Por um jornalismo que pulsa ao ritmo dos velhos vinis, uma crônica sobre a cidade que muda, a perda dos ícones locais e a teimosia poética de um livreiro que se recusa a deixar a cultura apagar.
Canoas corre pressurosa. Quem caminha hoje por suas avenidas largas, sob a sombra fria dos novos empreendimentos imobiliários e a pressa automatizada dos smartphones, talvez sinta um leve calafrio de ausência. A cidade cresce, verticaliza-se, moderniza-se. Mas, nesse processo quase inevitável de metropolização, algo precioso escorre por entre os vãos do asfalto: o encanto do detalhe, o aconchego do comércio de calçadão, a mística dos seus grandes ícones.
Não se trata de negar a importância das grandes redes ou da tecnologia. O progresso tem sua utilidade. Contudo, há um lamento silencioso que ecoa quando os velhos pontos de encontro fecham suas portas. Canoas parece, aos poucos, perder suas referências afetivas, aquelas esquinas onde o tempo costumava desacelerar para dar lugar a uma boa conversa.
Mas, contra a correnteza do esquecimento e a frieza dos algoritmos, há quem monte guarda.
A cerca de 3,5 quilômetros de onde outrora pulsava a tranquilidade residencial do bairro Marechal Rondon — uma viagem curta de dez minutos que parece atravessar décadas —, encontramos um refúgio. Na Rua Tiradentes, número 16, bem junto à Praça da Bíblia, no Centro, resiste o “Bunker Cultural” de Canoas. Ali opera o sebo mais antigo da cidade, capitaneado por uma figura que é, em si mesma, uma instituição local.

O Homem de muitos nomes e uma só paixão
“Eu sou o Renato,” apresenta-se, com a simplicidade de quem já viu muitas estações passarem. “Nato para a turma clássica de Niterói; Paulo Renato, para uns poucos; Paulo, para quase ninguém; e Paulo Renato Abreu Ramos, civilmente falando. Mas conhecido, pela grande maioria e por mim mesmo, por Renato.”
Renato carrega nos olhos o brilho de quem descobriu os livros antes mesmo de decifrar as letras. Sua jornada literária começou na infância, no auge dos seus quatro ou cinco anos. Nas visitas à casa de uma tia, seu destino era sempre o mesmo: a biblioteca familiar.
“Eu me dirigia sempre para a biblioteca da casa, onde encontravam-se coleções de enciclopédias, além de contos dos irmãos Grimm, Fábulas de Esopo e o Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato,” recorda. “Havia exemplares e mais exemplares que, naquele tempo, por ainda não estar alfabetizado, me eram totalmente incompreensíveis. Diferente daqueles que continham gravuras, esses não tinham o poder mágico de mexer com meu imaginário. Mas a semente estava plantada.”
A alfabetização veio, os anos escolares marcharam e o gosto pela leitura amadureceu. Mas o destino reservava um cruzamento de caminhos. Na efervescência da juventude canoense, entre as festas de clubes que hoje moram na saudade — as noites icônicas no Chagas, no Rondon, no Grêmio Niterói e na Cssgapa —, outra paixão arrebatou Renato: a música.
Era a era dourada dos “bolachões”. A busca incessante pelo Rock, do rockabilly ao metal, do blues ao progressivo. “It’s only rock ‘n’ roll, but I like it”, cantarola mentalmente. Esse vício saudável o levou à Prisma Discos, templo da música local onde Renato, de cliente assíduo, passou a funcionário em 1985.
A literatura nunca o abandonou; apenas ganhou uma trilha sonora de peso. “A literatura acompanhava cada acorde, cada riff, cada solo de guitarra. Eram Bukowski com AC/DC; Tolkien com Iron Maiden; Pink Floyd com Lewis Carroll; Bob Dylan com Thoreau. Tudo junto e misturado.”
“Sem Música, sem Filmes e Sem Livros,
a Cidade perde a sua alma.”

Do Calçadão ao Bunker da Praça da Bíblia
Em 2001, após as idas e vindas que a vida impõe, Renato iniciou seu voo solo comercial em Canoas. Estabeleceu-se no primeiro andar da Tiradentes, 356, no Calçadão, ao lado da Galeria São Luís. No início, a oferta era de LPs, CDs e DVDs. Três meses depois, a literatura reivindicou seu espaço legítimo.
Renato começou a comprar livros com o intuito de garimpar raridades para a sua própria estante. Contudo, o fluxo de obras foi tão generoso que o excedente transbordou para as prateleiras de venda. Nascia ali a “Sons & Versos”, uma simbiose perfeita entre música e literatura.
O negócio expandiu-se e, em 2008, em uma sacada vanguardista para a época, o sebo uniu-se a uma Lanhouse. Era o clássico e o secular de mãos dadas com a modernidade que despontava.
Mas o tempo não perdoa. O advento dos smartphones e a subsequente queda na busca por mídias físicas e acessos à internet forçaram uma retirada estratégica em 2015. Renato passou a priorizar feiras e eventos culturais ao ar livre, levando seu acervo itinerante por Canoas, Porto Alegre, Esteio e Novo Hamburgo. O contato direto com o público sob o céu aberto manteve a chama acesa até que, em 2018, as portas de duas salas na Praça da Bíblia se abriram.
As marcas da resistência: pandemia e a enchente de 2024
Manter um espaço cultural físico no Brasil é um ato de bravura diária. Renato enfrentou a reclusão da pandemia de Covid-19 e, mais recentemente, a catástrofe climática que assolou o Rio Grande do Sul em maio de 2024.
As águas barrentas da enchente invadiram seu depósito no bairro Fátima. O prejuízo foi doloroso, não apenas financeiro, mas sentimental: cerca de 2.000 livros, 500 CDs e 400 LPs foram perdidos, afogados no barro. Relíquias que contavam histórias de décadas transformadas em entulho.
A loja física na Praça da Bíblia, felizmente, foi poupada. E é lá que ele continua, dia após dia, há quase oito anos.
“É um Bunker Cultural,” define Renato. “Um espaço mantido diuturnamente com afinco e dedicação, mesmo, muitas vezes, com a falta de diálogo com o poder público para melhorar e aprimorar o local. Mas seguimos, mesmo assim, fazendo amigos, atendendo clientes e cultuando a cultura clássica.”
A Esperança que se renova no toque do papel
Por que insistir em uma era onde tudo cabe em uma tela de cinco polegadas? A resposta está no balcão de Renato. Está na conversa sem pressa que se inicia ao acaso, no cliente que procura um disco que marcou sua juventude, no jovem que descobre a textura de um livro impresso há cinquenta anos.
O comércio da arte literária, musical e audiovisual de segunda mão não é apenas transação financeira; é preservação ecológica da alma da cidade. É a garantia de que as memórias de Canoas não serão deletadas por um clique ou perdidas em uma atualização de sistema.
“O sebo é um túnel do tempo,” sorri Renato, com a convicção de quem guarda as chaves de um portal. “A cultura clássica é atemporal, infinita e, por isso, une gerações. Por isso, seguimos nossa missão.”
Enquanto o letreiro da Rua Tiradentes, 16, estiver iluminado, Canoas ainda terá um coração poético batendo. Um lugar onde o passado e o futuro se encontram em um abraço de papel e vinil, provando que a verdadeira identidade de uma cidade não está no tamanho dos seus prédios, mas na resistência de quem guarda suas canções e seus versos.








