Há tradições que vão muito além de meras datas no calendário municipal: são verdadeiros espelhos da alma de uma comunidade. Na manhã deste domingo (30), quando a Avenida Farroupilha, em frente ao ParkShopping Canoas, transformou-se no palco do Desfile Cívico Municipal sob o tema “Canoas, minha terra, município de valor”, o que se viu nas ruas não foi apenas a marcha ritmada de estudantes e forças de segurança. Canoas reencontrou o seu próprio passado, prestou tributo à sua identidade e reafirmou uma aliança histórica e visceral que possui com o céu, com a Força Aérea Brasileira (FAB) e com o civismo.

“O desfile cívico, realizado em frente ao Canoas Park Shopping, reuniu milhares de pessoas para celebrar este momento tão importante em homenagem à nossa pátria e a tudo de bom que a nossa cidade tem a oferecer. Mobilizamos todas as escolas e contamos com a presença marcante da nossa querida Base da Força Aérea Brasileira. É um dia muito especial, no qual podemos sentir de perto essa emoção, reverenciar a nossa bandeira e resgatar o sentimento de patriotismo nas nossas escolas e na nossa comunidade. Nosso objetivo é fazer de Canoas uma cidade alegre e feliz, valorizando a nossa história e homenageando o nosso país.”
— Airton Souza, Prefeito de Canoas.
Para compreender o verdadeiro significado do ato cívico de hoje, é preciso olhar para o retrovisor do tempo e reconhecer que Canoas é uma cidade cujo crescimento, caráter e relevância foram forjados, em grande medida, ao som dos motores das aeronaves e das marchas escolares que marcaram gerações.
Grupo os “Caça-Ratos” — militares que instalaram o antigo 3º Regimento de Aviação, que mais tarde se consolidaria como a Base Aérea de Canoas
As Origens: uma cidade nascida sob as asas da FAB
A história de Canoas confunde-se com a própria história da aviação militar no Sul do país. A instalação do antigo 3º Regimento de Aviação, que mais tarde se consolidaria como a Base Aérea de Canoas (BACO) na década de 1940, ocorreu no exato momento em que o jovem município dava seus primeiros passos após a emancipação política de Gravataí.
A chegada dos militares não trouxe apenas infraestrutura e impulso ao desenvolvimento urbano; trouxe famílias, diversidade cultural, investimentos e um profundo sentimento de orgulho comunitário. Canoas cresceu ao redor dos hangares e das pistas de pouso, ganhando com justiça o carinhoso e definitivo título de “Capital do Avião”.
Para o canoense, o estrondo das turbinas cortando as nuvens nunca foi encarado como ruído, mas sim como um eco de proteção e presença institucional. Gerações aprenderam a olhar para o alto com admiração, enxergando na FAB um pilar fundador da própria identidade local.
1941 – Alunos do La Salle desfilando na Victor Barreto
O resgate da memória: a nostalgia dos antigos desfiles
Quem viveu em Canoas entre as décadas de 1970, 1980 e final dos anos 1990 guarda no coração a memória dos grandiosos Desfiles da Pátria. Eram tempos em que as artérias centrais da cidade — como as avenidas Victor Barreto e Getúlio Vargas — paravam completamente para ver a população marchar.
Os preparativos começavam meses antes nas escolas. Havia uma rivalidade saudável e vibrante entre as bandas marciais e fanfarras das instituições de ensino locais. As balizas ensaiavam movimentos com precisão impecável; os uniformes engomados e os instrumentos lustrados eram motivo de orgulho familiar. Os antigos desfiles representavam o ápice do ano letivo: um momento de celebração em que bairros inteiros se deslocavam ao centro para ver seus filhos marcharem.
O ponto alto dessas celebrações era invariavelmente a passagem dos imponentes pelotões da Base Aérea de Canoas, que encerravam os desfiles sob o ruído de aplausos efusivos e sobrevoos baixos de aeronaves de caça. Tratava-se de um rito de passagem e de fortalecimento do sentimento de pertencimento.
Escola André Leão Poente, desfilando na Avenida Victor Barreto no ponto entre as ruas Ipiranga e Araçá
O hiato de 14 anos e a provação de 2024
Contudo, ao longo dos anos 2010, essa tradição sofreu um doloroso interregno. Por razões orçamentárias, logísticas e mudanças administrativas, Canoas viveu um longo hiato de 14 anos sem a realização do Desfile Cívico Municipal. A ausência das marchas nas ruas enfraqueceu o vínculo das novas gerações com o civismo local e distanciou o público dessa celebração comunitária.
Entretanto, se o civismo parecia adormecido nas avenidas, ele ressurgiu de forma heroica e visceral no momento de maior dor da história do município.
