A lembrança das enchentes de 2024 ainda é vívida para os moradores da Região Metropolitana. Diante da necessidade urgente de evitar que o cenário se repita, uma série de obras de proteção contra cheias está em curso na zona norte de Porto Alegre, especificamente na área do Aeroporto Salgado Filho.
Contudo, o que acontece na capital reflete diretamente em Canoas, Cachoeirinha e Alvorada. Este artigo esclarece os detalhes dessas intervenções, os benefícios esperados e as preocupações que técnicos e autoridades locais têm levantado.

O Projeto: O que está sendo feito no Aeroporto?
As obras, coordenadas pela Prefeitura de Porto Alegre e pelo Governo do Estado, focam nos chamados Pôlderes 7 e 8. Um “pôlder” é, essencialmente, uma área protegida por diques onde o nível da água é controlado artificialmente.
As principais ações incluem:
- Fechamento de Arroios: As galerias dos arroios Areia e Mangueira, que levam água para o Rio Gravataí, serão fechadas. O objetivo é impedir o “refluxo” — quando o rio sobe e a água entra na cidade pelas tubulações.
- Novos Diques e Barreiras: Construção de um novo dique de 100 metros junto ao Arroio Passo das Pedras e utilização de barreiras móveis (estruturas modulares robustas) para contenção imediata.
- Bombas de Sucção: Instalação de bombas submersíveis de alta capacidade para retirar a água acumulada dentro da zona protegida e jogá-la para o Rio Gravataí.
A Preocupação de Canoas: o efeito de “represamento”
A grande dúvida de moradores e especialistas de Canoas e cidades vizinhas é: “Se Porto Alegre fechar suas barreiras e bombear a água para o Rio Gravataí, essa água vai inundar o meu lado?”
Esta é uma preocupação técnica legítima. Em cenários de chuvas extremas, o fechamento de arroios e a construção de novas barreiras em uma margem podem, teoricamente, aumentar a pressão hidrodinâmica ou dificultar o escoamento natural do Rio Gravataí, que faz a divisa entre as cidades. O temor é que as soluções pontuais de Porto Alegre acabem “exportando” o problema para as cidades a montante (Cachoeirinha e Alvorada) ou para a margem oposta (Canoas).
Sinergia e defesa | Como Canoas está se protegendo?
É importante destacar que as obras no aeroporto não estão isoladas. Elas fazem parte de um contexto maior de reconstrução:
- Elevação dos Diques em Canoas: Simultaneamente, a prefeitura de Canoas trabalha na reconstrução e elevação dos diques nos bairros Mathias Velho e Rio Branco. A meta é que essas defesas estejam prontas até setembro de 2026.
- Plano Metropolitano: As intervenções no Salgado Filho são consideradas etapas provisórias do Plano Metropolitano de Proteção Contra Cheias do Governo Federal, que visa uma solução integrada para toda a bacia.
Cronograma e urgência | O Fator El Niño
O cronograma das obras é ditado pelo clima. Com a previsão de um novo fenômeno El Niño ganhando força, as autoridades buscam concluir as ações emergenciais até outubro de 2026. O investimento emergencial é de R$ 30 milhões, visando evitar o sofrimento de cerca de 1.000 famílias que vivem no entorno do aeroporto e garantir o funcionamento da infraestrutura logística do Estado.
As obras de proteção no Aeroporto Salgado Filho são vitais para a economia e segurança da capital, mas não podem ser vistas como uma solução isolada. Para a população de Canoas, a mensagem é de vigilância ativa.
A segurança definitiva só virá com o equilíbrio: enquanto Porto Alegre reforça seus pôlderes, Canoas deve garantir que seus diques sejam altos e resistentes o suficiente para suportar o volume de água do sistema compartilhado. O diálogo entre as prefeituras e o monitoramento técnico rigoroso por parte do Governo do Estado e da União são as únicas garantias de que a proteção de um não signifique o risco do outro.








