A política, em sua essência mais nobre, é a arte do possível em prol do coletivo. No entanto, o que frequentemente assistimos é a “arte do eu” — onde projetos pessoais e hegemonias partidárias se sobrepõem às necessidades reais da população. O anúncio da chapa Juliana Brizola (PDT) com Edegar Pretto (PT) como vice para o governo do Rio Grande do Sul é um desses raros momentos que exigem uma análise profunda sobre o que significa, de fato, ter maturidade política.
O artigo “O PT GAÚCHO | Das migalhas à submissão ao grande reino” (Leia o Link) oferece uma visão crítica e necessária sobre o sentimento de parte da militância. Ao classificar o recuo de Edegar Pretto como uma “intervenção branca” ou “submissão”, o texto toca na ferida do orgulho partidário. É compreensível: Pretto saiu de 2022 como um gigante, batendo na trave do segundo turno com 1,7 milhão de votos. Naturalmente, para o militante apaixonado, qualquer posição que não seja a cabeça de chapa soa como derrota.
Entretanto, é preciso confrontar essa visão com a realidade do tabuleiro de 2026. Onde o artigo vê “submissão”, a análise de maturidade enxerga responsabilidade histórica. Dar um passo atrás não é, necessariamente, diminuir-se; é despojar-se do orgulho de ser o único protagonista para garantir que o projeto inteiro não naufrague no isolacionismo.
A decisão de Edegar Pretto em aceitar a vice-governadoria é um exercício de desprendimento. Na política brasileira, o ego é o combustível de muitas candidaturas natimortas que servem apenas para marcar território, enquanto o adversário avança sobre o terreno dividido.
Ao aceitar a tarefa, Pretto sinaliza que o capital político acumulado em 2022 não pertence a ele, mas a uma causa. O “peso da militância ferida”, citado no artigo, é real, mas a ferida de uma nova derrota por fragmentação da esquerda seria muito mais profunda e duradoura. Superar o ego significa entender que, em determinados ciclos, a força não vem da imposição numérica, mas da capacidade de aglutinar.
VEJA O ARTIGO CITADO NO TEXTO
Para onde essa união leva o Rio Grande do Sul?
A combinação de Juliana Brizola e Edegar Pretto cria um fato político novo e potente, une-se o simbolismo histórico do trabalhismo brizolista (PDT) com a força capilar e orgânica dos movimentos sociais e da base petista. É um resgate da “unidade popular” que há muito se via fragmentada no estado. Como aponta o artigo crítico, o risco de ficar fora do segundo turno diante de nomes da direita e extrema-direita é real. Uma candidatura única e forte desde o primeiro turno obriga o debate a se centrar em propostas, e não em disputas fratricidas dentro do próprio campo progressista.
O sucesso dessa empreitada dependerá, como bem dito, da capacidade de Juliana Brizola em incorporar o DNA do programa que o PT vinha construindo. Se a chapa assumir compromissos claros contra o desmonte do estado e a defesa do Banrisul, a “submissão” se transforma em cooperação programática.
O PT gaúcho pode chegar a 2026 “menor” em termos de espaço na cédula principal, mas chega muito maior em estatura moral e estratégica. A política de resultados exige escolhas amargas no curto prazo para vitórias sólidas no longo prazo.
Se Juliana e Edegar conseguirem transformar a frustração da militância em combustível para a unidade, o Rio Grande do Sul poderá testemunhar não um recuo, mas um salto. Afinal, a verdadeira liderança não se mede pela posição na foto, mas pela capacidade de abrir caminho para que o futuro passe. Recuar para avançar juntos: eis a prova de fogo da maturidade gaúcha.







