DE CAPELA CURADA A PONTE TRANSATLÂNTICA | A história de Canoas reescrita pelas vozes da 41ª Feira do Livro

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 “Canoas é uma cidade que povoa o imaginário de quase todas as crianças no Rio Grande do Sul. Acredito que a feira do livro é sempre um ponto alto para as cidades. Ela tem a capacidade de centralizar e aproximar as pessoas da leitura”.

Vitor Ramil | Patrono da Feira do Livro de Canoas

 

A reflexão, precisa e afetiva, serve como bússola para entender o atual momento cultural do município. Chegando à sua 41ª edição, a Feira do Livro de Canoas deixa de ser apenas um evento no calendário local para se consolidar como um marco histórico, dando o passo inicial rumo à sua Primeira Feira Internacional de Literatura.

Se este ano os holofotes se voltam para a lusofonia — com a promessa de abraçar a língua espanhola nas próximas edições —, é preciso olhar para o passado para compreender a envergadura desse salto.

Para entender a Canoas, que hoje dialoga com a África, é necessário voltar ao Capão das Canoas. As terras, antes habitadas pelos índios Tapes e posteriormente desbravadas por tropeiros e por Francisco Pinto Bandeira no século XVIII, sempre tiveram a vocação do encontro. Foi ao redor de uma estação da estrada de ferro que ligava Porto Alegre a São Leopoldo, inaugurada em 1874, que o povoado prosperou. A árvore frondosa que serviu para a construção de uma canoa, utilizada pelos trabalhadores às margens do Rio dos Sinos, batizou o local.

De chácaras de veraneio no início do século XX, passando pela elevação à Capela Curada (1908) e a decisiva chegada da aviação militar (1937), que impulsionou sua emancipação em 1939, Canoas transformou-se em um gigante econômico e industrial. Contudo, a 41ª Feira do Livro prova que o desenvolvimento da cidade não se mede apenas por seu PIB, mas pela sua capacidade de produzir pontes humanas e literárias.

O OLHAR PARA DENTRO | As raízes na Melhor Idade

Dois grandes lançamentos, elaborados especialmente para a feira materializam essa vocação de Canoas como um polo agregador. O primeiro deles olha profundamente para as raízes da própria comunidade: o projeto editorial Sociedade Invisível.

Idealizada pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, sob a gestão do prefeito Airton Souza e do secretário Caio Flávio, a obra reúne 42 escritores locais em uma antologia poética cujo protagonismo é inteiramente da pessoa idosa (60+). Mais do que um livro, trata-se de um manifesto contra o apagamento da terceira idade.

Nas palavras da autora Carla Rosane Lopes de Freitas, “o idoso é um jovem que deu certo”. A obra cumpre o papel fundamental de escutar o silêncio de uma sociedade que frequentemente marginaliza a velhice. Ao transformar vivências, dores e saudades em arte, a publicação corrobora que a maturidade é “a arte da resiliência” e instiga a população sênior a nunca abandonar seus projetos de vida. É Canoas reverenciando sua própria memória.

O OLHAR PARA FORA | Ecos de Moçambique no Rio dos Sinos

Se o primeiro lançamento fortalece as fundações locais, o segundo expande as fronteiras da cidade para o outro lado do oceano. A obra Vozes de Moçambique, do projeto Sociedade Invisível, marca a inauguração da 1ª Feira Internacional Lusófona.

Escrito em português e em um dos 52 dialetos do país africano, o livro é uma verdadeira ponte entre Brasil e África. Com autoria de Vitória Bitencourtt Ferreira e textos de jovens da Vila da Manhiça, a obra traz para o sul do Brasil o aroma do xiguinya, o ritmo da timbila e o transe da marrabenta.

O prefácio, assinado por Rodrigues Zicai Fazenda, traduz com maestria esse encontro: é a palavra moçambicana lançando pontes sobre o Atlântico para ser acolhida em Canoas. “A literatura não elimina as nossas diferenças, ela nos ensina a reconhecê-las, compreendê-las e, muitas vezes, encontrar beleza justamente nelas”, reflete o projeto.

