana de Futebol se vê obrigada a acionar a Procuradoria-Geral para proteger a vida de Campaz. O fato de que, três décadas depois, o Estado colombiano ainda precise mobilizar sua força policial máxima para garantir que um atleta não seja assassinado por um erro técnico é a prova cabal de que a barbárie venceu.

A Vida Ceifada como Mercadoria

O futebol colombiano é o microcosmo de um país que consome seus próprios filhos. Enquanto o espetáculo esportivo tenta vender a imagem de união e superação, o subtexto é de uma crueldade cirúrgica: vidas humanas ali valem menos do que a cotação de uma rodada de apostas no aplicativo de um celular.

Campaz, sua família e tantos outros atletas que hoje vivem sob escolta policial são reféns de um sistema tripartido: a instabilidade política que desidrata a lei, o submundo do crime que opera nas sombras e a indústria das apostas que monetiza a frustração humana.

Até que se compreenda que a violência no esporte não é um problema de “segurança nos estádios”, mas sim o sintoma terminal de uma sociedade colonizada pelo dinheiro das apostas e pelo medo dos cartéis, a Colômbia continuará condenada a reviver o seu pior pesadelo. No fim das contas, o apito final do árbitro nunca traz a paz; ele apenas inicia a contagem regressiva para o próximo caixão.

 

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