Por uma consciência climática urgente
O ar no piquete de 250 metros quadrados da Ulbra cheira a alfafa fresca, solo úmido batido por cascos e cubos de açúcar. Sob o sol do Rio Grande do Sul, o pelo do Cavalo Caramelo reluz com a dignidade de quem venceu a morte. Ele corre, rola na terra macia e recebe os mimos dos estudantes de veterinária como quem já se acostumou com os holofotes. No entanto, para quem sabe olhar além da estampa vistosa do garanhão de 11 anos, ainda é possível enxergar, nas sombras dos seus olhos úmidos e profundos, o reflexo espelhado daquelas águas turvas de maio de 2024.
Dois anos se passaram desde que aquele teto de amianto em Canoas se tornou o epicentro do desespero e da compaixão nacional. Recentemente, duas notícias voltaram a colocar o animal no centro do debate público, desenhando um contraste poético e angustiante sobre como lidamos com a tragédia.
LEIA AQUI, relembre a entrevista com o Cavalo Caramelo
O SILÊNCIO NO ESTÁBULO | Uma entrevista com o Cavalo Caramelo, dois anos depois
A primeira foi a visceral e incômoda entrevista conduzida por “O Abobado da Enchente” — a voz dos esquecidos, daqueles que ainda raspam o mofo das paredes e assistem à maquiagem política das promessas não cumpridas. Quando questionado sobre a ideia de erguerem uma estátua de bronze em sua homenagem, a “resposta” do quadrúpede foi um sopro de lucidez na cara da sociedade: “O bronze é frio… Estátua é para quem quer esquecer o passado fingindo que o homenageia. Eu quero soluções, não metalurgia eleitoreira”. Caramelo repudiou o título de “cavalo de amostra” e exigiu o que realmente importa: diques fortes, bombas de escoamento e respeito à vida.
A segunda notícia veio dos corredores do Hospital Veterinário: “Procura-se uma namorada para o cavalo Caramelo”. A universidade busca uma égua compatível para que o garanhão possa gerar um herdeiro. Mas a própria diretoria fez questão de ressaltar que não se trata apenas de genética equina ou de criar um “potro celebridade” para fotos no Instagram, https://www.instagram.com/cavalocaramelo.oficial/. O objetivo carrega uma dimensão muito mais profunda: perpetuar um símbolo de resistência.

É aqui que a história de Caramelo deixa de ser uma pauta pitoresca sobre o reino animal e se torna um manifesto urgente para a humanidade.
Gerar um descendente do Caramelo precisa ser encarado como o germinar da memória e da esperança. Não um germinar para romantizar o sofrimento, mas para plantar uma semente que recuse a amnésia coletiva. Cada relincho do futuro potrinho deve soar nas consciências como um alarme constante: nós não podemos esquecer o dia em que o céu desabou sobre nós.
Há, contudo, um perigo silencioso em transformar a sobrevivência em espetáculo. A palavra “resiliência” tornou-se o adjetivo favorito dos discursos oficiais para elogiar a capacidade de um povo suportar o insuportável. Mas sejamos honestos e realistas diante dos novos tempos do clima: nem todos são tão resilientes quanto o Cavalo Caramelo.
O Caramelo resistiu por quatro dias equilibrado em um pedaço de telhado, sem água potável, sob chuva e vento, porque possui a compleição física extraordinária de um equino acostumado à lida.
Mas e as crianças que engoliram água contaminada?
E os idosos cujas memórias de uma vida inteira foram diluídas na lama?
E as comunidades periféricas que perdem tudo a cada novo evento extremo, obrigadas a recomeçar do zero sob a indiferença dos relatórios governamentais?
A Terra mudou o seu ritmo. O aquecimento global e as mudanças climáticas não são mais previsões para o próximo século; são a tempestade de amanhã à tarde. Não podemos exigir que seres humanos sejam feitos de ferro ou que dependam de milagres de resiliência para continuar vivos. A verdadeira reconstrução não se faz com estátuas de bronze para os sobreviventes, mas com a transformação radical de como a sociedade se planeja para o presente e para o futuro.

Procurar uma companheira para o Caramelo é um gesto bonito de amor e vida que se renova. Mas que o fruto dessa união não herde apenas a fama do pai; que ele encontre um estado e um mundo que aprenderam a lição.
Que ao olhar para o filho de Caramelo correndo pelos pastos, a sociedade não veja apenas o símbolo de um animal que não afogou, mas lembre-se do compromisso ético e inadiável de proteger os “abobados da enchente” de carne e osso. Afinal, a esperança só germina de verdade quando a memória vira ação, a dor vira cobrança e a prevenção passa a valer mais do que qualquer monumento de metal.








