CRÔNICA | O café do louco e a casa-cidade

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Inspirado na lírica e na ironia de Mário Quintana, nosso genial “poetinha”

Dizem que café de louco não leva açúcar. Pois olhe só: esqueci de adoçar o meu.

São cinco horas de uma manhã de sábado. O mundo ainda dorme seus sonos plásticos, e eu, de pijama e dentes por escovar, arrasto os chinelos em direção à máquina de café.

“Andá ca fé eu vô”

Que trocadilho infame para se herdar logo cedo! Mas a fé, no fundo, é o que nos sobra quando o açúcar escasseia.

Meu destino é sempre o mesmo altar doméstico: o escritório. Um templo onde o velho e o novo duelam em silêncio. Sou um equilibrista vagando entre dois mundos: pesquiso o passado para tentar decifrar este presente barulhento, enquanto o futuro me espia, irônico, de trás das telas.

Mas guardo comigo um segredo encantado, uma herança que recebi do meu mestre Tonito — Antônio Canabarro Trois. Ele me ensinou, quando eu ainda ensaiava os primeiros passos na escrita:

— A cidade é a tua casa. Cuida dela. Joga o lixo no lixo.

Tonito não falava de cascas de banana; falava do lixo invisível que acumulamos na alma. Hoje, a nossa grande casa está imunda. Varremos preconceitos e vaidades para debaixo do tapete. Por favor, não levantem os tapetes da cidade…

O cheiro seria insuportável. 

Eu escrevo para poucos. Escrevo para a minha “casa”. Sou um cronista de aldeia, uma espécie de herdeiro espiritual do seu Odil Gonçalves Gomes — não vou lhes explicar quem ele foi; façam o favor de pesquisar, pois a curiosidade é o primeiro passo da sabedoria. Seu Odil entregava jornais e cuidava da gente por pura vocação de amar o próximo.

Sinto que trago em mim um punhado de Tonito e um punhado de Odil.

Não tenho a voz que ecoa nos grandes salões, mas tenho o abraço que alcança a calçada da esquina.

E isso ficou claro quando as águas de 2024 tentaram afogar a nossa Canoas. Eu não calcei galochas e nem entrei em botes. Mas, do silêncio do meu escritório iluminado, fiz da informação o meu remo. Desenhei mapas de abrigos nas entrelinhas da dor e acendi pequenas luzes de esperança onde só havia lama.

Entre um gole amargo e outro, aceito o meu tamanho.

O sucesso é essa coisa elástica e imensurável que os tolos tentam medir em curtidas.

Este “maluco beleza” que vos escreve é apenas um cronista local. Não tenho a voz que ecoa nos grandes salões, mas tenho o abraço que alcança a calçada da esquina. E isso me basta para ser feliz.

Dessa tragédia imensa, restaram-me algumas honrarias de metal e papel. Agradeço por elas, claro; o ego também sente frio. Mas o meu verdadeiro prêmio não cabe na parede: foi ter fundado o Notícias da Aldeia Canoas e saber que, na hora do temporal, nossa casa comum teve onde se abrigar.

Bebo o último gole do meu café sem açúcar. O dia começa a clarear lá fora.

Lembro de Tonito mais uma vez e repito, baixo, para que as paredes escutem:

“A cidade é a tua casa. Cuida dela.”

 

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