Há quem precise correr noventa minutos, suar a camisa sob o sol do Chile e driblar zagueiros tchecoslovacos gigantescos para dar a volta olímpica.
Eu não. Eu já nasci com a taça na mão.
No emblemático dia 17 de junho de 1962, enquanto Amarildo, Zito e Vavá estufavam as redes em Santiago para garantir o bicampeonato mundial do Brasil, eu marcava o meu primeiro gol na grande partida da existência. Nasci pelas mãos sábias de uma parteira na Barra do Quaraí, no extremo oeste gaúcho, bem na fronteira onde o vento faz a curva e o Uruguai é logo ali. Registrado na vizinha Uruguaiana por questões de burocracia do campeonato, tornei-me oficialmente um cidadão da fronteira, mas, acima de tudo, um predestinado. Com apenas algumas horas de oxigênio neste planeta, nasci no dia 16, eu já era bicampeão do mundo. Se isso não é começar o jogo com o placar a favor, não sei mais o que é.
Meu pai, entusiasmado com a mística daquele ponta-direita de pernas tortas que fazia a defesa adversária dançar tango sem música, queria me batizar de Garrincha. Justo. Afinal, eu tinha tudo para ser um “Anjo das Pernas Tortas” da fronteira. Mas a minha mãe, que naquela partida jogava na zaga central e mandava na grande área, bateu o pé. Nada de apelido de passarinho. Fiquei Marco Antônio. Um nome de imperador romano para um guri que, nascido na safra de 1962, teria que enfrentar os gramados da vida real aos trancos e barrancos.
E bota “trancos e barrancos” nisso.
A vida, como bem sabem os cronistas esportivos, não é um amistoso de compadres. É um clássico truncado, com carrinho por trás, juiz tendencioso e dia de chuva. Sou um sobrevivente.
Um vencedor abnegado.
Ao longo do campeonato da minha existência, passei por todas as posições táticas. Confesso que, durante um bom tempo, joguei no “time da noite”. Fui um “borracho irrecuperável”, daqueles que valorizam o terceiro tempo antes mesmo do apito inicial, fazendo da boemia o meu esquema tático preferido.
Mas o técnico lá de cima sabe a hora de mexer no time. Com o tempo, fiz a transição da noite para o dia, troquei o copo pela caneta e o microfone, e virei um orgulhoso “atleta da informação”. Hoje, escalado no meio-campo da vida em Canoas — cidade maravilhosa que adotei para viver meus melhores momentos —, distribuo o jogo com a precisão de um Didi da comunicação.
Nesta gloriosa seleção da vida, não sou o craque do time, o Pelé que resolve sozinho, e nem tenho essa pretensão. O orgulho do manto que visto é o de ser um colaborador obstinado. Daqueles que correm pelo companheiro, que cruzam a bola na medida e que entendem que, no vestiário e no campo da existência, ninguém vence isolado.
Juntos somos fortes, e a vitória é de todo o elenco.
Hoje, olhando para trás e contemplando a caminhada vitoriosa que me trouxe até Canoas, só me resta rir das ironias do destino, agradecer pela saúde e celebrar.
Sou da safra de 62, sou da Barra, sou de Uruguaiana, sou sobrevivente e sou feliz.
O juiz ainda não apitou o fim do jogo, a bola continua rolando e eu sigo aqui, de cabeça erguida, pronto para o próximo ataque. Afinal, quem nasce campeão nunca perde a mania de vencer.








