Aulas retornam em Canoas, mas o impasse continua: para o seixo ser rolado, será preciso muito diálogo

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A partir desta segunda-feira (18 de maio de 2026), o sinal volta a tocar nas escolas municipais de Canoas. Para milhares de famílias e estudantes, o restabelecimento da rotina escolar traz um suspiro de alívio após quase um mês de paralisação. No entanto, o silêncio que se dissipa nos pátios não significa, de forma alguma, que o barulho do conflito tenha chegado ao fim. O retorno das aulas é um cessar-fogo temporário, mas o impasse profundo entre o governo municipal e os educadores continua latente, ameaçando a estabilidade do ano letivo.

De um lado da mesa, a Prefeitura de Canoas, sob a gestão do prefeito Airton Souza, adota a postura de quem fez o possível. Na visão do Executivo, as reivindicações da categoria foram atendidas dentro das limitações fiscais e jurídicas do município. A administração ressalta que apresentou propostas viáveis, estabeleceu prazos claros de retorno — como a data de 12 de maio para garantir o abono total dos dias parados — e que seguiu os trâmites institucionais, considerando o movimento oficialmente encerrado.

 

Do outro lado, os professores carregam um sentimento profundo de desvalorização e desconfiança. Esta paralisação, histórica por quebrar um hiato de 34 anos sem greves da categoria na cidade, expôs feridas antigas: problemas estruturais nas escolas, perdas salariais históricas e, mais recentemente, o parcelamento do reajuste inflacionário via Lei municipal 6.913/26. Para os educadores e o Sindicato dos Profissionais em Educação Municipal de Canoas (Sinprocan), o principal nó tático do momento é a “questão do ponto”. Sem a garantia expressa de que não haverá cortes salariais ou punições pelos dias de greve, o calendário de reposição das aulas corre o risco de virar uma nova arena de disputa.

Para complicar um cenário que já é naturalmente delicado, não se pode ignorar o pano de fundo que tensiona os bastidores: o calendário eleitoral de 2026. Em anos de pleito, movimentos sociais e greves legítimas frequentemente se transformam em palcos de disputa partidária. Nos bastidores de Canoas, o comentário geral é sobre a inevitável politização do movimento, com “candidatos” e figuras políticas tentando surfar na onda da greve para desgastar adversários ou capitalizar votos, fragmentando ainda mais a possibilidade de um consenso técnico e pedagógico.

O resultado dessa polarização é uma queda de braço onde quem mais perde é a comunidade escolar. A educação não se reconstrói com ultimatos, ironias em redes sociais ou irredutibilidade sindical.

A educação assemelha-se à dinâmica de um rio. Suas pedras ásperas e pontiagudas — que representam os conflitos, as defasagens de aprendizagem e as carências estruturais — não se suavizam pela força bruta de uma enxurrada de decretos ou pela rigidez de greves eternas. Somente o fluxo constante, paciente e persistente das águas de um bom e verdadeiro diálogo é capaz de lapidar essas arestas. É esse fluir respeitoso que pode transformar o atrito em entendimento, levando a educação de Canoas a se tornar, finalmente, um seixo rolado: liso, firme e moldado pela convivência democrática.

As salas de aula reabriram, mas o verdadeiro caminho para a paz pedagógica ainda precisa ser pavimentado com maturidade política de ambos os lados.

Fotos: Bruno Ourique

 

Uma Resposta

  1. Olá.Campo de Guerra que poderia ter sido EVITAFO caso o ” do FUNDEB chegasse ao seu FIM.Nesta greve histórica , foi mostrado em mídias que o $ E MUITO, NAO CHEGAVA AO SEU OBJETIVO FINAL e nos professores ficamos a MINGUA MUITOS ANOS..Nas urnas veremos a resposta desta insatisfação.NOSSA LUTA NAO FOI VENCIDA.FOI DAFO UMA TRÉGUA.

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