É a vida retornando ao eterno “Picote do Fumo” da nossa política
4h08 da madrugada. Após três dias de peleia contra a gripe, o Piazotti da Barra Quaraí, ainda meio encarangado, resolveu encarar o frio cruel do nosso Estado. Deixou o leito de convalescença direto para o picadeiro: é a vida retornando ao eterno “Picote do Fumo” da nossa política.
Mas o grande espetáculo aconteceu ontem, lá pelas 17 horas, quando assisti pela internet à Sessão Solene da Câmara de Vereadores de Canoas. Em plena semana de comemoração dos 87 anos de Emancipação Política da nossa Aldeia — que merecia uma festa de verdade —, o que se viu foi um silêncio constrangedor. Foi um tal de “declina da palavra” a cada comunicação de liderança que parecia ensaiado. Estranho que, em um momento tão solene, alguns dos nobres edis tenham perdido a voz justamente na hora de falar sobre a cidade que dizem representar.
O desconforto em plenário era tão visível que dava para cortar com faca de lida. De qualquer forma, parabéns, Canoas!
Seguimos aguardando os aguapés se mexerem para ver quais são os peixes que andam nadando por baixo deles.

A saída pela esquerda
Se engana, porém, quem pensa que o silêncio e o desconforto são exclusividades da nossa Aldeia. Se o Leão da Montanha — aquele felino cor-de-rosa, superculto e incrivelmente azarado criado em 1961 — estivesse observando a América do Sul hoje, ele provavelmente estaria sofrendo de uma grave crise de ansiedade artística. O palco geopolítico do continente virou um espetáculo hostil para os projetos progressistas, como bem sinalizam os dados de “eleições saída pela esquerda”.
A plateia latino-americana anda implacável: a nova tendência do eleitorado é vaiar e expulsar de cena quem quer que esteja no poder, abrindo espaço para uma marcha firme da direita que avança casa por casa. Mas o clímax desse drama polarizado promete acontecer mesmo nas próximas eleições no Brasil. Em um cenário rachado milimetricamente ao meio, onde cada voto será disputado como se fosse a última gota de suor do ator principal, o governo brasileiro terá que suar a camisa para defender seu legado diante de um público exigente e impaciente.
Para desespero do nosso felino dramático, desta vez não há frestas nas coxias, os bastidores estão trancados e a margem de manobra é praticamente nula. No próximo ato político do Brasil, o protagonista terá que encarar a plateia de peito aberto — e sem nenhuma rota de fuga no roteiro.

O Rio Grande do Sul e a Arte de Decidir na Moedinha
Dizem os sussurros de bastidores lá pelas bandas do Guaíba — saídos de um desses levantamentos que os partidos guardam a sete chaves para não estragar o chimarrão da militância — que a eleição de 2026 no Rio Grande do Sul está se desenhando como um belíssimo Gre-Nal de proporções pampeanas.
Para a surpresa de absolutamente zero analistas políticos, a tão sonhada “terceira via” ou o candidato de “centro” continua sendo aquela lenda urbana que todo mundo ouve falar, mas ninguém de fato encontra na urna. O Palácio Piratini, apesar de empurrar com toda a força o seu herdeiro oficial — um candidato com o carimbo do atual governo —, assiste de camarote a um fenômeno curioso: o eleitor aceita o atual governador, mas na hora de votar no sucessor, prefere olhar para os extremos. É o famoso “te acho bom, mas vou votar no outro”.
De um lado, a esquerda tradicional finca o pé no topo; do outro, a direita mais estridente responde na mesma moeda. Ambos lideram a corrida para o governo estadual com aquela confortável margem de… rejeição mútua. Sim, porque a grande verdade que esses números sigilosos revelam é que os dois favoritos são também os campeões absolutos em fazer o eleitor torcer o nariz. Mais de 40% dos gaúchos não votariam neles de jeito nenhum. Ou seja, a disputa não é para ver quem é o mais amado, mas sim quem é o “menos odiado” na hora de apertar o “confirma”.
E se para o Piratini a coisa está polarizada, a corrida para o Senado Federal virou um verdadeiro buffet ideológico de esquetes cômicas. É “um autêntico balaio de gatos estatístico”. Temos um empate técnico tão embolado que mais parece fila de banco em dia de pagamento. Um representante da direita liberal, uma figura histórica da esquerda, um bolsonarista de carteirinha, um ex-governador e um governista dividem a preferência com margens tão estreitas que qualquer espirro muda o líder da semana.
Mas vamos ao que realmente importa, o verdadeiro “fiel da balança” que os marqueteiros fingem não ver: o exército do “tanto faz”.
A grande força motriz que vai definir o destino do Rio Grande em 2026 não são os discursos inflamados no horário eleitoral, nem os textões polarizados nas redes sociais. O verdadeiro rei da cocada preta neste pleito é aquele eleitor que, se pudesse, trocaria o voto por um espeto corrido. Entre os indecisos convictos, os que pretendem votar nulo por legítima defesa mental e aqueles que historicamente só decidem o voto para o Senado nos últimos dez segundos antes de entrar na cabine (provavelmente escolhendo o número com a tipografia mais bonita), temos a maioria real e silenciosa.
Portanto, candidatos, poupem a saliva e os santinhos. Quem vai decidir o futuro do Estado não é a militância apaixonada. É o gaúcho que vai acordar no domingo de eleição, olhar para o tempo, decidir se faz churrasco ou não, e resolver o voto na base do cara ou coroa a caminho da seção eleitoral. Que vença o mais sortudo.