Um novo capítulo

Ao celebrar 41 anos de imersão literária, Canoas reescreve a própria história. A cidade que nasceu no entorno de trilhos de trem para escoar riquezas materiais, agora utiliza as páginas dos livros para transportar culturas.

Seja dando voz aos talentos 60+ da própria comunidade ou abraçando as ricas narrativas da juventude moçambicana, a 41ª Feira do Livro prova que a distância deixa de ser intransponível quando a palavra atravessa fronteiras.

Canoas, definitivamente, já não povoa apenas o imaginário das crianças gaúchas; ela agora abriga o mundo.

Encontro internacional sobre literatura lusófona, com convidados de Moçambique, Angola e Cabo Verde.

PROGRAMAÇÃO DA FEIRA

Terça-feira (20/10)

9h– Encontro com o escritor Kanhanga.

9h – Oficina de letramento racial para infâncias, com Isidro Sanene.

10h15 – Palestra Conexões Transatlânticas, com Ailton Moreira.

10h15 – Oficina de acessibilidade e atendimento às pessoas com deficiência visual.

14h – Oficinas de desenho, contações de histórias e sessões de autógrafos.

15h15 – Encontro com o escritor Pedro Guerra.

19h – Encontro com as universidades, na Unilasalle, sobre formação literária, experiências culturais e desenvolvimento turístico.

19h30 – Encontro com o escritor Pedro Guerra.

Quarta-feira (21/10)

9h – Encontro com o escritor Pedro Paulo Graczcki (Pepe).

10h15 – Encontro com o escritor Ronald Augusto.

14h – Show musical Sementes do Sul, com Maluquinha Tchê e participação de Marcelo Cachoeira.

15h15 – Oficina de escrita em braille.

17h – Sessão de autógrafos com Martha Medeiros.

18h – Pocket show com Andersonn Prestes.

19h – Encontro com a escritora Martha Medeiros, no Sesc.

Quinta-feira (22/10)

9h – Espetáculo teatral Dom Quixote, com a Cia. do Riso.

9h – Palestra Paris e Berlim: o que duas capitais europeias ensinam sobre caminhar e escrever?, com Jeison Karnal.

10h15 – Oficina de quadrinhos com Jeison Karnal.

14h – Encontro com o escritor Alex Andrade dos Santos.

15h15 – Apresentação teatral Dom Quixote, com a Cia. do Riso.

16h30 – Tarde da Associação Canoense dos Escritores (ACE), com sessão de autógrafos.

19h30 – Etapa final do Slam Entreverbo.

19h30 – Palestra sobre Internet das Coisas e Inteligência Artificial, com Rodrigo Figueiredo.

Sexta-feira (23/10)

9h – Espetáculo teatral Hector, o Dragão.

10h15 – Encontro com o escritor Athos Beuren.

14h– Encontro com o escritor Rogério Madrid.

15h15– Contação de histórias com a Palhaça Gelatina, da Cia. do Riso.

16h– Atividade musical e sessão de autógrafos com o patrono Vitor Ramil.

18h– Show musical com a banda Cobra Criada, com Rock & Traço.

19h30 – Encontro com a escritora Anna Mariano, autora de Murmúrios da Terra.

Sábado (24/10) – Encerramento

10h – Palestra sobre ilustradores e desenhistas, com Leonardo Moreira.

10h30 – Bate-papo sobre literatura infantil.

11h– Contação de histórias na Bebeteca.

12h– Apresentações de K-pop.

13h– Bate-papo com o ilustrador e autor profissional de quadrinhos Emanuel Ossuoski, no Auditório Mário Quintana.

14h– Concurso de cosplay.

16h– Espetáculo teatral
Quintana Quintanares, com a Cia. do Riso.

17h30– Cortejo de encerramento.

18h– Show de encerramento, na Praça da Bandeira.

A programação está sujeita a alterações de horários, atividades e atrações.

Serviço

Evento: 41ª Feira do Livro de Canoas

Data: 17 a 24 de outubro de 2026

Local: Praça da Bandeira, Canoas

Abertura: sábado (17), às 9h30

Cerimônia oficial: sábado (17), às 19h

Encerramento: sábado (24), às 18h

 

A programação está sujeita a alterações de horários, atividades e atrações

 

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