Trinta anos após a proposta visionária publicada na Folha de Canoas, o projeto de revitalização urbana deu lugar ao abandono do comércio local, que hoje clama por socorro.
Em abril de 1994, as páginas do jornal Folha de Canoas estampavam um olhar de entusiasmo e planejamento para o futuro da cidade. Sob a gestão do prefeito Liberty Conter — carinhosamente conhecido como “seu Dick” — e pelas palavras do editorialista Antônio Canabarro Tróis, o “Tonito”, gestava-se um projeto ambicioso para a época: a criação de uma “Rua 24 Horas” em Canoas.
Mais do que uma simples cópia de modelos externos, a ideia registrada por Tonito (e mais tarde imortalizada em seu livro Ideias pela Democracia) propunha um centro urbano pulsante, onde o desenvolvimento econômico e o lazer popular caminhariam de mãos dadas, sem pausar as atividades ao anoitecer.
Três décadas se passaram. O futuro chegou, mas o sonho da vitalidade urbana deu lugar a uma dura realidade de estagnação e abandono.
No editorial publicado nos dias 23 e 24 de abril de 1994, intitulado “Comércio e recreação”, Tonito sintetizou uma visão moderna e sustentável de urbanismo para Canoas. A proposta fundamentava-se em pilares claros:
Escuta Populacional: A decisão final deveria respeitar a vontade da comunidade e dos comerciantes diretamente atingidos, consagrando o princípio de que a opinião pública é soberana.
Integração Econômico-Cultural: O comércio tradicional coexistiria com espetáculos artístico-culturais, promovendo ocupação saudável do espaço público sem ferir os horários de descanso.
Pequenos Custos e Solução Local: Em vez de despender somas milionárias na criação de novas vias, a Prefeitura buscaria adensar áreas onde o comércio já estivesse consolidado, priorizando soluções criativas e locais em detrimento de gastos excessivos.
Cooperação Institucional: O Executivo e o Legislativo atuariam em conjunto para adequar posturas e leis, fortalecendo a governança da cidade.
Era uma proposta embasada no bom senso, na prudência orçamentária e na valorização do espaço coletivo.
A Involução | Um centro que pede socorro
Diferente do que projetavam os idealizadores de 1994, os anos seguintes não trouxeram o florescimento do comércio central. O contraste entre o editorial de Tonito e a situação contemporânea do Centro de Canoas evidencia um processo latente de involução urbana.
Enquanto a “Rua 24 Horas” previa uma cidade que “não dorme”, o atual Centro da cidade adormece cedo demais — não por opção, mas por insegurança e degradação. Lojistas e frequentadores relatam um cenário de esquecimento:
Sinais de Abandono: Fachadas deterioradas, falta de iluminação adequada e problemas recorrentes de zeladoria urbana afastam o público consumidor.
Comércio Sufocado: Sem os estímulos de infraestrutura e eventos culturais prometidos no passado, os comerciantes locais enfrentam dificuldades crescentes para manter suas portas abertas diante da concorrência de grandes polos fechados e do e-commerce.
A Ausência da Vida Cultural: A integração entre arte, lazer e comércio, defendida no editorial de 1994, raramente é vista nas ruas centrais, reduzindo a circulação de pedestres fora do horário comercial bancário.
Resgatar o Passado para Salvar o Futuro
A leitura do editorial de 1994 não serve apenas como um exercício de nostalgia, mas como um diagnóstico doloroso e, ao mesmo tempo, instrutivo. As premissas apontadas por Tonito e pela gestão de Liberty Conter continuam válidas: a cidade precisa ouvir quem vive e trabalha no Centro.
O resgate do principal polo comercial de Canoas requer medidas urgentes. Não se trata de implementar propostas mirabolantes ou importar modelos custosos sem adaptação, mas de aplicar a mesma premissa defendida há 30 anos: soluções locais, investimento inteligente, segurança e valorização da cultura.
Canoas não pode mais se dar ao luxo de ver seu coração comercial esvaziar-se. O apelo dos comerciantes por socorro precisa encontrar eco na gestão pública, transformando as ideias que um dia estiveram no papel em uma realidade à altura da história da cidade.

Uma luz no fim do túnel
Se o passado deixou lições não cumpridas, o presente começa a ensaiar uma reação necessária. Em uma reunião recente, no dia 20 de julho, o presidente do Sindilojas Canoas, Adnan Abed Zarruq, esteve reunido com a secretária de Desenvolvimento Econômico e Inovação de Canoas, Patricia Augsten, e com a equipe técnica do Sebrae.
O encontro definiu passos concretos para romper com a inércia que atinge o coração da cidade. Ficou acertada a contratação de um consultor — custeado integralmente pelo Sebrae — com a missão de articular e estruturar as ações:
Intervenções Públicas: Mapeamento e priorização de obras e melhorias urbanas a serem executadas pela Prefeitura Municipal no Centro.
Aprimoramento do Comércio: Proposta de adequações e qualificações nos próprios estabelecimentos comerciais, visando modernizar e tornar mais atraente o ambiente de negócios.
A nova iniciativa do Sindilojas, Sebrae e Prefeitura resgata, na prática, a essência do que Tonito escrevia há 30 anos: a colaboração entre o setor privado e o poder público, a busca por soluções locais eficientes e o foco em valorizar onde o comércio já existe.
Canoas não pode mais permitir que seu principal polo comercial continue definhando. O diálogo que renasce entre entidade de classe, técnicos do Sebrae e gestão municipal representa o primeiro passo para que as ideias escritas no papel em 1994 finalmente ganhem vida e devolvam ao Centro de Canoas o dinamismo e a dignidade que a cidade merece.

PARA LEMBRAR
EDITORIAL DA FOLHA DE CANOAS EM 1994
Comércio e recreação
23 e 24 de abril de 1994
Nossa Prefeitura, através de seus órgãos especializados, o Prefeito Liberty Conter pessoalmente engajado, está decidida a criar uma “rua 24 horas”, isto é, uma rua cujas atividades não sejam interrompidas; uma rua que “não durma”. Para tanto estão colhendo subsídios, inclusive em outras cidades.
A partir de uma consulta à população diretamente interessada, cuja opinião deverá ser respeitada como decisiva, a Prefeitura poderá conciliar o interesse econômico-financeiro do projeto com a recreação popular. As atividades comerciais poderiam, sem nenhum conflito, conviver com espetáculos artístico-culturais, respeitando os limites do horário de silêncio.
Por razões óbvias deverá ser escolhida uma rua onde já existam atividades comerciais de densidade capaz de satisfazer a uma demanda diversificada, evitando-se custosos investimentos para criar uma nova rua. A simplicidade deveria nortear o projeto, a ponto de buscarmos solução local, sem copiarmos idéias alheias, cuja simples coleta custaria recursos financeiros que devemos poupar.
À Câmara de Vereadores cabe coadjuvar a Prefeitura, na idéia de criar essa novidade urbana e, na prática do seu ofício específico, tratar dos aspectos legais implícitos no mesmo, mormente quanto a posturas, assumindo sua posição de poder equivalente em grandeza, na composição do governo.
Por derradeiro, vale repetir: a vontade da comunidade é decisiva, nessa e nas demais questões públicas.








