O calendário, por vezes, parece brincar de espelhos. Há exatos 32 anos, no alvorecer de outubro de 1994, o mestre Antonio Canabarro Tróis Filho — nosso saudoso Tonito — debruçava-se sobre sua máquina de escrever para redigir um editorial para a Folha de Canoas. O Brasil estava a dois dias de ir às urnas. Hoje, em 1º de outubro de 2026, estamos novamente a poucos dias de um grande pleito, marcado para este domingo, dia 4. As datas quase se sobrepõem, mas e as esperanças?
Se Tonito estivesse vivo hoje, sentando-se em um café no centro de Canoas para ler as notícias — talvez rolando a tela de um smartphone em vez de folhear as páginas com cheiro de tinta fresca —, ele certamente seria tomado por uma melancólica sensação de déjà vu.
Naquele longínquo 1994, o país respirava os primeiros ares do Plano Real. Tonito alertava: “É preciso parar de confundir inflação com custo de vida”. Hoje, ele notaria uma diferença substancial. O dragão da hiperinflação, que corroía o dinheiro no bolso do trabalhador da noite para o dia, foi domado. No entanto, com seu olhar arguto, Tonito logo perceberia que a segunda parte de sua frase nunca se fez tão atual: “É preciso redistribuir a riqueza, que está concentrada em mãos de minorias”. A inflação pode não ser a de 1994, mas a luta pela capacidade aquisitiva do mercado interno e pela dignidade do salário continua sendo a grande aflição nacional de 2026.
As diferenças que o mestre veria também estão na forma como o mundo se desenhou. Ele falava em “não sermos submissos a blocos de poder”. Hoje, a submissão que nos ameaça não é apenas geopolítica, mas tecnológica, ditada por algoritmos e redes sociais que polarizam e ditam o ritmo da sociedade. Ele falava do “êxodo nefasto” para as grandes cidades; hoje, ele veria que as cidades já incharam, e o desafio agora é a mobilidade urbana, a segurança e as mudanças climáticas que afetam diretamente essas periferias outrora formadas por esse mesmo êxodo.
Mas, ah, as semelhanças…
Essas fariam o Mestre Tonito dar um sorriso irônico, daqueles que só os grandes cronistas possuem. Se ele procurasse pela “nova elite política, nova em ideias e procedimentos” que tanto clamava em 94, ele provavelmente suspiraria frustrado. Em 2026, ele ainda veria os mesmos “inchaços dos governos” e os mesmos “carreiristas, que se grudam ao poder como carrapatos”. Os carrapatos de hoje podem ter marqueteiros melhores e discursos adaptados para a internet, mas a essência fisiológica que Tonito repudiava (“usurpando lugares que outros cidadãos verdadeiros poderiam ocupar”) segue intacta.
Ele também bateria na mesma tecla ao olhar para as nossas escolas e tribunais. A necessidade de “ensino primário a todos” hoje se desdobra no desafio da qualidade e da inclusão digital, mas o cerne do problema educacional persiste. A lentidão da Justiça, que ele pedia para ser agilizada, continua sendo manchete diária.
Ao final de seu texto em 1994, Tonito escreveu uma frase profética e lúcida: “Sabemos que um só mandato não será suficiente. Porém, é necessário dar o primeiro passo da grande caminhada.”
Se estivesse conosco neste domingo, dia 4 de outubro de 2026, diante da urna eletrônica que substituiu a velha cédula de papel, Tonito não seria tomado pelo cinismo. O soldado humanista das letras não desistiria. Ele nos lembraria que trinta e dois anos se passaram, múltiplos mandatos se sucederam e, de fato, não foram suficientes. A caminhada pela democracia, ele nos ensinaria, não é uma corrida de chegada, mas um eterno recomeçar.
As grandes jornadas continuam sendo, exatamente, do tamanho dos nossos pés.

VEJA O TEXTO DE TONITO EM 1994
É hora de mudanças
01 e 02 de outubro de 1994
Estamos a dois dias do grande pleito de 3 de outubro. Elegeremos deputados (estaduais e federais), governadores de estados, senadores e o Presidente da República. Uma bela oportunidade para mudar, acertar o passo deste País. Parodiando um personagem da história mundial, podemos dizer que as grandes jornadas começam do tamanho de nossos pés…
O Brasil necessita, urgentemente, de uma nova elite política, nova em ideias e procedimentos. Chega dos inchaços dos governos, cujos índices de ociosidade oneram o cofre público enquanto adiam soluções de problemas. Chega de contornar problemas, em vez de enfrentá-los. Chega de evasivas. Chega de mentiras. Chega de incompetência. Chega de carreiristas, que se grudam ao poder como carrapatos, usando-o para usurpar os lugares que outros cidadãos, verdadeiros, poderiam ocupar.
É preciso parar de confundir inflação com custo de vida. É preciso redistribuir a riqueza, que está concentrada em mãos de minorias privilegiadas e cúmplices do sistema. É preciso dar capacidade aquisitiva ao nosso imenso mercado interno. É preciso estimular a construção de habitações para os de baixos salários. É preciso formar mão-de-obra qualificada, para que os brasileiros possam realizar-se, profissionalmente. É preciso ocupar um lugar digno no contexto mundial, para que não sejamos submissos a blocos de poder. É preciso oferecer ensino primário a todos, bem como os demais níveis. É preciso agilizar o funcionamento da Justiça. É preciso descentralizar o poder, a fim de que os municípios possam gerar empregos em suas atividades produtivas, evitando-se os êxodos nefastos, que produzem marginais em volta das cidades maiores. É preciso dar uso social ao dinheiro, assim como à terra. É preciso ocupar nosso território, com programas nacionais de desenvolvimento.
É preciso tanta coisa mais… Sabemos que um só mandato não será suficiente. Porém, é necessário dar o primeiro passo da grande caminhada. No dia 3 de outubro!









Uma Resposta
Parabéns pelo texto. Traduz o que as ruas estão dizendo.