O SILÊNCIO NO ESTÁBULO | Uma entrevista com o Cavalo Caramelo, dois anos depois

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*Por O Abobado da Enchente

Duas voltas completas da Terra ao redor do Sol se passaram desde que o Rio Grande do Sul submergiu sob a lama e o descaso. Duas primaveras e dois invernos desde que aquele teto de amianto em Canoas virou a menor e mais vigiada ilha do planeta. Hoje, o Cavalo Caramelo não é mais um bicho faminto e desidratado equilibrando-se na iminência do colapso. Ele engordou, ganhou pelo brilhante sob a tutela da Ulbra e virou grife.

Mas, à medida que o aniversário de dois anos da catástrofe acontece, a máquina pública volta a acelerar. Falam em erguer uma estátua de bronze em sua homenagem. Querem imortalizar o herói de quatro patas para, quem sabe, fazer o povo esquecer dos heróis de duas patas que ficaram boiando no esquecimento.

Decidi ir até o estábulo. Não como jornalista, mas como o “abobado da enchente” — representando aquele que perdeu tudo, que ainda limpa o reboco da parede e que vê os mesmos políticos de outrora, verdadeiros jaguaras, pedindo voto.

Olhei nos olhos grandes e úmidos do Caramelo. Ele não fala o nosso idioma, mas quem passou quatro dias no telhado entende perfeitamente a linguagem do desamparo. O que se segue é a tradução da alma do quadrúpede mais famoso do Brasil.

A Entrevista

O Abobado da Enchente: Caramelo, meu velho… Já faz dois anos. Estão planejando uma estátua de bronze para ti. Uma homenagem bonita, dizem eles, para celebrar a tua resiliência. Tu queres virar estátua?

Cavalo Caramelo: (Dá uma bufada longa, balançando a crina, e mastiga um tufo de feno com desdem)

Estátua? O bronze é frio, abobado. O bronze não esquenta no inverno e, no verão, queima a pele de quem chega perto. Eu passei quatro dias em cima de um telhado de amianto implorando por um gole de água limpa. Tu achas mesmo que um bicho que quase morreu afogado quer saber de monumento? O que eu queria ver erguido não era a minha imagem em metal, mas sim diques fortificados, bombas de escoamento que funcionem de verdade e planos de contingência que salvem as pessoas e os bichos antes da água bater no pescoço. Estátua é para quem quer esquecer o passado fingindo que o homenageia. Eu quero soluções, não metalurgia eleitoreira.

 

O Abobado da Enchente: Pois é. Tu deste sorte, cara. Te filmaram por acaso. Se não fosse aquela lente da TV, tu serias apenas mais uma carcaça levada pela correnteza, como tantos outros cavalos, cachorros e… pessoas. Tu te sentes um “Cavalo de Amostra”?

Cavalo Caramelo: (Olha para o horizonte, com os olhos semi-cerrados)

Eu sei exatamente o tamanho da minha sorte e a profundidade da minha tragédia. Fui salvo por forasteiros, por gente de bem que não apareceu na foto oficial. Mas logo depois que recuperei minha cor, os politiqueiros de plantão me usaram como escudo. Virou um cinismo sem tamanho. Político que nunca limpou uma cocheira queria tirar foto do meu lado para mostrar “empatia”. Enquanto me davam ração de primeira na frente das câmeras, milhares de gaúchos — os “abobados” como tu — continuavam amontoados em abrigos, sem eira nem beira, assistindo ao espetáculo. Eu fui transformado em um troféu de propaganda para mascarar a incompetência. Se eu pudesse votar, te garanto que não votaria nesses jaguaras que transformaram a nossa dor em palanque.

 

O Abobado da Enchente: Falando em reconstrução… Como tu enxergas a nossa cidade e o nosso Estado hoje, dois anos depois? A ferida fechou ou só passaram uma maquiagem por cima?

Cavalo Caramelo: (Bate o casco direito no chão, impaciente)

Passaram cal nas paredes rachadas e chamaram de reconstrução. O que eu vejo daqui do meu canto é a mesma dança de sempre. Os acordos por debaixo dos panos continuam, a fiscalização das obras de contenção perece, e a conivência com o perigo ressuscita a cada ciclo de chuvas. A saúde mental de quem perdeu tudo está em frangalhos, e a única coisa que parece ter se reconstruído com força total foi a cara de pau dos mesmos políticos que nos abandonaram. Eles voltam agora, de terno e sapatênis, dizendo que são a salvação da lavoura. É de revirar o estômago de qualquer herbívoro.

 

O Abobado da Enchente: Existe alguma esperança de um futuro melhor, Caramelo? Ou estamos condenados a reviver esse pesadelo toda vez que o céu fechar? Como fazer para que isso nunca mais aconteça?

Cavalo Caramelo: (Aproxima o focinho, soprando um ar quente e rústico)

A esperança não vem de cima, do gabinete de quem tem helicóptero para fugir da enchente. A esperança vem da capacidade de vocês, os abobados, de pararem de ser bobos. A mudança só começa quando a frustração e o desamparo de vocês virarem exigência ativa. Resiliência é uma palavra bonita que os ricos usam para elogiar a capacidade dos pobres de aguentar o sofrimento. Não queiram ser apenas resilientes. Sejam barulhentos. Exijam as obras, fiscalizem os recursos, cobrem os planos de evacuação. Não aceitem promessas de “Cavalo Paraguaio” que some logo após as eleições.

 

O Abobado da Enchente: Obrigado, Caramelo. Acho que tu falas melhor que muito deputado.

Cavalo Caramelo: (Dá um leve relincho, quase um riso irônico)

Eu só uso o bom senso, meu amigo. Da próxima vez que vierem aqui me prometer uma estátua, vou sugerir que derretam o bronze e vendam para comprar botes infláveis e pagar dignamente os bombeiros e voluntários. Afinal, a história não se reconstrói com monumentos aos sobreviventes, mas sim garantindo que ninguém precise subir num telhado para não morrer.

 *O Abobado da Enchente, nada mais é que um sobrevivente

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