Há um ritual muito próprio na política gaúcha, uma espécie de coreografia ensaiada onde o poder econômico e a esperança do voto se encontram sob a luz dos flashes. Amanhã, terça-feira (07), o Sistema FIERGS abrirá suas portas em Porto Alegre para um desses rituais de passagem. Nas mãos do presidente da entidade, Claudio Bier, e de sua diretoria, repousará um volume de aproximadamente 120 páginas. Não é um panfleto, tampouco uma leitura leve para o fim de tarde: é o documento Propostas Indústria RS. Um calhamaço de demandas, expectativas e caminhos traçados por quem conhece de perto a engrenagem do Estado.
Para os três pré-candidatos mais bem posicionados nas pesquisas de intenção de voto que subirão a rampa da federação à tarde, aquele calhamaço terá o peso exato da realidade. Afinal, não se trata apenas de papel. O que está impresso ali é a voz de mais de 52 mil indústrias. É o destino de 27% do Produto Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Sul, o motor que gera 55% da arrecadação de ICMS e que garante o sustento direto de cerca de 900 mil trabalhadores. Em tempos de reconstrução e busca por crescimento, esses números não são meras estatísticas; são a própria espinha dorsal do Estado.
Cada um dos postulantes ao Palácio Piratini receberá o documento com um sorriso ensaiado e um aperto de mão firme, mas, por trás dos semblantes cordiais, as mentes estratégicas estarão processando como traduzir aquelas oito áreas prioritárias para os seus respectivos palanques.
Gabriel Souza, carregando o peso e o bônus da vice-governabilidade, precisará folhear as páginas de infraestrutura, logística multimodal e desburocratização com o olhar de quem diz: “nós já começamos a fazer”. Seu desafio será convencer o PIB industrial de que a continuidade é o caminho mais seguro, mesmo quando o “Custo Brasil” e as estradas ainda cobram um pedágio alto demais da competitividade gaúcha. Ele receberá o livreto como quem recebe um relatório de progresso, tentando mostrar que o atual governo fala a mesma língua da FIERGS.
Do outro lado, Juliana Brizola observará o documento sob a ótica de uma tradição que sempre dialogou estreitamente com o social. Para ela, os capítulos dedicados às relações de trabalho, ao desenvolvimento do capital humano e à sustentabilidade energética serão o porto seguro. O seu exercício de equilibrismo será demonstrar que a valorização da mão de obra e a transição ecológica não são inimigas do desenvolvimento industrial, mas sim suas maiores aliadas no século XXI. Ela segurará as 120 páginas tentando provar que o trabalhador e a máquina podem crescer juntos, sem que um anule o outro.
Já o Tenente-Coronel Zucco folheará as propostas com os olhos brilhando ao encontrar termos como “segurança jurídica”, “redução de impostos” e “ambiente de negócios”. Para o campo conservador e liberal, a cartilha da FIERGS é música para os ouvidos. O desafio de Zucco será demonstrar que, além do discurso de enxugamento do Estado e combate à burocracia, ele possui a capacidade de articulação institucional necessária para executar o planejamento de longo prazo que a complexa indústria gaúcha exige. Ele segurará o documento como uma espécie de manifesto de libertação do setor produtivo.
No fim das contas, a entrega de amanhã é mais do que um evento de calendário eleitoral. É o momento em que a retórica das campanhas colide com a crueza dos dados econômicos. A indústria gaúcha quer inovação, quer Custo Brasil menor, quer estradas que não desmoronem e energia que não falte.
Os candidatos sairão dali com as 120 páginas debaixo do braço. Alguns assessores as lerão com lupa; outros as deixarão sobre a mesa de reuniões como um totem de campanha. Mas, quando a poeira das eleições de outubro se assentar e o vencedor finalmente cruzar as portas do Palácio Piratini em janeiro, aquelas propostas estarão lá, esperando. Porque, no Rio Grande do Sul, governar é, antes de tudo, manter as chaminés fumegando e as engrenagens girando.








