A fotografia é, em sua essência, a arte de reter o efêmero. O fotógrafo é aquele que, armado de lentes e sensibilidade, diz ao tempo: “pare”. Mas o tempo, implacável em sua marcha, nem sempre obedece. Neste domingo, 30, o tempo não parou para José Ernesto Leal Carvalho. Aos 74 anos, o homem que dedicou mais de cinco décadas a eternizar a história do Rio Grande do Sul, fechou os olhos e guardou sua câmera para a eternidade.
O silêncio agora ocupa o espaço de um olhar que sempre esteve atento. Morador de Canoas, José Ernesto travava uma batalha contra um câncer de pulmão no Hospital São Lucas da PUCRS. Uma luta árdua que, infelizmente, apagou a luz de um dos maiores profissionais da nossa imprensa.
Tive o privilégio de cruzar os corredores, as ruas e as pautas do Correio do Povo com ele. Fui testemunha ocular do seu talento, da maneira como ele enxergava o mundo antes mesmo de o visor da máquina confirmar o enquadramento. José Ernesto não apenas apertava um botão; ele compreendia a alma do fato.

Sua história com a imagem começou de forma quase alquímica. Em 1972, na Empresa Jornalística Caldas Júnior, ele era auxiliar de laboratório. No escuro das salas de revelação, entre químicos e papéis fotográficos, ele via a notícia nascer das sombras para a luz. Foi ali que forjou o olhar que, mais tarde, estamparia as páginas do Correio do Povo, da Folha da Manhã e da Folha da Tarde. O talento o levou também à Assembleia Legislativa do Estado, mas foi no Correio que construiu seu grande legado, liderando a equipe de Fotografia com maestria por 22 anos, até a sua aposentadoria.
Como bem lembrou a Associação Riograndense de Imprensa (ARI) em sua nota de pesar, a marca de José Ernesto no fotojornalismo gaúcho foi a dedicação e o olhar afiado. Ele ensinou a muitos de nós que a notícia não é apenas lida; ela é sentida através das luzes e sombras que o fotógrafo escolhe mostrar.
Hoje, a redação está mais triste. O laboratório da vida encerra sua revelação. Mas as imagens que ele capturou seguem vivas, como um arquivo imortal de sua passagem por aqui.
Aos que desejarem prestar sua última homenagem a este mestre das imagens, o velório será realizado nesta segunda-feira, dia 31, a partir das 7h, na Capela 2 do Cemitério São Vicente (Avenida Santos Ferreira, 3.721), em Canoas. O sepultamento ocorrerá no mesmo município, às 16h, no Cemitério Chácara Barreto (Avenida Santos Ferreira, 2.105).
Que a terra lhe seja leve, Zé. A luz, agora, é toda sua.
FOTO CAPA: Mauro Schaefer/CP Memória








