Em um jantar carregado de emoções e belos depoimentos, cerca de 400 pessoas lotaram o salão da ASMC (Associação dos Servidores Municipais de Canoas) na noite de ontem (23) para celebrar os 64 anos do Hospital Nossa Senhora das Graças (HNSG). Fundado em 29 de junho de 1962, o carinhosamente chamado “Gracinha” reafirmou durante o evento o seu compromisso inabalável com a saúde pública, a humanização do atendimento e a preservação da vida.
Ao longo de suas mais de seis décadas, o HNSG consolidou-se como um dos pilares da saúde pública e privada do Rio Grande do Sul. Hoje, a instituição é referência regional para mais de 150 municípios gaúchos, destacando-se em especialidades de alta complexidade como oncologia, traumatologia, neurologia e oftalmologia. Atualmente, o hospital realiza mais de 18 mil atendimentos mensais, distribuídos entre o Pronto Atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS), emergências particulares e convênios.

O Teste da Resiliência: Protagonismo na Crise Climática de 2024
A celebração deste aniversário também foi marcada pela memória recente de um dos momentos mais desafiadores da história de Canoas e do Estado. Durante a histórica enchente de maio de 2024, quando o Hospital de Pronto Socorro de Canoas (HPSC) foi gravemente atingido pelas águas e precisou ser evacuado e fechado temporariamente, o HNSG agiu com prontidão estratégica.
Diante do cenário de calamidade, a instituição ampliou emergencialmente sua estrutura física, remanejou equipes e absorveu a enorme demanda de urgência e emergência que antes era dividida entre os dois principais hospitais da cidade. A resposta rápida e a capacidade de superação do HNSG garantiram que a população de Canoas e das cidades vizinhas não ficasse desassistida em meio à maior catástrofe climática da história da região.
Prefeito Airton Souza e o diretor do HNSG, o Quinho: ressaltaram que toda a verba arrecadada no jantar será revertida para melhorias no Gracinha
Reconhecimento ao Capital Humano e Visão de Futuro
Muito além de sua infraestrutura e tecnologia, a cerimônia deu destaque especial ao “capital humano” do hospital. Médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, equipes de apoio, administrativo e serviços gerais foram homenageados pela dedicação incansável, especialmente nos períodos de sobrecarga e crise.
O olhar do HNSG agora se volta para o futuro. Com planos de expansão na qualificação dos serviços de diagnóstico e internação, a instituição projeta novos investimentos para modernizar sua estrutura física e tecnológica. O objetivo é claro: continuar evoluindo de forma sustentável para oferecer uma assistência cada vez mais humanizada, segura e eficiente para Canoas e todo o Rio Grande do Sul.
Depoimentos das Autoridades

Diretor do Hospital, Marcus Vinicius Machado
“O Graças não fecha as suas portas para salvar vidas”
“Esta celebração dos 64 anos do Hospital Nossa Senhora das Graças não é apenas uma data no calendário: é um momento em que a história da nossa instituição se confunde com a história de cada morador de Canoas e do Rio Grande do Sul. Se nós não fomos atendidos diretamente no Graças, com certeza alguém do nosso convívio teve sua vida cuidada nesta casa.
Estar à frente deste processo não é um sacrifício, é uma missão. Uma missão que assumo com o orgulho de quem tem raízes profundas aqui — meus avós foram fundadores desta instituição, e ver este auditório lotado com 400 pessoas reafirma o papel fundamental que o hospital exerce nas nossas vidas.
Canoas cresceu, o Estado cresceu e as exigências aumentaram. Recentemente, fomos assolados por uma grande tragédia e, na prática, operamos como dois hospitais dentro de um só. Diante de desafios diários, a nossa diretriz é clara: o Graças não fecha as suas portas para salvar vidas!
Temos profissionais com mais de 30 anos de casa. Médicos e colaboradores altamente qualificados que escolhem permanecer aqui porque acreditam no nosso compromisso e na qualidade da nossa entrega. Nada disso seria possível sem a transparência da nossa gestão e sem o apoio diuturno do Prefeito Airton e da administração municipal, que compreendem a relevância humana e financeira de manter esta casa de pé.
Mas para garantirmos os próximos 60 anos, precisamos construir juntos uma nova cultura de saúde para a nossa cidade:
- As Unidades Básicas de Saúde (UBS) cuidam da prevenção e de casos de menor complexidade.
- As UPAs estão prontas para a média complexidade.
- E o Hospital Nossa Senhora das Graças cumpre a sua maior vocação: a alta complexidade, urgência e emergência.
Peço a cada um de vocês, presentes hoje, que sejam embaixadores desta mensagem. Levem para a comunidade o orgulho do que fazemos aqui. No Graças não falta profissionalismo, não falta entrega e não falta amor à vida.
Parabéns ao Hospital Nossa Senhora das Graças! Parabéns a Canoas e a cada um de vocês que faz parte desta história!”

