PICOTANDO A POLÍTICA | A lente, o sabiá e as manhãs que não se aposentam

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Tudo começa por culpa de um passarinho apaixonado. Ou, melhor dizendo, desesperadamente em busca de um amor. O sabiá, esse bicho madrugador e escandalosamente romântico, decidiu que a janela do meu quarto é o melhor palco para suas serenatas de acasalamento. Os menos atraentes e um tanto atrasadinhos na arte da conquista, coitados, precisam se esforçar em dobro. E ele canta. Canta alto, canta forte, rasgando o véu da madrugada, enquanto seus colegas já estão por aí construindo ninhos e formando famílias. No fundo, eu torço por ele. O sucesso desse pequeno tenor alado é a garantia de duas coisas fundamentais: a preservação da espécie e, principalmente, a devolução do meu sono.

Mas a verdade é que o sono, ofendido pelo barulho, arrumou as malas e partiu. E é aí, no silêncio que mora nos intervalos do canto do pássaro, que a mágica acontece. O despertar precoce me traz uma constatação simples, mas poderosa: ao abrir os olhos, percebo que não morri dormindo. O universo, em sua infinita ironia, acaba de depositar mais vinte e quatro horas inteirinhas na minha conta.

Com sessenta e quatro anos nas costas, eu deveria ser o retrato da aposentadoria tranquila. A diagramação já ficou no retrovisor da vida, mas quem disse que o espírito descansa? O faro da notícia é um vício incurável. O jornalismo não é uma camisa que você tira no fim do expediente; é uma segunda pele. E assim, movido por essa inquietação juvenil, sigo com a missão de levar informação para a nossa querida Aldeia. Se a criação literária dependesse dos meus sonhos, ela se dissolveria assim que a luz tocasse minhas pálpebras. Sendo assim, sou obrigado a ser grato ao sabiá. Sem sua insistência ruidosa, esta crônica sequer existiria.

E foi para preencher as horas roubadas pelo passarinho que a tela da TV se iluminou com Guerra Civil (2024). Enquanto lá fora a minha aldeia dormia em paz, ali dentro os Estados Unidos ruíam em uma distopia devastadora. Alex Garland, o diretor, não quis saber de explicar quem era de esquerda ou de direita. Ele nos jogou no colo a mais cruel das verdades: a polarização extrema não elege vencedores, ela apenas mastiga e cospe as ruínas de uma nação.

Porém, o que realmente fisgou meu peito de velho escriba não foram as explosões, mas as câmeras. Quatro jornalistas na tela. Duas fotógrafas — a veterana carregando o peso do mundo nas olheiras, e a novata com aquele brilho perigoso de quem ainda acha que a câmera é um escudo. E dois repórteres — um em fim de carreira, teimando em dar um último furo antes que as pernas lhe faltem, e outro movido a adrenalina pura, viciado na fumaça do caos.

Olhando para eles, um nó se formou na minha garganta. A saudade, essa intrusa sorrateira, invadiu minha sala. Em quarenta e oito anos de profissão, quantos deles vi passar pela minha vida? Centenas. Vi o brilho nos olhos dos novatos, os ombros pesados dos veteranos, as mãos manchadas de tinta e os corações marcados por histórias que não se pode desver. O filme me fez lembrar que nós, jornalistas, somos testemunhas do tempo. Somos obrigados a congelar o sangue e o choro para garantir que a lente não trema. É um dilema ético esmagador: a vontade humana de largar tudo e salvar uma vida, esmagada pelo dever profissional de registrar a barbárie para que a humanidade, futuramente, não ouse esquecê-la.

O desfecho do filme é um soco no estômago. O poder central cai, a humanidade se esvai, e a foto é tirada. Fica o registro de que, na guerra de nós contra nós mesmos, o único troféu é a tragédia.

