O café na xícara esfria devagar enquanto o mundo lá fora insiste em fazer barulho. Na calçada, no trânsito, nas telas ou na esquina, as palavras das pessoas voam como poeira ao vento. Algumas chegam carregadas de maldade e cortam fundo, buscando ferir onde a carne ainda está sensível. Outras vêm doces, benevolentes, trazendo o sopro morno do apoio. Há também as irônicas, disfarçadas de riso solto, semeadoras sutis de intrigas.
Durante muito tempo, acreditei que precisava responder a cada uma delas. Reagir, me defender, provar meu ponto. Levei anos para entender a verdade mais simples e libertadora da vida: a opinião alheia, a atitude do outro e os encontros inevitáveis do dia a dia são coisas que eu não posso modificar. Não me cabe consertar o mundo nem controlar o que sai da boca de quem caminha ao meu lado.
Hoje, quando vejo um companheiro entrar em desespero — sufocado por um fato consumado que não pode alterar, paralisado diante da dor —, vejo a mim mesmo no passado. O desespero nasce justamente da ilusão de querer mudar o imutável. Meu papel ali não é dar lição de moral nem oferecer fórmulas mágicas; é sentar ao lado, estender a mão e caminhar junto na busca por aquela paz que silencia a tempestade.
É o exercício diário do Terceiro Passo: a Entrega. O que pertence a Deus, entregamos a Ele. Nós apenas recolhemos o nosso orgulho. E para não tropeçar no mesmo lugar, lembro-me do conselho antigo e infalível: evitar pessoas, lugares e hábitos que me puxam para trás. Dar esse passo recuado não é covardia, é prudência. É olhar no espelho do tempo, lembrar de onde vim, reconhecer as feridas antigas e agradecer por onde estou agora.
Não tenho o direito de julgar ninguém. Não fui nomeado juiz da jornada alheia e, se for honesto, mal consigo julgar a minha própria história sem cair na armadilha da culpa ou da vaidade. Sempre que me pego apontando o dedo para a falha de alguém, lembro imediatamente dos outros três dedos dobrados, apontando diretamente de volta para mim. A humanidade do outro é o espelho da minha própria fragilidade.
O Só Por Hoje nunca foi tão urgente e sagrado. O passado é uma página virada sobre a qual não tenho mais rasura nem escrita; o futuro é um mistério seguro que pertence a Deus. Mas o PRESENTE — este exato segundo em que respiro — é a única matéria-prima que recebi para trabalhar. E hoje, apenas hoje, eu escolho fazer o bem. Escolho a paz sobre o conflito, a aceitação sobre a revolta.

Acalmo o peito, fecho os olhos e repito em silêncio as palavras que continuam salvando a minha vida:
Concedei-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, a coragem para modificar aquelas que posso e a sabedoria para discernir entre elas.
Vivendo um dia de cada vez, desfrutando um momento de cada vez, aceitando que as dificuldades constituem o caminho à paz.
Aceitando, como Nosso Senhor aceitou, este mundo tal como é, e não como eu queria que fosse.
Confiando que o Senhor tudo fará, contanto que eu me entregue à Sua Vontade
Para que eu seja razoavelmente feliz nesta vida e plenamente feliz ao Vosso lado na vida eterna.