Desfile da Pátria em 1978, na 15 de Janeiro com a Tiradentes
Durante as devastadoras enchentes de maio de 2024, quando as águas do Rio dos Sinos e do Jacuí cobriram bairros inteiros e isolaram a Região Metropolitana, a aliança histórica entre Canoas e a Base Aérea atingiu seu ponto culminante. Com a interdição total do Aeroporto Internacional Salgado Filho, a BACO transformou-se na principal porta de entrada para a ajuda humanitária, resgates e suprimentos em todo o Rio Grande do Sul.
A pista militar tornou-se o coração pulsante da esperança gaúcha. Dali decolavam e ali pousavam aviões trazendo medicamentos, equipes de resgate, voluntários e mantimentos de todo o Brasil e do exterior. Mais do que a logística, os próprios militares da FAB — muitos dos quais tiveram suas próprias casas alagadas na cidade — atuaram incansavelmente no resgate de famílias ilhadas. A tragédia provou que a ligação de Canoas com a Base Aérea não é apenas uma metáfora do passado, mas uma realidade que salva vidas no presente.
Linha do Tempo: A Trajetória da Tradição Cívica em Canoas
| Período / Data | Marco Histórico | Impacto na Identidade Canoense |
| Décadas de 1940 – 2000 | Consolidação da BACO e Era Dourada dos Desfiles | Forte integração entre militares e moradores; criação do título “Capital do Avião”; desfiles massivos nas avenidas centrais. |
| 2010 – 2024 | O Hiato de 14 Anos | Suspensão dos desfiles oficiais; enfraquecimento momentâneo dos ritos cívicos nas escolas da cidade. |
| Maio de 2024 | A Provação da Enchente e a BACO como Hub Humanitário | A Base Aérea torna-se o epicentro de resgate e abastecimento do RS; consolidação do sentimento de gratidão eterna da população aos militares. |
| Setembro de 2025 | A Retomada Histórica | O Poder Público resgata o Desfile Cívico após 14 anos, promovendo um ato de cura coletiva e resgate moral da comunidade após o trauma de 2024. |
| 30 de Agosto de 2026 | Consolidação e Pertencimento | Realização do desfile na Avenida Farroupilha reunindo 83 escolas, entidades e a FAB, selando o retorno definitivo da tradição ao calendário oficial. |
SEMANA DA PÁTRIA DE 1942 – Na Praça da Bandeira (em frente à Igreja) concentração dos alunos do La Salle e Maria Auxiliadora.
O Presente: O Valor de Olhar para o Futuro
A realização do desfile na manhã deste domingo (30) na Avenida Farroupilha — reunindo a Banda da BACO, tropas da FAB, 83 escolas municipais, colégios particulares, grupos de escoteiros, atletas e forças de segurança — demonstra que o resgate promovido pelo prefeito Airton Souza, em 2025, não foi um evento isolado, mas sim a consolidação de uma política pública de valorização da memória e da cidadania.
Ver os estudantes marchando novamente ao lado dos pais e sob o olhar respeitoso dos mesmos militares que atuaram no socorro à cidade encerra um ciclo de superação e abre um capítulo de esperança. “Canoas, minha terra, município de valor” deixa de ser apenas o tema de um desfile e torna-se a afirmação consciente de um povo que honra suas origens, reconhece seus heróis do passado e do presente, e marcha unido em direção ao amanhã.
A retomada dos desfiles em 2025.
Prefeito Airton Souza destaca civismo e união comunitária durante Desfile Cívico em Canoas

O prefeito de Canoas, Airton Souza, enalteceu a realização do Desfile Cívico municipal, evento realizado na extensão em frente ao Canoas Park Shopping que reuniu milhares de moradores, estudantes e autoridades locais.
A celebração contou com grande mobilização da rede municipal de ensino, além do apoio e participação de instituições militares de destaque na região. “Mobilizamos todas as escolas e contamos com a presença da Base Aérea, da nossa Aeronáutica, tão querida por todos nós nesse momento”, afirmou o chefe do Executivo.
Para o prefeito, o evento representa mais do que uma celebração formal, sendo um marco de resgate da identidade e do orgulho local. “É um dia muito especial de poder sentir de perto e vibrar com a emoção de reverenciar a nossa bandeira, trazendo de volta e recuperando o patriotismo nas nossas escolas e na nossa comunidade”, destacou.
Airton Souza reforçou o compromisso da administração municipal com a promoção de eventos que fortaleçam a autoimagem do município. “Estamos fazendo com que Canoas seja uma cidade alegre e feliz, recuperando a nossa história e reverenciando a nossa pátria brasileira, tão querida por todos nós”, concluiu.