Desligo a TV. O peito ainda ressoa com o barulho dos tiros cinematográficos, mas o mundo real me chama de volta com uma suavidade imensa. O sol começa a desenhar seus primeiros traços dourados no horizonte da minha Aldeia. O jornalismo, com todas as suas dores e belezas, me deu a régua e o compasso para entender a complexidade do mundo. Sinto uma saudade imensa das redações barulhentas, do cheiro de café amanhecido e da correria dos fechamentos. Mas sinto, sobretudo, um orgulho profundo de pertencer a essa estirpe de teimosos que dedicam a vida a contar a história dos outros.

Lá fora, o sabiá fez silêncio.

Suponho que ele, enfim, encontrou o seu par. Quanto a mim, encontrei as palavras.

Bom dia, Aldeia!

A rotativa da vida começou a girar outra vez.

ELEIÇÕES 2026 | Em Canoas, começa o canto dos sabiás, o acasalamento político

Setembro, quem acorda cedo, como eu, pode ouvir o canto dos primeiros sabiás em busca de acasalamento. O bichinho é insistente, aproveita a beleza dos ipês e solta sua cantoria em busca da preservação da espécie.

No Rio Grande do Sul, e em nossa Canoas, estamos vivendo grandes namoros e grandes cantos de sabiás da política; é, também, época de acasalamento político. Eles continuam meio perdidos e não se acham, os mais experientes são os melhores cantores e atraem para si o maior número de apoiadores.

Mas a grande maioria está “perdidinha”; são os sabiás que caíram do ninho precocemente e ainda sentem falta do alpiste recebido no grande ninho. Eles terão que aprender a lutar por si; não existe acasalamento sem uma boa cantada, se é que me fiz entender.

Uma boa cantoria pode render frutos no futuro, só que, para isso, é preciso saber o melhor tom. Sem um bom canto, o sabiá menos sábio irá ficar cantando sozinho e sem chances para o acasalamento.

O sabiá-sábio é aquele que tem o conhecimento das artimanhas, que sabe muito, é um erudito. Está totalmente por dentro da arte de politicar; é um especialista. Seria um sabiá de sábias palavras.

Será que ainda temos sabiás que se expressam ou se comportam segundo a moral, a razão ou com senso de equilíbrio?

É uma pergunta interessante. Nosso estado e nossa cidade de Canoas, politicamente falando, têm belos ipês e muitos sabiás, mas pouquíssimos sábios políticos. Sábio é aquele que agrega para o bem, não por interesses próprios. Em época de eleições, e estamos em uma, aparecem os salvadores da pátria: quem está no poder não quer largar e quem esteve e saiu agora é o sábio de todas as coisas.

Tem canto de sabiás que já é manjado; eles já cantaram a favor de quem estão contra agora. No momento em que a situação lhes dava lucros financeiros, ficavam com o bico totalmente calado.

Já tivemos sabiás de todos os tipos nos representando; alguns foram totalmente fiéis ao seu sábio canto, porém, outros só fizeram cantorias enganadoras.

Em qual desses grupos está você, meu caro sabiá?

O canto de setembro pode ser de vários tons, o da esperança ou totalmente ilusório. O eleitor a ser conquistado precisa e deve ficar atento aos falsos sabiás. Precisamos ser sábios e ter ouvidos seletivos para distinguir o que realmente esses sabiás estão pensando, se é na população ou em seus próprios interesses.

Neste 2026, com a chegada de outubro, decidiremos sobre o que queremos para o nosso Estado e nosso país. E os sabiás que hoje começam a cantar estarão lá cantando novamente.

Caberá a você decidir quem é o Sabiá que tem o canto mais sábio; não se deixe iludir por falsas cantorias. Seremos nós que decidiremos o futuro dos sabiás e das nossas vidas, então utilize o seu sábio voto e faça o melhor que puder.

3 Respostas

  1. Baita, texto!! Ao despertar também com a cantora de um sabiá, mas ao longe, sou brindado com esta escrita que mais parece um poema na doçura de um sessentão que ainda tem o brilho no olhar…parabéns..

  2. Primeira parte não é um texto, é um poema, parabéns, segunda parte retrata a realidade do contexto. Quiçá os eleitores dos “sabiás” tenham discernimento para separar o canto falso do verdadeiro.

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