COISAS DA ALDEIA | A praça dos loucos e o arquiteto do caos

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Quando Marshall McLuhan sonhou com a Aldeia Global, ele provavelmente não imaginava que o arquiteto da praça central entregaria um megafone para o idiota e amordaçaria quem, por um lapso de civilidade, parou para ler o edital colado no poste. Hoje, não podemos culpar apenas a endêmica preguiça humana pela morte da interpretação de texto; o crime tem um cúmplice engravatado no Vale do Silício. Com seus botões de compartilhamento rápido, que dispensam a inconveniência de abrir o link, e algoritmos milimetricamente calibrados para injetar cortisol na nossa corrente sanguínea, o design das redes sociais criou um ecossistema perfeito para sufocar quem lê e coroar quem grita.

Basta abrir qualquer plataforma para ver a fauna operando. É ali que habita o gatilho mais rápido do oeste digital: o sujeito que consome a manchete pela metade, mas opina por inteiro. Ele tropeça na fonte garrafal, ignora solenemente o texto e já desce para a caixa de comentários com uma convicção messiânica. Do lado dele, ofegante após o esforço hercúleo de rolar a tela, está o órfão do TikTok. Ele se depara com a heresia de quatro parágrafos e implora por um resumo, incapaz de manter o foco em qualquer coisa que não dance na tela em quinze segundos. Pelo menos esse tem a decência de admitir a própria limitação, diferentemente do esquadrão da morte da nuance. Ah, esses são fascinantes. Se você escreve que “embora chova, o sol vai sair”, eles brotam do chão para te acusar de ser lobista da indústria de guarda-chuvas. Eles espremem as suas palavras, as torturam na praça pública, até que elas confessem exatamente a indignação que eles já queriam sentir antes mesmo de logar.

Isso, claro, quando não somos interrompidos pelo Pasquale do Apocalipse. O mundo derretendo, uma reportagem dissecando o maior esquema de corrupção do século, e o indivíduo entra em êxtase orgástico porque achou uma crase mal colocada no terceiro parágrafo. Corrigir um erro de digitação enquanto o planeta queima é o seu atalho para a genialidade. Ele divide o espaço com o fiscal de pauta, que sofre da crença inabalável de que a internet é o seu umbigo. A NASA descobre água em Marte e ele grita: E os buracos da minha rua, a mídia não mostra! Logo é abraçado pelo especialista diplomado na Universidade do YouTube, que entra com um textão refutando a gravidade, a inflação e a vacina, baseado em uma epifania que teve no banho e começando sempre com a clássica carteirada: o que não querem que você saiba.

Mas não nos enganemos: o verdadeiro reizinho dessa aldeia, o funcionário do mês do algoritmo, é o torcedor. Para ele, informação é apenas munição ideológica barata. Se a notícia condena seu político de estimação, é complô, é mídia vendida. Se destrói o adversário, é o jornalismo em sua forma mais pura e divina. Ele é ativamente destrutivo, enxerga o debate público como uma guerra de trincheiras, mas é ele quem paga as contas da plataforma. A indignação cega e ensurdecedora desse sujeito gera os cliques, retém a atenção e vende os anúncios que mantêm o circo funcionando.

E o leitor que clica, lê até o fim, entende o contexto, pondera e vai embora viver a sua vida? Ah, esse é tratado como uma lenda urbana. Como ele não espuma pela boca, não profere ameaças de morte e não gera o chorume engajado que movimenta a economia da atenção, as redes o enxergam como um fantasma inútil. A tragédia da nossa era é que construímos a biblioteca de Alexandria, mas o arquiteto fez questão de entregar as chaves para os bárbaros. Talvez a única salvação fosse instalar um bafômetro de sanidade antes do botão de comentar, exigindo que o sujeito passasse ao menos cinco minutos na página antes de poder berrar para a aldeia inteira. Mas, convenhamos, isso não daria lucro nenhum.

Herbert Marshall McLuhan (1911–1980) foi um filósofo, educador e teórico da comunicação canadense, considerado um dos pioneiros e mais influentes pensadores na área dos estudos de mídia. Ele ficou mundialmente famoso na década de 1960 por analisar como as tecnologias de comunicação afetam a cognição humana e a organização da sociedade.

Seus conceitos mais famosos incluem:

  • “O meio é a mensagem”: A premissa de que a forma de um meio (televisão, rádio, texto, internet) tem um impacto estrutural muito maior na sociedade do que o conteúdo específico que ele transmite. O meio em si altera a forma como as pessoas percebem e interagem com o mundo.
  • Aldeia Global: Décadas antes da criação da World Wide Web, McLuhan previu que a tecnologia eletrônica conectaria o mundo de forma tão estreita que ele se tornaria uma “aldeia global”. Ele percebeu que a informação passaria a ser compartilhada instantaneamente em escala planetária, transformando as relações culturais e sociais.
  • Meios Quentes e Frios: Ele classificou as mídias com base no grau de engajamento exigido do público. Meios “quentes” (como o cinema ou um livro impresso) fornecem muita informação sensorial e exigem pouca participação do usuário para completar a mensagem. Meios frios (como a televisão ou um seminário) fornecem menos dados imediatos e exigem que o público participe ativamente para preencher as lacunas.

O surgimento da internet, dos smartphones e das redes sociais trouxe um interesse renovado por suas principais obras, como A Galáxia de Gutenberg (1962) e Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem (1964), consolidando sua reputação moderna como o profeta da era digital.

 

 

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