A SOBRIEDADE E A SAUDADE | O inventário da alma: celebrando quem ficou pelo caminho

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O calendário avisa que hoje é Dia de Finados, uma data que o mundo costuma vestir de luto, saudade doída e passos lentos. Mas, para quem carrega a dádiva de estar vivo após caminhar pelas beiras do abismo, este dia ganha uma roupagem diferente. Hoje, minha reverência não é feita de lamentos, mas de uma profunda e serena gratidão. Ao olhar no espelho, vejo o reflexo de 21 anos de recuperação de uma adicção que, em sua ferocidade, me ensinou o real valor de cada amanhecer.

Nesta jornada contínua, aprendi que a vida de um adicto em recuperação é um inventário de honestidade. Hoje, fecho os olhos e abro a contabilidade da minha alma. Cada perda que sofri pelo caminho não é mais um peso que me puxa para baixo, mas uma base que me sustenta. No mundo das fugas, dos excessos e das ilusões, onde a vida muitas vezes parecia um rascunho descartável, eu não encontrei apenas sombras. Tropecei em almas brilhantes, pessoas genuinamente boas que, assim como eu, se perderam em algum momento no labirinto da dependência.

Lembro-me de jovens talentos, quase irmãos mais novos, de almas sem maldade que foram ceifados cedo demais, derrotados pela doença. Lembro-me também de velhos parceiros que chegaram a buscar a mesma ajuda que me salvou, que dividiram o teto da esperança, mas cujas forças se esgotaram antes da linha de chegada. A dependência é implacável. Ver o fim da linha de antigos companheiros é o choque que a realidade nos dá para lembrar que a sobriedade não é um troféu definitivo, mas uma vigília diária e amorosa. Nossos fracassos passados e os tropeços daqueles que não conseguiram se reerguer são a dura lição que nos mantém alertas.

Por outro lado, o caminho da recuperação também me cobriu de anjos terrenos. Mestres e mentores que me deram oportunidades cruciais quando eu era apenas promessa e incerteza. Pessoas que enxergaram minha humanidade quando muitos só viam o vício, que ensinaram uma profissão e mantiveram acesa a chama da fraternidade. Vários deles também já partiram, mas a confiança que depositaram em mim transformou-se no meu alicerce. Cada passo certo que dou, cada dia em que escolho a vida e a lucidez, é uma carta de agradecimento invisível enviada a eles.

Minhas vitórias hoje não são solitárias; elas pertencem a cada amigo e mentor que dividiu comigo um pedaço do trajeto. O Dia de Finados, sob a ótica de quem renasceu, é a compreensão de que os que se foram não estão enterrados no passado, mas plantados em nosso presente. Eles sobrevivem na minha recusa diária em desistir. Vivem na coragem necessária para mudar hábitos, na busca contínua pelo preenchimento espiritual e na mão estendida àquele que ainda sofre na escuridão — porque sabemos que de cada dez que tentam, poucos conseguem ficar de pé sem amparo.

Aos amigos que perdi para a doença e aos guias que perdi para o tempo: meu absoluto e humilde obrigado. Vocês são as estrelas que balizam meus passos nesta estrada de vida limpa, provando que nenhuma passagem é em vão.

Um bom Dia de Finados, feito não de tristeza, mas de memória viva, paz e gratidão, para todos nós.

 

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