PICOTANDO A POLÍTICA | O banquete da democracia e a cesta básica imaginária

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Dizem os românticos que a democracia não tem preço. O Tribunal Superior Eleitoral, no entanto, discorda veementemente. A democracia tem preço sim, tem nota fiscal, tem fundo partidário e, a julgar pelas últimas eleições no Rio Grande do Sul, custa muito mais caro que um quilo de tomate em época de entressafra.

Para sermos exatos, a bancada de 31 deputados federais gaúchos eleitos torrou, junta, módicos R$ 66.865.058,32. É um número bonito, cheio de algarismos, que fica ainda mais fascinante quando o colocamos lado a lado com a velha, surrada e cada vez mais distante cesta básica.

Segundo o Dieese, em agosto de 2026, o gaúcho de Porto Alegre precisava desembolsar R$ 839,34 para levar para casa aquele kit de sobrevivência mensal composto por feijão, arroz, café e um pouco de carne. Pois bem. Se pegássemos os quase R$ 67 milhões gastos por esses 31 eleitos e fôssemos ao supermercado, sairíamos de lá com quase 80 mil cestas básicas. Daria para alimentar uma cidade inteira do interior por um mês, mas preferimos investir esse dinheiro em santinhos de papel que entopem bueiros e jingles de gosto duvidoso que grudam no cérebro. Prioridades, não é mesmo?

No topo da pirâmide do “voto gourmet” temos deputados que declararam R$ 3.170.000,00 de verba cada um. Se um deles resolvesse trocar sua campanha por filantropia nutricional, poderia ter comprado 3.776 cestas básicas. Em vez de entregar arroz e feijão, entregaram um custo de R$ 42,72 por voto.

São exatos vinte votos para comprar uma cesta.

Se você votou neles, sinta-se orgulhoso: você equivale a um pacote de café e meio quilo de açúcar no grande mercado eleitoral.

Mas não sejamos injustos com os eleitos, pois o suprassumo da inflação política está em quem gastou e nem a vaga levou. Temos uma candidata que conseguiu a proeza de gastar R$ 512,21 por cada um de seus 766 votos; a moçoila levou mais de 390 mil reais dos cofres do Fundão, chega dar um nó na barriga.

Meus amigos, quinhentos e doze reais!

A cada dois eleitores que digitaram o número dela na urna, dava para comprar uma cesta básica completíssima e ainda sobraria troco para o pão de queijo. É um voto que vale quase um carrinho de supermercado lotado.

O eleitor não apertou “Confirma”, ele passou no caixa.

No outro extremo, como uma espécie de promoção de ponta de gôndola da política, temos o deputado mais votado do estado, Mauricio Marcon (PL). Com um gasto de meros R$ 2,11 por voto, ele provou que é possível se eleger gastando o equivalente ao que não paga nem um pacote de suco em pó artificial sabor uva.

O voto dele não enche a barriga, mas, pelo menos, é econômico para os cofres públicos.

No fim das contas, a matemática eleitoral é fascinante. Enquanto a população faz malabarismo financeiro para tentar encaixar o leite e o óleo de soja no orçamento de quase R$ 840, nossos candidatos demonstram que, quando o assunto é o fundo eleitoral, não há crise que não se resolva com alguns milhões.

A democracia, de fato, é um banquete farto. Pena que, para a maioria dos eleitores, a única coisa que chega à mesa é o panfleto do candidato. Pelo menos é rico em fibras.

 

Uma Resposta

  1. Obrigado pela materia profunda, técnica e extremamente importante.
    Vamos aproveitar para gritar aos surdos enquanto não cortam as nossas gargantas.

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