Esta é uma crônica tecida com os fios da noite e o sereno das ruas. O protagonista destas linhas é o Senhor Paulo Roberto da Silva, portador de uma alcunha que guardo como um segredo nas entrelinhas, para ser revelada apenas quando a poesia pedir. O que importa, desde já, é saber que este cavaleiro errante, escudeiro dos ventos e amigo das madrugadas, é a própria alma da Aldeia Canoas.
Ele é um anjo de asas caídas, vestido de pura boemia, peregrinando de bar em bar como quem visita santuários. Não há balcão de madeira na Aldeia que não conheça o peso de seus cotovelos ou a melodia de sua presença. O rio do tempo correu; as águas turvas do meu próprio abismo secaram.
Há vinte e um anos deixei de beber o esquecimento e de engolir tempestades químicas. Mas, no tempo em que eu era apenas um náufrago no asfalto, tragado por oceanos de vodka que me roubavam o prumo após a segunda ou terceira garrafa, havia sempre uma âncora. Quando eu caía pelas sarjetas, desfeito em sombras, as vozes da manhã seguinte sempre sussurravam o mesmo milagre:
“Foi o Paulo quem te carregou.”
É preciso manter o mistério, deixar o suspense dançar no compasso da escrita. O tempo passou, inexorável, corroendo pedras e homens, mas minha amizade com o Paulo Silva permaneceu intacta.
Como poderia não ser assim?
Afinal, os anjos não vestem apenas túnicas brancas; eles assumem as mais diversas e imperfeitas formas para caminhar entre nós, mesmo que cheirem a fumaça, a saudade e ao orvalho da noite.
Hoje, ele passeia pela cidade feito um poema que perdeu um verso, mas não a rima: caminha com uma perna só. O veneno doce do álcool e a foice de uma trombose quase lhe roubaram o sopro de vida, mas o nosso Paulo, feito um verdadeiro Saci Colorado, insiste em pular sobre as fogueiras do destino. O homem é forjado em ferro e teimosia. Enquanto tantos desistiram da batalha e pediram demissão da própria existência, entregando os pontos para a escuridão, ele continua a costurar as alamedas da Aldeia. Abre as manhãs e fecha as madrugadas dos botecos como se fosse o senhor absoluto do próprio tempo.

Diz a lenda que quem não conhece essa figura imortal pelas ruas de Canoas, é porque simplesmente não soube viver. É porque nunca se permitiu transcender as esquinas da realidade, nunca voou sem asas, nunca pisou na “Maionese”.
Minha eterna e poética gratidão a ti, Paulo Roberto Maionese da Silva.
NÃO PISA NA MAIONESE!









2 Respostas
Maionese sobreviveu também a enchente, enquanto eu trabalhei no Centro Humanitário de Acolhimento Esperança,no Centro Olímpico,ele permaneceu lá, junto com o Pastor do Centro e o Rodrigo do Guajuviras.
Parabéns pela narrativa poética.
As palavras que contam histórias,, deveriam ser sempre adocicadas da beleza piedosa.