Em 8 de agosto de 1994, o Brasil vivia sob o frescor do recém-nascido Plano Real. As prateleiras dos supermercados já não mudavam de preço três vezes ao dia, e o país ensaiava uma estabilidade que parecia milagrosa. Foi nesse cenário de transição e esperança que Canabarro Tróis Filho, o Tonito, escreveu “A sedução da vitória”. Lendo suas linhas hoje, mais de três décadas depois, experimentamos aquela incômoda sensação de déjà vu que costuma acometer quem estuda a história brasileira. É como olhar para um espelho antigo: as molduras mudaram, mas os traços do rosto continuam assustadoramente os mesmos.
Naquele agosto de 1994, a preocupação central que abria o texto de Tonito era o desabafo do ministro Sepúlveda Pertence, então presidente do TSE. A queixa era técnica, mas de profundas consequências éticas: a lei eleitoral da época era uma colcha de retalhos que impedia o eleitor de saber “quem financiava quem”. Empresas e pessoas físicas podiam injetar rios de dinheiro em campanhas sem deixar rastros claros. O poder econômico, de forma legal ou por debaixo dos panos, comprava o futuro político da nação em lotes silenciosos.
Se avançarmos a fita do tempo até os dias de hoje, veremos uma inegável evolução institucional. O STF proibiu as doações de pessoas jurídicas em 2015. Criou-se o Fundo Especial de Financiamento de Campanha — o polêmico “Fundão” —, irrigado com bilhões de reais do dinheiro do próprio contribuinte, sob a justificativa de equilibrar o jogo e afastar o espectro do poder corporativo. Hoje, qualquer cidadão tem acesso ao portal DivulgaCandContas para checar, com poucos cliques, quem doou e como o candidato gastou cada centavo de sua campanha. Sob a ótica da transparência fria da lei, evoluímos.
No entanto, a criatividade do poder econômico e a fisiologia política parecem sempre correr mais rápido que os diques da legislação. Se ontem as empresas “apostavam nos possíveis vencedores” de forma direta, hoje o tráfico de influência e o abuso de poder econômico ganharam novas roupagens. As velhas doações ocultas de campanha abriram espaço para as emendas parlamentares impositivas e as famigeradas “emendas Pix”, que enviam recursos públicos diretamente para bases eleitorais sem transparência em tempo hábil, desequilibrando o pleito a favor de quem já tem o mandato. A evolução legal gerou, por linhas tortas, uma involução na equidade da disputa.
Mas o coração da crônica de Tonito não reside apenas na frieza da lei de financiamento; reside no comportamento humano e social do eleitorado. A sua frase mais cortante permanece dolorosamente atual:
“Nossa infância política nos faz adoradores dos vitoriosos, dos fortes e dos ricos…”
Nesse aspecto cultural, o diagnóstico de 1994 não apenas sobreviveu, mas se sofisticou. Se na década de 1990 adorávamos o poder que se vestia de terno italiano e exibia campanhas milionárias na televisão, hoje adoramos o poder que se traduz em engajamento, números de seguidores e narrativas hiperbólicas nas redes sociais. A “infância política” da qual Tonito falava talvez tenha se transformado em uma adolescência rebelde e barulhenta, mas igualmente carente de maturidade. Ainda somos seduzidos pela vitória rápida, pelo candidato que “lacre” ou que represente a destruição do adversário, pouco importando o conteúdo programático ou o custo ético dessa vitória.
Tonito clamava por uma “peneira fina” sobre os candidatos, alertando que a ostentação deveria ser posta sob suspeita. Hoje, a ostentação não é apenas financeira; é também informacional. O excesso de desinformação atua como uma fumaça que entope a peneira do eleitor. Se em 1994 o eleitor sofria pela falta de informação sobre os bastidores do poder, hoje ele sofre pela intoxicação de narrativas construídas sob medida por algoritmos para validar seus próprios preconceitos.
A avaliação que fazemos hoje do pensamento de Tonito nos mostra que ele foi cirúrgico. A sua “sedução da vitória” continua operando no mesmo modo de conversão: o eleitor, que “tudo poderia” e que “precisa poder tudo”, ainda se vê frequentemente sequestrado pelo pragmatismo dos partidos e pelo poder econômico metamorfoseado.
Ao fim e ao cabo, a evolução tecnológica e jurídica dos últimos trinta anos nos deu ferramentas robustas de fiscalização. A nossa involução, contudo, é de caráter psicológico e educacional.
Continuamos a tratar a política como um espetáculo de gladiadores onde o importante é torcer para o vencedor, esquecendo-nos de que, quando a ética é sacrificada no altar da vitória, o preço da festa sempre acaba sendo debitado na nossa própria conta.

RELEMBRANDO O ARTIGO
A sedução da vitória
08 de agosto de 1994 – Por Canabarro Tróis Filho
“Sepúlveda Pertence afirmou que a principal falha da lei eleitoral em vigor é que ela não permite identificar ‘quem está financiando quem’, ou seja, empresas e pessoas físicas podem colaborar nas campanhas sem que seus nomes apareçam e nem os dos candidatos beneficiados. ‘Com esses defeitos, que não podem ser atribuídos à Justiça Eleitoral, vamos atuar com uma lei exatamente defeituosa no campo da contenção dos abusos do poder econômico’, afirmou o ministro”. (Jornal do Comércio – Presidente do TSE aponta falhas na Lei, edição do dia 03/8/94, página 14)
Ao exonerar a Justiça Eleitoral de qualquer responsabilidade, quanto às falhas da Lei que regula nossos pleitos eleitorais, o ministro presidente do TSE debitou-as, por via natural de conseqüência, na conta do Legislativo Federal, que teria redigido discutido e aprovado a Lei sem nenhuma interferência daquela Justiça. E, possivelmente, em cumplicidade com o Executivo…
Nossa infância política nos faz adoradores dos vitoriosos, dos fortes e dos ricos, não importando a que preço aquela haja sido conquistada; o quanto a fortaleza possa negar a justiça e a fraternidade; e o quanto a riqueza possa ser resultado de sistemas sociais perversos.
Precisamos, com máxima urgência, amadurecer para separar o joio do trigo. Os candidatos, mormente os que aspiram ser reeleitos e já usam seus régios subsídios em campanha, devem ser passados em peneira fina. Qualquer ostentação em suas campanhas merece ser posta sob suspeita, já que a Lei facilita a sonegação da verdade. Inúmeros, inclusive empresas, apostam nos possíveis vencedores, garantindo lugar dentro e nos corredores do poder. O eleitor, que tudo poderia, precisa poder tudo, já que seus infiéis representantes, outra vez demonstrando espírito de corpo, abriram brechas na lei por onde o tráfico de influências corre e correrá solto.









Uma Resposta
Poesia pura, misturada com um forte chute nas partes baixas,…