“O malandro, na dureza, senta à mesa do café
Bebe um gole de cachaça, acha graça e dá no pé…”
— Chico Buarque
PARA LEMBRAR




Há quem diga que toda cidade que se preze nasce do suor dos trabalhadores e da teimosia dos visionários. Mas quem conhece o pulsar de uma verdadeira comunidade sabe que, escondida entre os trilhos, as praças e os balcões de botequim, existe uma categoria fundamental de construtores: os “malandros”. Não o vilão das manchetes, mas o boêmio, o jovem sonhador, o desafiador de convenções — figuras adoráveis como o nosso eterno Antônio Jesus Pfeil, o “adorável Vagabundo” que dedicou a vida a desenterrar a alma da nossa Aldeia.
Se voltarmos no tempo, para a Canoas compreendida entre 1940 e 1964, veremos uma cidade em plena metamorfose. Tinha acabado de conquistar sua emancipação política em 1939 e, de repente, viu-se lançada no olho do furacão da história mundial. Como bem lembrou Pfeil na apresentação do segundo volume de Canoas: Anatomia de uma Cidade, a Segunda Guerra Mundial foi o grande divisor de águas. O mundo encolheu, e a cultura imperialista dos “ianques com seus tanques” atravessou oceanos para desembarcar por aqui, trazendo novas tecnologias, cinemas, modismos e uma nova forma de ver a vida.
Nesse cenário de terra prometida, Canoas virou polo de atração. Chegavam jovens de todos os cantos, movidos por um incontido anseio de aventura. E o que faziam esses jovens nas horas vagas, entre um sonho e uma incerteza? Sentavam-se às mesas dos cafés locais. Riam da dureza da vida, trocavam olhares, discutiam política e viviam a juventude com a paixão leve de quem acha graça no perigo.
PARA LEMBRAR



A ironia é que a grande engrenagem do mundo sempre procurou um culpado para as suas crises. Como no enredo da música de Chico Buarque, quando o frete encarece, o usineiro trunca a nota, o banco taxa a cachaça e os diplomatas proíbem o consumo, a conta sempre estoura no elo mais fraco. O garçom vê o jovem sem tostão e grita: “Pega, ladrão!”. O boêmio, autuado, acaba julgado e condenado como o culpado de todas as mazelas.
Mas a história caprichosa de Canoas pregou uma peça nos moralistas da época. Aqueles mesmos malandros das décadas de 40 e 50 — que gazeavam aulas, vagavam pelas ruas poeirentas da Aldeia e pareciam ter todo o tempo do mundo — foram justamente os elementos formadores da nossa grande família coletiva. Entre conflitos e alianças, eles organicamente aprenderam a gerenciar a economia, as instituições e a vida social do município.
O garoto que ontem dava um trambique para pagar o café da tarde tornou-se o comerciante respeitado de amanhã. O jovem que filosofava nas calçadas virou o historiador que resgatou o passado da cidade. O boêmio irrequieto transformou-se no senhor de terno e gravata que lutou por escolas, calçamento e emancipação cultural.
Antônio Jesus Pfeil compreendeu isso como ninguém. Ao registrar a história de 1940 a 1964, ele não retratou estátuas frias, mas sim o sangue, o conflito e a paixão de uma sociedade que se construiu na ação e na reação. Pfeil provou ser preciso um pouco de vagabundagem poética para amar uma cidade a ponto de querer contar sua história para a posteridade.
Hoje, ao olhar para trás, vemos que a verdadeira Ópera dos Malandros canoense teve um final nobre. Aquele pequeno universo de interesses e confrontos deu lugar a uma cidade pujante. E quando caminhamos por Canoas e sentimos que a cidade ainda está pulsando, é a herança desses eternos jovens que escutamos — lembrando-nos de que toda grande história precisa, antes de tudo, de audácia, paixão e um bocado de poesia.
PARA LEMBRAR



Não colocamos legendas nas fotos para provocar o leitor a “puxar” na memória, converse com alguém mais antigo de sua família, com certeza ele irá saber dizer quem são os personagens. Se não, é só procurar o livro Canoas Anatomia de uma Cidade, que as legendas estão lá.









4 Respostas
A cidade precisa desse resgate histórico. Lindo demais esses detalhes da nossa cidade, que venham muitos outros textos como esse 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
Valeu meu causídico
Às vezes me pego na preocupação de quem virá pra cumprir essa missão de resgate histórico da nossa cidade! Hoje temos vc, Marco Leite, que nos dá esse presente de apresentar a vida como ela foi em Canoas, o que nos faz entender muito do que acontece hoje! Mas transformo essa preocupação em deleite, verdadeiramente um prazer e orgulho de ser contemporâneo ao teu trabalho e o privilégio das oportunidades de contato. Transformo tudo isso em torcida que inspire novas mentes! Essa matéria é relíquia do nosso jornalismo!
Obrigado meu irmão