Prefeito Airton Souza:
“Quem procura um hospital não o faz por lazer, mas por necessidade real de assistência”
“Estou muito feliz pela oportunidade que Deus nos dá de estarmos reunidos nesta confraternização em celebração aos 64 anos do Hospital Nossa Senhora das Graças.
Gostaria de cumprimentar de imediato o nosso diretor, Marcus Vinícius Machado, o Quinho, pelo trabalho e engajamento, bem como o diretor técnico. Em nome de vocês, saúdo todos os médicos que atuam com dedicação, abnegação e amor no Hospital Nossa Senhora das Graças. Cumprimento todos os membros da equipe de direção.
Destaco a nobreza da missão exercida por cada servidor da saúde: acolher e socorrer a população nos momentos de maior fragilidade. Quem procura um hospital não o faz por lazer, mas por necessidade real de assistência.
Em 18 meses de gestão, alcançamos a marca de 293.300 atendimentos no Hospital Nossa Senhora das Graças. Para viabilizar esse trabalho, foram destinados R$ 40 milhões provenientes dos cofres municipais.
- Sala Vermelha: Ampliação da capacidade de 3 para 11 leitos.
- Ambulatório SUS: Expansão de 4 para 8 consultórios.
- Bloco Cirúrgico: Reforma integral de 9 salas cirúrgicas.
- Passivos Trabalhistas: Quitação de cerca de 400 processos trabalhistas históricos, alguns pendentes desde 1994.
- Prontuários: Elaboração de mais de 700 prontuários de acompanhamento.
Além do Hospital Nossa Senhora das Graças e dos demais complexos de saúde da cidade, entregamos o novo Hospital e Banco de Olhos de Canoas. Com essa estrutura moderna, a população não precisa mais se deslocar até Porto Alegre para receber atendimento oftalmológico especializado e humanizado.
Buscamos recursos de forma contínua e diplomática em todas as esferas do Poder Executivo, seja no Governo do Estado ou em Brasília. Como resultado desse esforço conjunto:
- O Hospital Universitário recebeu um aporte expressivo de R$ 53 milhões do Governo do Estado, um marco histórico para o município.
Não há bem mais precioso do que a vida e a saúde de nossa gente. Que possamos continuar cuidando dos cidadãos de Canoas com dedicação e construir uma cidade cada vez melhor para todos.
Muito obrigado a todos e um grande abraço!”

Secretária de Saúde de Canoas, Ana Bool:
“Não existe Canoas sem o Graças”
“É uma noite e um dia de festa! Hoje de manhã, entregamos e fizemos a inauguração em parceria no quarto hospital da cidade, o Hospital dos Olhos de Canoas, que nasce hoje. E agora, estamos festejando os 64 anos do Hospital Nossa Senhora das Graças.
Canoas tem 87 anos e o Graças tem 64. Portanto, este hospital caminha junto com a cidade: crescem juntos, amadurecem juntos. As pessoas trabalham juntas, sofrem juntas e ficam felizes juntas neste espaço, nesta estrutura e nesta instituição. É um momento de confraternização e de muito reencontro. Os hospitais são as instituições mais complexas que existem no mercado de trabalho, pois lidam com tecnologia, higienização, alimentação, mas, acima de tudo, lidam com o bem maior que temos: a vida e a subjetividade humana.
Por isso, só temos a comemorar por Canoas contar com uma estrutura hospitalar tão importante e ímpar como o Graças. Não existe Canoas sem o Graças. Vocês que conhecem essa história, com certeza, em vários momentos só têm a saudar e reconhecer a importância dessa estrutura para a nossa cidade. Eu, particularmente, sou muito grata por estar nesta associação e por poder fazer parte desta história. Vida longa ao Hospital Nossa Senhora das Graças! Muito obrigada.”

