O ABISMO DA MOBILIDADE: O peso do reajuste Metropolitano e o contraste da Tarifa Zero

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O direito de ir e vir na Região Metropolitana de Porto Alegre ganhou um pedágio ainda mais amargo neste início de junho. Para quem depende diariamente do transporte intermunicipal, a rotina de calcular os centavos ganhou contornos de urgência. Os novos reajustes homologados pela Metroplan e pela Trensurb não são apenas números em uma tabela tarifária; eles representam um impacto direto e profundo na renda de milhares de trabalhadores que cruzam fronteiras municipais para garantir o sustento.

O exemplo mais emblemático desse aperto financeiro está na integração entre trens e ônibus. Quem vive ou trabalha em Canoas e Nova Santa Rita e utiliza a combinação diária do sistema integrado Trensurb/Transcal sentirá o baque imediato: o bilhete integrado saltará para R$ 12,15 para portadores do cartão TEU — e indigestos R$ 12,65 para quem paga a tarifa cheia em dinheiro. A justificativa técnica aponta para o reajuste das frotas da Transcal e as pressões da reoneração da folha de pagamento (atrelada à Lei Federal nº 14.973/2024), além da variação de insumos básicos como o diesel.

No entanto, para o cidadão comum, a matemática que importa é outra: a do salário que não acompanha a velocidade dessas altas.

Como explicar para o morador de Nova Santa Rita que sua viagem até Canoas agora custa R$ 8,00, ou que o deslocamento até Porto Alegre alcançou os R$ 11,45?

Com os reajustes metropolitanos batendo a casa dos 7,32% na Grande Porto Alegre e até 8,76% na Serra Gaúcha, o transporte deixa de ser um serviço de acesso e passa a figurar como um dos principais vilões do orçamento familiar.

O paradoxo das fronteiras: O caso de Canoas

É no meio desse cenário de tarifas sufocantes que surge um paradoxo fascinante e inevitável de ser debatido. Enquanto a integração metropolitana cobra valores que inviabilizam o orçamento, dentro dos limites municipais de Canoas a realidade é radicalmente oposta.

Canoas consolidou-se como a maior cidade do Rio Grande do Sul a adotar a tarifa zero em seu transporte coletivo municipal. Quem circula de ônibus apenas dentro da cidade não paga absolutamente nada. É uma política pública que devolve o direito à cidade para as populações mais vulneráveis, estimula o comércio local e prova que a gratuidade no transporte público não é uma utopia distante, mas uma escolha de gestão.

Esse contraste cria uma fronteira invisível, porém gritante. Cruzar a linha que divide os municípios ou integrar com o trem custa caro, enquanto deslocar-se internamente é gratuito. Essa disparidade evidencia a fragilidade e a desarticulação do nosso modelo de transporte metropolitano.

Por que o modelo de financiamento que viabiliza o passe livre municipal não consegue inspirar soluções integradas para o trabalhador intermunicipal?

É preciso repensar o custeio

Culpar unicamente as empresas de ônibus ou os órgãos reguladores pelo reajuste é ignorar o problema estrutural. O cálculo da Metroplan que considera insumos e atrasos de transição tributária expõe a realidade de um sistema que ainda joga quase todo o custo da operação nas costas de quem gira a roleta.

O transporte público precisa ser encarado como um direito social essencial, assim como a saúde e a educação. Enquanto continuarmos a financiar a mobilidade urbana quase que exclusivamente através do valor das passagens cobradas dos usuários, assistiremos anualmente ao mesmo espetáculo melancólico: tarifas cada vez mais excludentes, ônibus mais vazios e trabalhadores cada vez mais encurralados geograficamente.

Canoas deu o primeiro passo ao mostrar que é possível romper com a lógica da cobrança individual dentro de seu território. O desafio agora, urgente e inadiável, é fazer com que essa mentalidade cruze as divisas municipais e alcance a integração metropolitana.

Afinal, o direito ao trabalho e à convivência social não deveria terminar na próxima parada de ônibus.

Uma Resposta

  1. É um preço absurdo, mas agora querer puxar brasa pro transporte de Canoas é piada né. Trabalhador se for depender do ônibus de canoas perde o emprego em uma semana. Transporte lixo de graça daí é fácil, mas a questao é que nao sai de graça, o dinheiro sai do nosso bolso e é desviado pra empresa da família da secretaria de educacao.

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