A Trajetória do “Gracinha”
A história do Hospital Nossa Senhora das Graças é fruto de esforço comunitário e de uma busca constante pela excelência médica. Confira os principais marcos dessa jornada de 64 anos:
- 1948 (6 de Julho) – O Início da Mobilização: Fundação da Associação Beneficente de Canoas (ABC), com o objetivo principal de articular forças com a comunidade para construir um hospital de grande porte na cidade. O terreno do futuro hospital é doado pelo médico Dr. Décio Rosa.
- 1962 (29 de Junho) – A Inauguração: É inaugurado oficialmente o Hospital Nossa Senhora das Graças (HNSG). A instituição abre as portas trazendo atendimento de saúde essencial para a crescente população canoense.
- Anos 1970 – 1990 – Expansão e Especialização: O hospital expande sua estrutura física, cria novas alas de internação e passa a oferecer serviços especializados de alta complexidade, firmando parcerias de destaque com a Liga Feminina de Combate ao Câncer.
- 2020 – Nova Gestão e Desafios da Pandemia: Em meio à crise da Covid-19, o HNSG passa por um processo de reestruturação administrativa com apoio municipal, otimizando recursos para garantir o atendimento na linha de frente do combate ao coronavírus.
- 2024 – O Pilar da Saúde na Calamidade: Após o fechamento do Hospital de Pronto Socorro de Canoas (HPSC) devido às enchentes de maio, o HNSG absorve a demanda de emergência de toda a região, consolidando-se como o porto seguro da saúde do município em tempos de crise.
- 2026 (29 de Junho) – Rumo ao Futuro: O HNSG comemora seus 64 anos com foco na modernização tecnológica, humanização do SUS e fortalecimento do atendimento a convênios e particulares, mantendo viva sua essência comunitária.

A Semente no Canteiro das Graças
Nos meados dos anos 1950, Canoas ainda aprendia a caminhar com os próprios pés. Entre o barulho do progresso que se desenhava no horizonte e a poeira das ruas em transformação, erguer um hospital não era apenas uma obra de engenharia: era uma declaração de humanidade.
Foi nesse canteiro de incertezas que a voz de Hugo Simões Lagranha sobressaiu, não com o tom brando da complacência, mas com a inquietação dos grandes construtores do destino. Olhando para a estrutura ainda em gestação do Hospital Nossa Senhora das Graças, Lagranha enxergava além da cal e do tijolo. Enxergava a dor do povo desassistido e, sobretudo, a perigosa sombra da indiferença.
Em suas linhas escritas à época, o futuro “Grande Prefeito” retratou a comunidade como um corpo até então desorientado, uma “massa informe a rolar sem direção”, à espera de que a vontade coletiva lhe desse alma e propósito. Lagranha percebeu cedo que o maior obstáculo para erguer um templo da saúde não eram os orçamentos escassos ou a escassez de materiais, mas o “comodismo maléfico” daqueles que preferiam o sono irreverente ao compromisso com o próximo.
“Seríamos covardes”, bradou ele em seu texto, se a apatia vencesse a coragem de lutar por quem nada tinha. Suas palavras ressoavam como um manifesto moral. Ele lembrava aos seus concidadãos que a vida é curta e temporária, e que o único dever imperioso que nos resta é o de não permitir que a existência alheia se desfaça diante do nosso descaso.
Aquele artigo dos anos 50 não era apenas um manifesto sobre um hospital em obras; era o prenúncio de uma vida inteira dedicada a um município. O jovem líder que questionava o ritmo das estacas do Nossa Senhora das Graças seria, mais tarde, reconduzido pelo povo canoense ao topo do Executivo Municipal por cinco mandatos emblemáticos (1964–1967, 1968–1971, 1983–1984, 1989–1992 e 1997–2000).
Olhando para trás, percebe-se que a história de amor entre Lagranha e Canoas não começou na posse do primeiro mandato, mas naqueles dias em que ele se recusou a aceitar o silêncio e a lentidão diante do sofrimento humano. O Hospital Nossa Senhora das Graças ergueu-se — e, junto com ele, ergueu-se também o espírito de um homem cujo legado se confundiria para sempre com a própria identidade da cidade.







